Competição, vestibular, índices de avaliação, provas… São ferramentas boas para a educação?

Como montar um projeto de educação para uma mudança societária?

Com projetos competitivos? Com Enem, Ideb, concursos e atividades do tipo?

Apesar da saber que têm as suas razões de existir – pela falta atual de outras formas avaliativas -, como venho afirmando insistentemente, ao me ver, não.

Não podem ser levados como as [únicas] ferramentas para se avaliar uma boa educação!

A educação se faz no dia-a-dia, no convívio, na troca, na relação educador-aluno.

Não se faz com “matéria dada”, conteúdo enciclopédico, decorebas para provas.

Nem se mede, efetivamente, pelo índice de acertos em uma prova múltipla escolha.

Já escrevi alguns artigos por aqui, artigos de opinião, não acadêmicos. São meus saberes de experiência, empíricos, mas nem por isso menos importantes ou legítimos (como a academia pensa).

Já falei sobre isso em relação a gincanas ou olimpíadas:

O que creio é que fazer um trabalho educativo em forma de competição (olimpíada ou gincana, por exemplo), pode fazer com que o objetivo da participação do aluno seja ganhar, e não aprender.

Já fiz algumas considerações sobre o que seria uma boa escola:

Pelo senso comum, [uma boa escola] é ser uma escola “puxada”, rígida, difícil de passar… Uma escola que produz alunos “de sucesso”, com o futuro garantido!

Mas que sucesso é esse? Um sucesso para a sociedade? Não; um sucesso material e individual! É aquela escola que faz seus alunos “vencerem na vida”. Isto torna a vida uma eterna competição. A vida em sociedade nada mais é do que uma vida de competição e, para vencer, vale tudo: trapaças, traições, pisadas nas cabeças dos outros, mentiras, puxa-saquismos, corrupções, propinas… É isto o que uma “boa” educação ensina? Basta ver o que faz a nata da sociedade, escolarizada nas “melhores” escolas.

Então, gostei do artigo abaixo, do qual píncei apenas umas partes.

Apesar da pesquisa a qual se refere ter sido feita nos Estados Unidos da América do Norte e abranger o relacionamento dos alunos com o estudo versus a competitividade para entrar nas universidades estadunidenses, sugiro a leitura e a reflexão sobre o tema:

Fonte: Jornal da Ciência (O Estado de São Paulo – 26/06/11)

Competitividade na escola é criticada

Ambiente escolar voltado apenas para resultado de vestibular desestimula aprendizado, defende educadora em artigo na ‘Science’.

Um ambiente escolar extremamente competitivo – e voltado para testes de ingresso na universidade – está prejudicando a vida de muita gente.

[…]

Para a pesquisadora de Stanford, os jovens são treinados para obter um excelente desempenho em testes de múltipla escolha. […] Nada contra o desempenho extraordinário nos exames ou contra atividades fora das quatro paredes da sala de aula. Mas Deborah aponta que há algo de aberrante na educação focada em resultados mensuráveis, currículos e rankings.

Segundo ela, em nome da eficácia administrativa da preparação para os exames, sufocam-se, por exemplo, a alegria do aprendizado, uma visão construtiva dos próprios erros e a formação de uma personalidade madura e equilibrada.

Um sistema racional – pois ninguém pode negar que atinge seu objetivo principal: produzir especialistas em provas -, mas pouco razoável. Afinal, “prejudica vidas que poderiam ser promissoras de outra forma”, como afirma textualmente o editorial.

[…]

Soluções – Para Deborah, não bastariam mudanças pontuais. Seria necessário alterar o modo como funcionam universidades, colégios e até mesmo famílias.

[…]

“Normalmente, a pressão mais forte ocorre dentro de casa”, aponta Maria Beatriz. Alguns pais criam um sonho para o futuro dos filhos e pretendem realizá-lo a qualquer custo. “Passei as últimas duas décadas explicando para pais que seus filhos não terão fracassado se não passarem no vestibular concorrido de certas universidades.”

“Sucesso na vida não requer um diploma em uma das dez universidades (de maior prestígio)”, confirma Deborah. “Precisamos ensinar aos pais a vantagem de um rol maior de universidades na sua lista de opções.”

Ver a educação como um produto, e não como um processo, seria a raiz dos males, segundo Maria Beatriz. “Você deixa de olhar para o bem da pessoa concreta e começa a se preocupar só com resultados”, aponta.

Veja aqui outra opinião interessante sobre o tema.

Por isso tenho insistido, em meu dia a adia de professor, em fugir das práticas que envolvem competições, provas, notas fechadas, concursos, etc.

Isso não pode ser confundido com desmerecer o mérito. Não se pode querer igualar todos à força, não enxergar que aqueles que mais se esforçam são os que mais recebem de volta.

Os que mais estudam, participam, ajudam, propõem, pesquisam, respondem, são os que têm melhores resultados, são os que terminam por merecer mais.

Mas, paralelo a isso, deve existir, para todos, o estímulo ao convívio pacífico, à cooperação, à ajuda mútua, ao trabalho em grupo, à divisão de tarefas…

E, principalmente, o estímulo ao prazer de estudar pelo simples prazer de saber, conhecer, entender, pensar – e não ganhar uns “pontos” a mais,”passar de ano” ou  passar numa prova.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Em busca de uma sociedade diferente