Quase ensinando a ler no 7º ano

– Professor, onde eu acho? – pergunta a aluna sobre o tema do projeto de pesquisa proposto.

– Você sabe que ali tem um monte de livros, olha lá! – respondo eu, apontando par o óbvio.

– Ah tá.

[A aluna vai até os livros e depois de uns 3 minutos, volta]

– Professor, não achei nada, ali não tem nada!

– Você procurou, você leu?

– Claro, né, professor!

– Pega lá os livros que você viu, traz eles pra mim.

[A aluna vai à estante e volta com 4 livros]

– Procure aqui na minha frente.

[A aluna abre um livro em minha mesa, vai ao sumário – ao menos isso eu consegui ensinar, porque nem isso eles sabiam – passa o dedo rapidamente]

– Neste livro não tem. [De fato não tinha]

[A aluna abre outro]

– Este livro é de quê? – pergunto.

– Física e Química… é… aqui não tem – chega à conclusão após ler a capa.

[A aluna pega outro livro e faz a mesma coisa, abre no sumário e passa o dedo rapidamente pelos itens, passando, inclusive, sobre o tema da pesquisa]

– Aqui também não tem!

– O que, afinal, você está procurando? – pergunto.

– Hummm… é… é… esqueci!

– Como você quer achar algo que você não sabe o que é? Como você pode estar procurando algo que nem sabe o que é? Como vai saber se achar?

– Mas eu sabia, eu esqueci… peraí… – vai à mesa dela e volta com a resposta: é inseto!

– Então tá, inseto. Procure de novo, devagar.

[A aluna abre o livro no sumário, vai passando o dedo e lendo]

– Mas tem que ler tudo isso aqui?

– Se você não ler, como vai saber se é ou não?

[Volta à leitura do sumário]

– Achei!

– Que bom, agora vai terminar o trabalho.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Quase ensinando a ler no 7º ano

3 comentários sobre “Quase ensinando a ler no 7º ano

  1. É isso aí, Declev. Paciência, repetições, insistência… que aí sim o aluno anda um pouco pra frente, mesmo com toda a insegurança (vista, em geral, como “preguiça”) que tem!
    É muita sacanagem (não dá pra usar outra palavra!) um país como o nosso – me refiro aos políticos e às políticas públicas – deixar as crianças e os adolescentes desse jeito, sendo educados para serem “futuras mãos-de-obra baratas no mercado”, sem condições de ir além disso, em sua maioria…
    Quem tenta despertar outras possibilidades neles, pena bastante.
    Te entendo totalmente!
    Mas insista, pois cada vez que vc consegue mostrar/ensinar ao menos um pouquinho, como fez hoje com essa aluna, isso faz a diferença e tem um valor imenso!!!
    Abração…
    Regina Milone.

  2. Acho que você fez exatamente o que tinha que fazer. Pegou um aluno com dificuldades, que mal sabe (e provavelmente odeia) ler e conseguiu fazer ele chegar ao resultado. Muito melhor do que as alternativas: dar a resposta ou desistir.

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