Alteridade, exotopia e dialogismo: você, educador, já ouviu falar nisso?

– Vamos pensar sobre EDUCAÇÃO

O que existe hoje para nos ajudar, nesse sentido? Vamos pesquisar um pouco?

Algo que me chama muito a atenção é o fato da troca de acusações ser uma constante no meio educacional brasileiro (não que isso aconteça só nesse meio…). Parece ser mais fácil apenas projetar a “culpa” em alguém ou em um segmento inteiro do que exercitar a autocrítica e aprender a criar soluções, individual e coletivamente, já que estas não serão encontradas prontas em algum lugar; terão que ser construídas. E essa construção dá trabalho, exige comprometimento, responsabilidade e dedicação.

Comecemos pelas famílias, que reclamam das escolas, dizem que seus filhos não estão aprendendo – o que, em grande parte, é verdade -, mas, por outro lado, largam seus filhos nas ruas fora do horário escolar, às vezes porque estão trabalhando e outras vezes por pura negligência e irresponsabilidade. Mostram, também, não ter paciência, e, na tentativa de serem firmes, acabam utilizando ameaças, intimidações, gritos, xingamentos e agressões físicas para “educar”. Pouco ou nada utilizam o diálogo, a tentativa de realmente explicar o porquê de determinados “nãos”, sendo persistentes em relação à importância de mantê-los. É comum terem filhos muito jovens, já que a gravidez na adolescência tornou-se comum nessas comunidades, o que, de certa forma, eleva o status desses jovens que passam a ser tratados, de um dia para o outro, como adultos, o que a princípio adoram e, a seguir, quando começam realmente a ter que lidar com os cuidados diários que uma criança exige, ressentem-se e se perdem completamente, muitas vezes entregando esses filhos para serem criados pelas avós ou outros parentes que, por sua vez, também se ressentem disso e descontam nas crianças. E é de ambientes assim que vem grande parte dos alunos da escola pública atualmente, o que explica, em parte, a crescente agressividade desses alunos entre si, com os professores e com quem quer que tente modificar suas atitudes violentas.

Já a escola, por sua vez, reclama das famílias, culpando-as por tudo, mas muitas vezes sem nem mesmo ter tentado efetivamente alguma aproximação com elas, passando a conhecer seus hábitos e cultura para, assim, poder compreender e lidar melhor com aquela realidade à qual pertencem. A escola chega de certa forma falando outra língua, sem ver/ouvir de verdade o público que vai atender e tentando impor comportamentos, discursos e valores, em geral de classe média, oriundos do senso comum e não de conhecimentos pedagógicos, na maioria das vezes. Dessa forma vão procurando massificar, uniformizar e, ainda hoje em dia, aprisionar corpos e mentes, que ficam sem espaço físico, intelectual e psíquico para desenvolverem-se, amadurecerem e poderem sair desse círculo vicioso de pobreza, material e cognitiva, que vem, em parte, da família e, em parte, da escola. E esses obstáculos ao pleno desenvolvimento da criança e do adolescente acontecem, entre outros motivos, pelo fato do próprio profissional de escola pública, hoje, ser muitas vezes oriundo de ambientes, nesse ponto, semelhantes aos de seus alunos, onde era comum a ignorância e o preconceito falarem mais alto do que o conhecimento. E, com essa mentalidade castrada e inconsciente, como podem realmente educar alguém para exercer algum tipo de liberdade criativa e responsável no mundo, já que nem eles mesmos sabem o que é isso?

Muitas críticas também são feitas aos pesquisadores, geralmente considerados “teóricos que nada sabem da realidade que enfrentamos diariamente”. Esse é um texto dito e redito especialmente por professores, já que a realidade de sala de aula, ainda arcaica em seu funcionamento e escassa em recursos didáticos e técnicos, anda cada dia mais desgastante, o que, segundo opiniões dos que trabalham em escolas, os pesquisadores desconhecem.

Já os alunos culpam ora os pais, ora a escola e os professores, ora o mau exemplo de muitos outros adultos com quem convivem, ora os próprios colegas, por sentirem-se incompreendidos, mal tratados e/ou bastante desestimulados, na maior parte do tempo.

E todos os segmentos – educadores, famílias, alunos, funcionários… – culpam os políticos que, muitas vezes, eles mesmos ajudaram a eleger.

Em comum o que vemos são queixas, reclamações, acusações… Um muro de lamentações constante. Um exemplo disso são as reuniões pedagógicas, conselhos de classe e grupos de estudo, que fazem parte, por lei, do calendário escolar anual, onde o que menos se faz é justamente estudar, ler, refletir e buscar saídas.

Como querer, diante de todo esse quadro, que um aluno se mantenha com brilho nos olhos, curiosidade e desejo de aprender se as próprias famílias e os profissionais de educação parecem não saber mais o que é isso?

Inúmeras teses e artigos já foram escritos sobre esse tema. Cada ponto de vista de cada segmento envolvido foi ouvido, investigado, analisado, pensado e repensado. O que podemos, diante disso, acrescentar?

É aqui que entra, a meu ver, uma importante reflexão sobre a questão da alteridade. E o que é isso? Alteridade é “natureza ou condição do que é outro, do que é distinto” (Dicionário Houaiss). É “situação, estado ou qualidade que se constitui através de relações de contraste, distinção, diferença” (Dicionário Houaiss).

A prática da alteridade se conecta aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais, religiosos, científicos, étnicos, etc. Alteridade não é reconhecimento de diferença, mas estranhamento, distanciamento capaz de interrogar. Pela relação alteritária é possível exercer a cidadania e estabelecer uma relação pacífica e construtiva com os diferentes, na medida em que se identifique, entenda e aprenda a aprender com o contrário. Por meio desse processo, nós vemos o mundo sob uma perspectiva que não é a nossa e que por isso mesmo nos enriquece a própria visão de mundo. Isso, evidentemente, não nos apaga no que somos; mas ao transformar nossa relação com o mundo, transforma a nós mesmos.

Para Mikhail Bakhtin o grande desafio do momento é romper com o modelo antigo de fazer ciência, dogmático e positivista, e ao mesmo tempo não cair num relativismo extremo. Bakhtin, para isso, trabalha também o conceito de exotopia, que significa desdobramento de olhares a partir de um lugar exterior. Esse lugar exterior permite, segundo Bakhtin, que se veja do sujeito algo que o próprio sujeito nunca pode ver. Essa atitude comporta um olhar comprometido e ético.

Tal movimento, que Bakhtin caracterizou como exotopia, diz respeito ao processo envolvido nas relações humanas, na criação estética ou na pesquisa científica na área de ciências humanas segundo o qual procuro me colocar no lugar do outro, compreender como a partir de sua visão que é única ele se coloca em relação ao mundo, para, depois, retornar a minha posição, acrescida da experiência do outro, mas acrescentando ao outro o que ele não vê, pois é como o vejo ao fim do percurso que lhe dá uma visão que ele de si não tem. Se sou eu que finalizo, dou uma visão acabada ao outro, inversamente, é o outro que pode dar-me o acabamento, situar-me de meu lugar no mundo também, num processo de trocas recíprocas e mutuamente esclarecedoras. E é ele que me dá o que somente sua posição permite ver e entender.

Para Bakhtin, exotopia e alteridade são movimentos de aproximação e distanciamento que precisam ser igualmente realizados. Compreender o sujeito em seus próprios termos é uma etapa do trabalho, mas a análise não deve parar aí, pois é fundamental que se trabalhe a diferença de lugar entre a pessoa que olha/fala e a pessoa que vê/escuta, incluindo aí a bagagem teórica e as concepções de cada um. Essa diferença de lugar é a condição da compreensão, necessária para que a alteridade, através da utilização da relação dialógica, aconteça.

Um dos aspectos mais inovadores da produção de Mikhail Bakhtin foi enxergar a linguagem como um constante processo de interação mediado pelo diálogo  e não apenas como um sistema autônomo. Para Bakhtin, a verdade não se encontra no interior de uma única pessoa, mas está na interação dialógica entre pessoas que a procuram coletivamente. Lembrando que dialogismo significa “arte de dialogar” (Dicionário Houaiss), o processo que precisaria ser vivenciado nas escolas deveria ser um exercício constante dessa arte, onde o ponto de vista de cada um poderia ir se transformando durante o contato com cada indivíduo, ouvindo os discursos uns dos outros, reescutando a si mesmos e aos outros a cada momento, e, assim, nessa interação dialógica, de alteridade e exotopia, seria possível ampliar o olhar sobre si mesmos e sobre os outros, percebendo de forma clara e profunda o quanto os outros nos constituem e nós a eles, o tempo todo, tenhamos consciência disso ou não, já que mesmo os objetos a nossa volta e que utilizamos cotidianamente nos trazem o outro, que construiu aqueles objetos, e, nesse sentido, nunca estamos sozinhos ou sem estabelecer algum tipo de relação no mundo.

Por todos esses motivos, acredito que valeria a pena investir na plena compreensão, consciência e vivência da alteridade nas relações humanas, entre os diversos segmentos ligados à Educação. Ajudaria muito.

Por que isso seria possível?

Porque não se pode falar em alteridade sem se falar em identidade, encontro, semelhanças, diferenças e descobertas. A compreensão profunda desse conceito e a busca de vivenciá-lo poderia colaborar no encontro de um equilíbrio maior, na escola, em relação a duas de suas importantes funções, no momento tão distantes uma da outra na prática.

Essas funções, complementares – uma mais voltada para a coletividade  e outra para o desenvolvimento da identidade -, são: a necessidade de ensinar a viver em sociedade e respeitar leis e regras comuns a todos e, ao mesmo tempo, a importância de ensinar o respeito às diferenças individuais, oferecendo espaço para os indivíduos expressarem sua singularidade, se descobrirem e desenvolverem, de forma criativa e original, cada qual em seu ritmo, suas potencialidades.

Haveria, assim, ao menos um início de transformação do quadro atual para melhor, o que possibilitaria que alunos e profissionais pudessem ser mais abertos ao conhecimento, mais solidários, questionadores, conscientes, inventivos e responsáveis por suas escolhas e atos, arcando com as consequências deles.

Em outras palavras, estariam todos mais bem preparados para viver de forma menos adoecida na sociedade atual, com os problemas que afetam hoje a todos nós, como a questão ambiental, entre outras. E não se pode falar em transformação sem se passar pela consciência e pelo exercício vivencial diário da alteridade, que realmente pode trazer maior conhecimento de si e do outro e, assim, maior maturidade e sensibilidade para todos os envolvidos na busca de uma educação pública de qualidade em nosso país.

O que vocês pensam sobre tudo isso? Será que pensar educação é ser só “teórico” ou essa separação entre teoria e prática é muito mais fruto de preconceito e ignorância, muitas vezes, do que uma “realidade”, como muitos acreditam?…

Eu acredito que essas coisas andam juntas e é nesse sentido, também, que procuro contribuir com algo, além do relato de experiências, aqui no blog. E foi o que fiz com esse texto, retirado, em parte, de monografia que fiz para um curso de pós-graduação na PUC-Rio.

Abraços,

Regina Milone
Pedagoga, Arteterapeuta e Psicóloga
Rio, 08/11/2012

 

15 comentários sobre “Alteridade, exotopia e dialogismo: você, educador, já ouviu falar nisso?

  1. Regina,

    Seu texto está a quilômetros de distância do ambiente em que quer interagir. Até porque a realidade cruel é que os alunos hoje em dia não têm nem vocabulário para expressar o que lhes vêm à mente, quanto mais para perceber o quanto é necessário se educar. O ambiente familiar não ajuda e a gravidez na adolescência — como você brilhantemente assinalou — aumenta a agressividade e o infortúnio no ambiente escolar.
    A alteridade desse ambiente em relação aos objetivos da escola, preparar crianças, adolescentes e jovens para o mundo, a sociedade e o mercado é evidente. A escola no Brasil está muito atrasada em relação ao próprio dinamismo da sociedade e tem sido uma fabricadora de analfabetos funcionais. Como construir alteridades, se forjamos sub-homens? Como construir uma perspectiva dialógica se as pessoas não sabem se expressar. Basta ver os diálogos entre marginais na televisão, esses sim em plena alteridade com o que seria normal para a população e a opinião pública, para vislumbrarmos que a educação que cerca as periferias e zonas miseráveis conduzem os pobres ao caos, mesmo que tratemos a prática sob novas teorias bonitas, inelutavelmente inaplicáveis num país que teve um presidente que dizia que não conseguia ler porque dava azia. Se lembrarmos que houve outro que dizia que preferia o cheiro de cavalo do que o cheiro do povo, temos a certeza de que evoluímos muito pouco em termos de educação, de baixo pra cima e de cima pra baixo.

    Regina, você é arauto de grandes novas, quem sabe de um país que nossos netos possam aproveitar.

    Abraços e beijos do admiridor de sempre,
    Waldo Luís Viana.

  2. Querido Waldo,

    Obrigada pela participação!

    Sei o quanto a realidade da educação está longe do exercício dos conceitos que expus aqui, mas foi justamente por isso que escrevi. Ouvir e ler a mesmice de sempre me cansa. Acredito na transformação, mesmo que venha a passos de formiga!
    Sou educadora, gosto de estudar, pesquisar, e o educador que não gosta disso está na profissão errada, na minha opinião.
    Como despertar o gosto pelo conhecimento, como valorizar o verdadeiro diálogo, se os próprios educadores não começarem a fazer isso por si mesmos e entre eles???
    Por isso escrevi esse texto. Precisamos refletir, aprender, pensar, conhecer, descobrir, trocar ideias sempre! Senão, que espécie de educadores seremos e que exemplo estaremos dando pros nossos alunos?…

    Beijos,
    Regina.

  3. Regina,

    As idéias estão muito bem elaboradas, hoje pela manhã tive discussão parecida no facebook com uma dessas figurinhas que faz qualquer educador mexer no túmulo quando vê outro discutindo, aí você faz todo o exercício proposto no seu texto, afinal educadores e educadores não passam de crianças que brincam de ensinar, só que o Professor é o dominador do processo. Essa coisa de jogar culpa na família, na escola, em qualquer um que seja demonstra a não vivência desse conceito que apesar de conhecido vai embora no primeiro conflito que o profissional enfrenta na escola. Assim, exercitei antes de ler seu texto tudo que ele se propõe para intervir junto a colega que postou a imagem, muito se clareou, a imagem versa essa velha história de que a escola ensina, educação vem de casa, eu fico doido quando vejo essas coisas tomarem forma. E aí intervenho, a distância, pessoalmente. É preciso que o professor passe a refletir sobre as questões sociais, que geram a violência, é preciso manter a cabeça fria mesmo se o teto não deixar, pois atacar-se entre si, só serve ao propósito da manutenção dessa nossa falta de educação, não falo da ausência da instituição, mas da nossa própria que plantou na nossa cabeça que o culpado é sempre o outro. Servindo assim aos interesses mais escusos e talvez nem formatado, somente reconhecido. Retomei a escrita de meu blog. Espero sua visita por lá! Fiz uma interessante reflexão sobre a matéria de Nicholas Negroponte da Fundação OLPC (One Laptop per childrem) realizada na Etiópia.

    Aguardo você lá! E seus leitores também!

  4. Texto muito esclarecedor, creio que muitos, mas muitos educadores não fazem nem idéia sobre o significado do tema que expôs . Muito boa a sua iniciativa de publicar esse artigo! Beijos Mil,
    Paula.

  5. Obrigada pela participação, Sidiney e Paula!!!
    Não sabia se alguém escreveria sobre o artigo, já que dessa vez não foi um relato de experiências concretas, embora seja todo baseado em experiências concretas TAMBÉM. Aliás, elas fundamentam as pesquisas que tantos repetem, equivocadamente, serem só “teóricas”.
    Exercitar a alteridade, a exotopia, ouvir verdadeiramente o outro, inclusive sobre nós mesmos, saber que cada um fala de um lugar e que uma visão ampla tem que ouvir todos esses lugares ou sempre será parcial e, por isso, muitas vezes injusta, enfim… Exercitar mais o diálogo, pois hoje em dia o dialogismo é uma ideia e prática que faz muito mais sentido do que a dialética. Menos confronto e necessidade de luta entre pontos de vista e profissões e mais diálogo realmente. Com a humildade de saber que cada um só tem, no máximo, parte da verdade.
    Não tenho dúvidas de que exercitar a alteridade, a exotopia e o dialogismo no dia a dia escolar, uns com os outros, ajudaria muitíssimo a melhorar esse quadro todo e a conseguir a união necessária para que todos os educadores e educandos pudessem lutar, juntos, contra o que vem dos políticos e políticas públicas, que são os que menos utilizam alteridade, exotopia e dialogismo para (des)estruturarem a educação em nosso país.
    Pena que muitos ainda julgam “teórico demais” refletir e debater sobre esse assunto, a meu ver muito concreto, por sinal.
    Mas vamos em frente!
    Vou lá no seu blog sim, Sidiney. Conte comigo!!
    Querida Paula, foi ótimo te encontrar por aqui!
    Beijos mil,
    Regina.

    • Regina, em primeiro lugar, gostaria de parabenizá-la pela produção! Parabenizo também, o Professor Dr Humberto Luiz Lima de Oliveira, pois foi através dele que tive acesso a esse texto muito interessante. Durante a leitura pude me reportar a um texto, cujo título é: “De quem é a Bola?” Trata-se dos mesmos problemas da educação: a culpa é passada da família para a escola, a escola por sua vez, passa para o governo e, ninguém assume a responsabilidade.

      Abraços,

      Giltânia

      • Obrigada, Gitânia! Que bom que gostou do texto!!!
        Agradeço aos professores da pós graduação em “Psicologia Junguiana, Arte e Imaginário”, da PUC, com quem aprendi a maior parte do que sei sobre esse assunto. Foi riquíssimo aprender tanto com cada um deles! É muito bom lembrar de professores tão idealistas e bem preparados.
        Além da vontade de contribuir com algo que realmente poderia melhorar a realidade social em nosso país, o que me fez entrar na área de Educação foi justamente os bons professores que tive pela vida afora, desde criança. Mas, infelizmente, conheci muitos professores e pedagogos mal preparados, nas escolas em que trabalhei. Muitos mesmo! A formação de professores no Brasil ainda é bastante fraca e incompleta.
        Esse “empurra-empurra” de culpas entre os profissionais das escolas, os alunos, as famílias dos alunos e o governo federal, estadual e municipal, acaba deixando a realidade escolar do mesmo jeito. É um impasse que funciona como uma imensa pedra no caminho. Assim nada anda, pouco muda e gerações e gerações são formadas de forma precária. É uma realidade muito triste. Me senti impotente mil vezes diante dela. Enfim…
        Ter consciência da questão política é fundamental. Há muitas décadas que não há vontade política efetiva para mudar a educação pública no Brasil, até porque não há interesse em formar cidadãos conscientes das relações e realidades políticas, históricas e econômicas, que foram levando ao quadro que vemos hoje. Portanto, além da luta por uma formação melhor para os profissionais de educação, continua sendo necessário lutar por melhores salários, plano de carreira decente, etc. Mas também é preciso firmar um compromisso interno e respeitá-lo, como profissional, a cada passo do caminho. Isso é fundamental! Apenas participar de protestos e gritar palavras de ordem não é suficiente. Gostaria muito de ver mais lutas e até greves, quando fosse o caso, pela melhoria de tudo aquilo que os alunos tem direito e, no entanto, isso pouco acontece. Na luta dos professores, pouco se fala objetivamente sobre os alunos, que são os que saem mais prejudicados nisso tudo. Os alunos são números, no modelo de escola que temos, até porque os professores acompanham várias turmas, em mais de uma escola, o que torna difícil enxergar que são indivíduos que estão ali na sua frente, cada um com a sua história de vida. Até guardar os nomes de todos os alunos fica difícil.
        Se não houver troca, se cada um não praticar o “se colocar no lugar do outro”, se não houver diálogo real e não apenas monólogos de uma classe trabalhadora, que se fixa sempre nos mesmos pontos, pouco ou nada vai mudar. É preciso aprender mais sobre o ponto de vista de cada um, sobre as dificuldades que cada ator desse processo encara diariamente… Assim muita coisa já iria melhorar. Mas também não vejo essa postura e esse compromisso em grande parte dos profissionais de educação, infelizmente…
        Esse assunto poderia ir longe, no nosso papo aqui, até porque há muito para se conscientizar ainda, muito para se refletir, mas fico por aqui, nesse momento.
        Que bom que você passou por aqui, leu o meu artigo e deixou seu comentário!
        A meu ver, é justamente com esse tipo de troca que crescemos.
        Grande abraço…

  6. gostei muito da sua clareza ao explanar esse assunto. gostaria de tirar várias duvidas sobre outros assuntos com vc de coisas que eles escrevem nas bibliografias dos escritores para concursos. Ah se tivessem a clareza de explanação que os seus textos tem, obrigado abraço.

  7. Obrigada, Ailton!
    Fico feliz por saber que meu texto foi útil pra você. 🙂
    Mande seu e-mail para podermos conversar mais a respeito, Pergunte o que quiser. Se eu souber responder… conte comigo!
    Acho a formação dos educadores – professores e pedagogos – fraquíssima, pois precisamos tanto da teoria quanto da prática. Tento ajudar, nesse sentido, com os meus artigos.
    Um abraço.

    • Muito obrigada, Joanita!
      Estudar esse assunto me acrescentou muito na vida e fico feliz pelo fato do meu artigo ter agradado e sido útil às pessoas que passaram por aqui, de alguma forma.
      Beijos…

  8. Achei interessante o percurso argumentativo que fez acerca de diferentes vozes sociais que – atualmente – povoam o discurso educacional (sejam essas nefastas ou mesmo utópicas). Você, com todo jeitinho, fez triscas as ideias, produziu centelhas onde precisava, cutucou leitores, etc. Sempre gosto de ler os comentários cybernotícias – fica uma arena de vozes ali, uma tensão que, se você fizer o exercício exotópico de escuta, conseguirá – creio! – avançar nas suas ideias, inclusive pontuando CONDIÇÕES para uma escola humanisticamente mais decente. Sou também professor, comungo de muitas coisas que seu discurso (re)formula. Neste ponto, deixo escrito aqui meus sinceros Parabéns. E fica a deixa anterior para que RETORNE ao texto, e escute, a propósito, sentidos reclamados por seu leitor número 1 acima. Meu abraço. Hélder.

  9. Obrigada, Hélder!
    Fico muito feliz em retomar esse assunto, aprofundá-lo e repensar algumas coisas após essa reflexão.
    Sei bem o quanto é difícil exercitar as ideias do texto no cotidiano escolar, por todas as faltas existentes ali. Mas, sinceramente, não vejo saída se não fizermos da alteridade, exotopia e dialogismo práticas diárias. Tantas vezes me pego tão reativa que eu mesma acabo não conseguindo exercitar esses movimnentos na vida, por mais que acredite na importância deles. Por isso considero a autocrítica fundamental para que, a cada erro ou excesso, possamos repensar e melhorar. Mas, infelizmente, vejo a autocrítica bastante ausente entre os que trabalham em escolas, de forma geral. Cansei de coordenar reuniões pedagógicas em que era visível o quanto ninguém ouvia ninguém, onde apenas queixas e buscas de soluções mágicas eram repetidas à exaustão.
    Como ensinar algo sobre a importância dos conceitos que abordei no artigo se a tendência continuar sendo projetar fora e escolher culpados, sentindo-se sempre vítima ou injustiçado?
    E o discurso pode e deve falar a língua do outro, isto é, precisamos ouvir mais, aprender mais sobre os costumes, os valores e as diferenças culturais quando procurarmos nos comunicar com o outro, seja quem for esse outro. Usar sempre as mesmas falas para se debater ideias é insistir no “mais do mesmo”!
    Enfim… Viver o novo na prática traz acertos e erros, dificuldades, posturas defensivas, avanços e retrocessos. Por isso o exercício diário, a começar por um olhar mais profundo sobre si mesmo, é fundamental para que o que tantos chamam de “só teoria que não tem nada a ver com a realidade” possa ser revisto e melhorado a cada passo. Essa é uma decisão que precisa ser tomada, individual e coletivamente, para que algo mude. Senão nada feito.
    Sobre as condições para que uma escola humanisticamente mais decente se torne realidade, acredito que não as encontraremos prontas em lugar nenhum. Terão que ser construídas de acordo com cada cultura de cada lugar.
    Por isso concordo com os questionamentos que foram expostos aqui, por leitores deste texto, como o primeiro que comentou este artigo, dizendo, entre outras coisas: “A escola no Brasil está muito atrasada em relação ao próprio dinamismo da sociedade e tem sido uma fabricadora de analfabetos funcionais. Como construir alteridades, se forjamos sub-homens? Como construir uma perspectiva dialógica se as pessoas não sabem se expressar.” Mas, por mais difícil e contraditório que possa parecer, é justamente o nosso exercício diário em relação a sermos e usarmos de alteridade, exotopia e dialogismo que pode ir mudando esse quadro, passo a passo. Educar alunos crianças ou adolescentes, re-educar profissionais da educação e usarmos de autocrítica constante é o que pode ir modificando o que parece, para tantos, um beco sem saída.
    Não sei se consegui responder um pouco às observações que você fez em seu comentário, mas tentei. 🙂
    Obrigada, mais uma vez, por vir aqui, se colocar e, assim, permitir que o diálogo aconteça.
    Abraços.

  10. Muito obrigada por este texto-presente. Muito bem elaborado. Acredito como vc que a transformação é possível quando a educação é dialógica e crítica, como diria FREIRE. Realmente observo que um texto tão bem elaborado não atingiria muitos educadores, mas outros sim. Se não fizer acordar a todos que pelo menos desperte em alguns suas responsividades adormecidas.

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