O professor e seu rito de passagem

Os ritos de passagem (ou de iniciação) são cerimônias que marcam transições importantes no desenvolvimento de uma pessoa, ocorrendo alguma mudança de estatuto social. Eu acredito que o magistério tem o seu rito de passagem.  Saímos sonhadores da faculdade , convictos que o nosso trabalho é mudar o mundo; até que, passados poucos anos, alguém nos faz despertar para a realidade, nua e crua – é o acordar da utopia.

A minha iniciação ocorreu após cerca de 1 ano lecionando na rede municipal de Volta Redonda (RJ), local da primeira matrícula que obtive na educação pública. Tive um pouco de azar, confesso, pois estava em uma escola dirigida pela versão feminina do Hitler. Estávamos em meio ao segundo bimestre quando fui chamado pela diretora-ditadora e a supervisora educacional – que apesar de não concordar com muitas ideias da primeira, se mantinha como sua assecla.

Na pequena reunião, a minha conduta como profissional foi elogiada e, supostamente, não havia nada de errado com o meu trabalho. Acontece que o meu “aproveitamento” foi muito baixo no 1° bimestre. Era preciso então achar um defeito. Disseram que eu era muito exigente com os alunos. Eu deveria entender que “a condição socioeconômica do nosso aluno faz com que ele não tenha capacidade de ser atingido com tal exigência”. Precisava fazer algo mais “acessível”. Foi considerado um absurdo eu ter dado zero para alguns trabalhos que foram todos copiados da internet (descaradamente), mesmo com todas as orientações para que isso não fosse feito. Em uma das vezes que me defendi fui advertido pela diretora para “ficar calado”. Ainda fez questão de dizer que ela “está hierarquicamente acima de mim”, o que se traduzia mais ou menos em “rapaz, seja submisso enquanto eu falo”.

Para terminar, fui ameaçado duplamente. Primeiro, me disseram que se minhas notas não melhorassem seria constrangedor para mim “ter que mudar as médias dos alunos no final do ano, já que, quem decide mesmo sobre isso é o conselho de classe”. Segundo, a diretora disse claramente que se eu continuasse assim “não chegaria até o final do ano”. Para bom entendedor, meia palavra basta!

Lembro-me como se fosse hoje: quando saí daquela sala, parte de mim ficou. Aquele jovem que queria mudar o mundo ficou para trás. Cada passo pelo corredor parecia me levar para a realidade da profissão. No mesmo ano, uma colega contou o que havia ocorrido com ela. O diretor, após a mesma discussão a respeito da “produtividade”, instruiu a professora a não se preocupar, pois “os alunos vão virar bandidos e as alunas serão putas”. Uma pequena investigação e descobri que os filhos dos dois diretores estudaram em colégios particulares. Assim fica fácil decidir sobre a vida do filho dos outros. Minha filha estuda em escola pública e eu não quero que os professores façam algo “acessível” (eufemismo para “passar de qualquer jeito”) para ela. E mais, não quero que ela vire puta!

O que esse rito de passagem teve de bom? O despertar de um desejo imenso de fazer alguma coisa. Os textos foram e ainda são o único caminho, mas já enxergo outros. No entanto, hoje estou com os pés no chão. Infelizmente, é bom que se diga, pois o mundo utópico de outrora era bem mais colorido.

E você? Como foi o seu rito de passagem?

Luiz Eduardo Farias

8 comentários sobre “O professor e seu rito de passagem

  1. Caro Luiz Eduardo,

    É vergonhoso o que fizeram com vc e fazem, a cada dia, com tantos profissionais de educação! Acompanhei muitas histórias como a sua e, nesses casos, sempre defendi o professor!

    Saiba que, como pedagoga, passei por situações parecidas, discuti com diretores que se colocavam “acima de mim” e eu rebatia, pois, afinal, se no discursivo o pedagogo é parte da chamada “equipe diretiva” (balela!), então na prática também tinha que ser! Nunca calei a boca. Cada vez que era chamada para “dar uma forcinha” em algo que a diretora tinha que dizer para alunos, professores ou famílias, eu ia, mas, se não concordasse, colocava o meu ponto de vista com clareza, o que sempre enfureceu esses diretores que achavam que estar junto é pensar sempre igual. Isso entre outras coisas. Muitas! Histórias que não acabam mais… Como, por exemplo, certa vez que tive que ouvir a diretora dizer para uma turma de 6º ano que ia identificar as “frutas podres” (??????????) dali para tirá-los da escola (expulsar aluno é proibido, além de tudo!), pedindo aos alunos que dedurassem uns aos outros em relação a quem estava “aprontando” mais. Ouvi tudo e, depois, calmamente, falei tudo diferente, com cuidado para não agredi-la diretamente, mas usando argumentos com base, ao contrário dela. Os alunos logo me entenderam. Gostavam muito de mim! Resultado: não deduraram ninguém e ela ficou uma fera comigo, mas não pôde dizer que fui grosseira com ela ou algo assim. Teve que engolir. E a turma melhorou seu “comportamento” depois de me ouvirem, o que foi gratificante pra mim.
    Frutas podres??? Tenho horror a esse pensamento discriminatório e injusto!!! Nunca poderia apoiá-lo!
    Enfim…

    Vc pergunta sobre o rito de iniciação. Como psicóloga junguiana, gostei muito dessa sua abordagem.
    Acho que passamos por vários ritos na vida e mesmo dentro de uma mesma profissão ou de um mesmo relacionamento.
    Meu primeiro rito de passagem foi ainda na faculdade de Pedagogia, lá pra 1984, quando os estágios se intensificaram (comecei o curso e alguns outros estágios em 1982) e participei ativamente de vários trabalhos em favelas, orfanatos, empresas, etc. Foi um leque variado que fez com que eu me formasse pensando exatamente o seguinte: ” a escola é uma instituição falida e não adianta trabalhar nela e sim, de alguma forma, buscar transformá-la totalmente”. Ainda penso assim, embora durante algum tempo tenha achado que aquela minha percepção inicial havia sido muito radical, fruto de uma cabeça jovem, de 20 e poucos anos. Mas não. Tempos depois, vi que não.

    Então, todos os absurdos que já vi e vivi naquela época de estudante formaram o meu primeiro rito de passagem nessa área, sem dúvida nenhuma.

    Ótimo texto! Parabéns!!!

    Beijos,
    Regina Milone.

  2. Luiz, parabéns pelo texto! Comecei minha vida profissional como professor, em 1967. Havia mais respeito por parte da direção, por parte dos alunos e por parte das famílias. Também havia os “diretores ditadores” e em alguns colégios particulares a “revisão” para aprovar os alunos que tinham ficado em “2ª época”. A verdade é que a educação, de um modo geral, não é levada a sério no Brasil e os políticos, principalmente os governantes, além dos que conduzem o processo educacional, colocam os seus filhos nas escolas particulares. Daí o descaso com a escola pública. Um abraço de Sérgio Boechat

  3. Pois é, Regina, sempre fui um cara que não engoli muito bem essa hierarquia na escola. Claro que devemos dar satisfações para aqueles que, por função, devem recebê-las. Daí a mandar calar a boca é uma distância bem grande. A maioria das escolas está precisando urgente de uma democratização.
    Eu só acho que não devemos baixar a cabeça para essa situação. Nesta escola que relatei, da versão feminina do Hitler, quase todos os professores baixam a cabeça e no máximo me procuravam e diziam, bem escondido, que concordava comigo. Tudo em nome da troca de favores, seja para um dia de folga, uma saidinha mais cedo para buscar o filho na escola ou aquela forcinha para o horário ficar como o professor quer. É a venda de valores pelo pragmatismo e a tranquilidade.
    Já a ideia do rito foi por acaso. Quando decidi o tema do texto me veio exatamente a imagem de uma iniciação. É exatamente como me senti. Perdi a inocência e alguns sonhos naquele dia (e em outros). “Mudei de fase!”.

    Beijos,
    Luiz Eduardo Farias

  4. Pois é, Sérgio, também acredito que a educação é muito mais um discurso do que uma preocupação política, assim como a questão da seca, da fome, só para citar alguns. Se houvesse vontade política nesse país, não tenha dúvida que resolveríamos esses problemas.
    Acompanho o seu blog e faço votos que Volta Redonda possa ter um político com suas ideias.
    Um abraço!

  5. Luiz Eduardo,

    Vc tem razão de não baixar a cabeça! Também sou assim.
    Mas vc sabe que, pessoas assim como nós, num ambiente nada democratizado como é a escola, sofrem mais, muitas vezes são excluídos, etc.

    Respeitar a hierarquia não é aceitar uma grosseria como a que a tal diretora usou com vc! Te “mandar calar a boca”?!!!! Que absurdooooo!!!!!!!!! Típico de quem está sem argumentos.

    Nesse ponto, a posição do pedagogo é muito mais delicada e difícil, pois muitos ainda esperam (e muitos se comportam assim) que continuem sendo os “guarda-costas” dos diretores e das ordens, de cima pra baixo, que vêm das secretarias de educação. Resquícios do tempo da ditadura militar, em que as especializações dentro do curso de pedagogia também foram criadas com essa intenção horrorosa. Embora o curso tenha mudado e as próprias especializações também, há muitos anos já (quando fiz meu curso, em 1982, Dermeval Saviani já era uma das melhores referências pra mim, junto com Moacyr Gadotti, Paulo Freire e outros), muitos pararam no tempo, infelizmente.

    Remar contra a maré não é fácil, amigo!
    Mas estamos juntos nessa!

    Abração,
    Regina.

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