Meritocracia na educação: injustiças e descasos

Assim como em todas as outras categorias, nem todos os professores são bons profissionais. Normal.

Partindo deste princípio, a intenção declarada das secretarias de educação ao implantar o fatídico “bônus por desempenho” é “premiar os bons profissionais”.

Mas a educação não é um trabalho como outro qualquer, ao contrário do que pensam os economistas e administradores colocados, à fórceps político, nas cadeiras do poder.

Medir o “desempenho” de um trabalhador comum, como um economista, um administrador, um pedreiro ou um gari, por exemplo, é fácil: quantas horas trabalhou, quanta produção demonstrou, quantos carimbos batucou, quantas cartas enviou, quantas ruas limpou, quantos formulários preencheu, quantos contratos fechou, quantas botas lambeu…

Mas, como medir o desempenho de um professor?

Pela “aprovação”? Basta aprovar todos, então!

Ah,sim… pelas notas de seus alunos em provas como Enem e índices como Ideb!

Ora, pra começar, o IDEB  também leva em conta, com peso grande, a reprovação x aprovação.

Por outro lado, como medir exatamente o real desempenho dos professores em escolas com índices e notas bem diferentes, mas que uma se localiza em meio a uma zona de conflito, violenta, com alunos bem pobres e outra se localiza em um bairro mais estruturado, sem a opressão da violência?

Acham que não há diferença? Então leiam este artigo:

Os resultados sugerem que as escolas localizadas em bairros que apresentaram crescimento da criminalidade violenta no período, apresentaram também baixo crescimento do desempenho escolar de seus alunos, mesmo após o controle de características da escola e de características socioeconômicas do bairro. Além disso, o efeito total mostra que, quantitativamente, um aumento de 1% na taxa de crescimento da violência está significantemente associado a uma queda de 0,5% na taxa de crescimento da nota no período em questão.

Vamos falar de prêmios meritocráticos e injustiças?

Vejamos um caso que pode ser real, vocês decidem se é ou não, eu não vou dizer, digamos que eu inventei…

Era uma vez um professor que pode ser considerado “ruim”. Ele explica, mas os alunos não entendem. Não tem muita didática. Não tem “manejo de turma”. Não tem uma boa dicção.

Toda aula dele é um terror para os outros professores da escola, pois diversos alunos – mormente os piores e mais bagunceiros – saem de sala a sua revelia, andando pelos corredores, ficando nas portas das outras salas, atrapalhando as outras aulas.

Este professor se apaixona por uma aluna de 15 anos, que, sabia ele, era apaixonada por ele desde os 13.

Sim, isso mesmo, né Regina?

Ele leva a paixão adiante, dando, inclusive, um beijo na aluna dentro da escola, em uma sala vazia.

O professor? 44 anos.

O estagiário dele também se apaixona pela mesma aluna, gerando uma espécie de “concorrência”, onde também se encontra o namorado dela. Sim, ela tinha namorado.

O pai e a mãe ficam sabendo disso e vão à escola querendo matar o professor. Este se diz apaixonado pela aluna, que quer casar com ela, assumir o namoro…

Faz-se reunião com o professor com a direção da escola, onde ele confirma tudo, inclusive o beijo. Leva-se o caso à CRE.

Abafa daqui, abafa dali e a própria mãe não quis registrar queixa – até por conhecer a filha que tinha… [sem maiores comentários sobre isso].

O professor, por ordens superiores, sai da escola, sendo transferido a outra unidade escolar.

Certo dia ele quer voltar, mas a direção, prudente, é contra e o convence que “não seria muito bom”.

Este professor vai parar em uma das “melhores” escolas municipais, “coincidentemente” localizada no coração da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde mora a classe média e alta.

Esta escola tem o melhor desempenho no rank que compara as escolas pelas notas em provas de Português e Matemática.

Os professores desta escola – visto que, na cabeça torta dos gestores, são os “melhores” da rede – ganham uma viagem para Nova York com tudo pago, como uma das “ações para valorizar ainda mais o professor”.

Este professor da nossa historinha, então, ganha um prêmio por ser um dos “melhores” da rede, indo para nova York com tudo pago com o dinheiro da educação.

A culpa deve ser minha.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Péssimo professor

15 comentários sobre “Meritocracia na educação: injustiças e descasos

  1. “melhor” escola municipal, “coincidentemente” localizada no coração da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde mora a classe média e alta.

    Por acaso seria a Estácio de Sá?

  2. Declev, essa discussão vai longe. Sou um crítico desta imagem da escola como fábrica. Não depende só de mim aumentar o aproveitamento das turmas. O “produto” da escola é abstrato. Até hoje ninguém conseguiu me convencer que existem critérios justos para avaliar quem é ou não um bom professor. Além de todos os problemas citados por você, ainda tem a questão de “quem” vai avaliar.
    Enfim, isso que dá ter um monte de economista se metendo na educação…

  3. Querido Declev,

    Como são loucos e injustos os descaminhos da educação…
    Como um professor, que fez tantos absurdos – todos convenientemente “abafados” – em outra escola, pode ir para Nova York, com tudo pago, “premiado” como um dos melhores professores da rede???? É tragicômico!!

    Uma avaliação justa do trabalho desse ou daquele professor tem que levar em conta, necessariamente, o local e as condições (recursos, carga horária, etc.) em que ele trabalha, pois é óbvio que em escolas onde o entorno é mais violento, o “desempenho” de todos vai ser “pior”, pois conseguir o mínimo nesses locais já é dificílimo e já e uma vitória!
    É totalmente injusto aplicar essa ideia, comportamental, behaviorista, de prêmio ou castigo na educação. Tanto para alunos – e isso é feito há muito tempo – quanto para professores. Não somos ratos de laboratório para sermos tratados assim, na base do (da tentativa de ) condicionamento!
    Outra vergonha!!!

    E essa visão da escola como fábrica, que o Luiz também citou, é péssima realmente. Estamos lidando com gente, diversidade, pluralidade, culturas diferentes… E não simplesmente com números ou qualquer outra coisa que não envolva subjetividades!

    Existem critérios justos para se avaliar professores e alunos, mas variam de cultura pra cultura, escola pra escola, momento histórico pra momento histórico, senão fica impossível. Mas a escola é, tradicionalmente, uniformizadora e, por isso, quer aplicar indiscriminadamente o mesmo a todos, igualmente. Mas não se pode ser justo, diante da pluralidade em que vivemos, agindo assim!

    Esta tudo errado!!!!

    Só posso concordar, mais uma vez, com vc, meu amigo…

    Um abraço,
    Regina.

    • Pois é, gentes.

      Já falei por aqui algumas vezes que números, em si, não avaliam a educação.

      Esses números não avaliam se, por exemplo, um aluno iria se meter no crime, suicidar, usar drogas, mas por causa do trabalho de um professor, da amizade, da conversa desse professor, ele não fez nada disso.

      Ou que ele entrou na escola sem nem saber uma letra, mas está no 9º ano e hoje lê e escreve, mas não o bastante pra ficar com 6 no ideb.

  4. Disse tudo, Declev!
    E esses números não só não avaliam as ajudas que os bons professores deram a esses alunos, como as que os bons pedagogos também deram, os bons diretores, etc.
    Até porque, só olham para os profissionais de educação para “avaliar” se estão cumprindo a parte burocrática (papelada), os horários e se estão ou não aprovando muitos alunos, não importa como!
    Triste…
    Bjs

  5. Vc está sendo um pouco preconceituoso ao achar que a carreira do professor “não é um trabalho como outro qualquer” e que outras carreiras teriam medições objetivas mais fáceis.

    Trazendo o seu exemplo para uma área que vc mesmo citou como mais fácil, um economista está em um banco que está afundando e perto da falência também pode ser mal avaliado e o mesmo economista ser bem avaliado ao ir para um banco saudável caso a métrica utilizada seja simplesmente faturamento da área.

    Me parece que o problema apontado por você é muito por questão de uma métrica mal pensada e não poque educação é diferente das outras carreiras.

    Uma métrica possível seria o acompanhamento das notas da turma em comparação com as turmas anteriores dele ou a taxa de correlação entre a melhora das médias das turmas do professor com a melhora média das turmas do município.

    Bolar uma boa métrica é algo complicado pois tem que ser claro, justo e auditável para evitar as “peixadas”…

    • O problema da profissão de professor é a mesma de outras nas mesmas condições: trabalha com seres humanos.

      Um médico faz exames, manda uma série de remédios e recomendações, tudo certo.

      Um paciente faz tudo, outro não.

      Um morre, outro não.

      O médico é “bom” ou “ruim”?

      Se o paciente que faz as coisas e sobrevive for de um médico e o que não faz e morre for de outro, o primeiro será “bom” e o segundo será “ruim”.

      Há muito mais coisas envolvidas quando se trabalha diretamente com seres humanos, e não com números ou máquinas, foi isso o que eu quis dizer.

  6. Quando o médico é medido, não é de forma tão simplista. No caso citado a medição correta seria pela precisão do diagnóstico, que é a responsabilidade do médico e é checável. A sobrevivência do paciente depende de coisas que não são do domínio do médico, como se ele tomou ou não a medicação e por isso não é uma métrica correta para a performance do médico.
    Métricas são boas, mas precisam ser bem escolhidas ou vão levar a conclusões incorretas.

    • Então, Paulo, estamos chegando num acordo.

      Se esta métrica não é boa porque “a sobrevivÊncia depende se ele tomou ou não a medicação”, porque a métrica da escola boa ou ruim é boa pra você?

      Ora, se o professor faz seu trabalho, ensina, planeja, pede, briga, orienta, discute, faz atividades mil, atividades práticas, teóricas, envia dever e pesquisa pra casa mas… o aluno não faz e não aprende?

      São as pessoas que aprendem, por esforço de estudar. O professor é o mediador deste aprendizado, mas se os alunos não querem e não “tomam a medicação”…

  7. É por isso que a análise é estatística e não focada em um indivíduo isolado. É possível isolar (ou quase) as variáveis por meio de ferramentas estatísticas.

    Não conheço o algoritmo do IDEB (vou pesquisar), mas uma prova padronizada aplicada nacionalmente como é o enem ou o provão de engenharia podem ser usados para definir métricas justas.

    Não pode ser somente a nota da prova , claro! Mas um acompanhamento da evolução de uma determinada matéria no passar do tempo comparada com a evolução da área pode mostrar o quanto o professor foi o diferencial para uma turma.

    Uma área violenta que teve um aumento da nota em 1% em uma prova padronizada em vários colégios, mas uma determinada turma a nota de física aumentou em 10% no mesmo período indica que algo ali foi diferente. Com o uso de ferramentas estatísticas mais rebuscadas (que não vou explicar aqui porque não tenho a didática necessária) dá para isolar com razoável precisão a influência de um bom professor na evolução de uma turma.

    Mas eu posso estar sendo ingênuo e o problema não seja “como medir” e sim “me interessa medir?”

    • Oi Paulo,

      O problema é que essa medição assim, apurada, não é feita.

      O Ideb leva em consideração, como peso grande, a “aprovação’.

      Ora, aprovam-se todos, mesmo sem aprender!

      No mais, o que venho sempre dizendo é que esses índices matemáticos estatísticos “cartesianos” não levam em conta a interação do professor-aluno; aquele aluno que ia ser bandido mas não é mais, aquele outro que perdeu o pai com um tiro e ia sair da escola, mas não saiu; o aluno que ficava no lixão catando de madrugada, mas agora frequenta a escola; o outro que pedia dinheiro nos sinais à noite, mas graças à intervenção da escola junto aos pais e ao conselho tutelar não fica mais etc etc etc.

      Conheço “n” casos assim, verídicos, nas escolas em que trabalho, mas as “notas”, os “índices” não são bons.

      São escolas “ruins” ou piores? Ou são escolas que fazem o trabalho – social – que devem fazer, mas não têm condições – pelo próprio alunado – de ir além disso?

  8. Vou repetir, aqui, o que escrevi nos comentários do último artigo sobre cotas do Declev, pois acho que tem a ver com essa discussão também. Aí vai:
    Existe uma matéria chamada “medidas educacionais” em pedagogia. A maioria não conhece ou, quando teve a chance de aprender, achou chato mesmo sem saber e continuou não sabendo. Então, acabam repetindo as formas antigas como eram avaliados quando eram apenas alunos.
    Existem muitas formas de avaliar, de medir desempenhos, de observar processos e, ao final, chegar a algumas conclusões. O que não dá é, num país como o nosso, querer usar o mesmo tipo de medida para todas as realidades culturais que temos, pois é uma pluralidade enorme, muitos brasis, então dizer simplesmente que, pelas notas, um aluno merecia estar ali e ir além ou não, é muito pouco. Insuficiente. Estamos na área de Humanas, como nos lembrou o Declev, e, por isso, a forma de medir não pode ser apenas estatística e nem a mesma aplicada indiscriminadamente a todos. A não ser que neguemos a existência da injustiça social em que vivemos, que obviamente afeta o aprendizado dos alunos e o trabalho dos professores.
    Não há competição de igual pra igual entre brancos de classe média de um lado e negros de periferia de outro. Isso é um dado de realidade.
    Por essas e outras é que sou a favor das cotas e a favor de avaliações de desempenho sim, mas contanto que sejam feitas de forma diferente do que o que temos visto por aí, tanto para avaliar alunos quanto para avaliar profissionais da educação.
    Abraços…

  9. Entendo que o sistema possui falhas – como qualquer sistema, aliás. Mas coloquemo-nos no lugar do gestor:
    – Como avaliar quem ganha e quem não ganha a viagem na escola que teve bom desempenho? Nesse caso talvez dê para saber que o professor X está ali por punição e não por mérito. E mesmo assim, dizer que ele não vai ganhar a viagem porque está ali devido a um envolvimento com a aluna não funciona. Critérios objetivos são necessários. Poderiam ganhar apenas aqueles profissionais que completaram todo o ano letivo ali, por exemplo.
    – Em uma escola com indicadores sociais ruins e várias dificuldades, espera-se – e entende-se – que as notas sejam mais baixas. Mas lá também há o professor que fica lendo jornal na aula e aquele que se esforça para que todos aprendam. Como diferencia-los?
    Lidar com um sistema grande e complexo como esse é muito difícil. Toda solução que pensarmos – pelo menos as que eu consegui pensar – terão falhas também em algum momento.

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