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Transformando a escola em fábrica

Deve haver algum lugar
Onde o mais forte
Não consegue escravizar
Quem não tem chance.

(Fábrica – Legião Urbana)

Em 2009, o jornal O Globo publicou algumas matérias sobre os famosos bônus na educação. Alguns estados brasileiros já adotaram. Para quem não sabe, tais benefícios são oferecidos pelo poder público, premiando escolas que conseguem melhorar seus números (como o IDEB).

Escrevi um artigo sobre esta faceta da educação (o fracasso é de quem?) e convido você a dar uma olhada também no que o Declev escreveu recentemente sobre isso.

Aqui, quero especificamente discorrer sobre essa política que ganha força no Brasil: adotar estratégias do mundo empresarial no universo da educação.

Diferentes dos jornais, não pretendo ser imparcial e me posiciono inteiramente contra qualquer tentativa de transformar discussões educacionais em balancetes repletos de dados.

Em primeiro lugar, vamos discutir a questão da destinação desta verba extra.

Não é necessário ser especialista em educação para chegar à conclusão de que escolas sem infraestrutura, localizadas em área de risco, com alunos vivendo em condições precárias, as famílias desestruturadas, em meio a ausência do poder público, apresentam pouquíssimas chances de melhorarem seus “índices”. O contrário também é verdadeiro. Quando o professor trabalha em uma escola com famílias presentes, com alunos vivendo em um bairro privilegiado por serviços públicos, tendo ferramentas acessíveis para diversificar suas aulas, fica muito mais fácil ter um bom “rendimento” (como eu odeio esta palavra!)

Agora responda uma pergunta: qual das escolas precisam de um maior apoio do Estado, as “piores” ou as “melhores”?

Imagine-se um profissional que trabalha numa escola em condições precárias. Além de conviver diariamente com a humilhação de lecionar neste contexto, tem que ver o colega que vive uma realidade muito melhor ganhar mais do que ele. Que belo incentivo, heim!
E ainda vai ter quem diga: “o exemplo das melhores escolas faz com que as outras unidades se esforcem mais para colher os mesmos frutos”. Isto é conversa de quem não tem a mínima noção de como se dá o aprendizado do aluno. Isto é conversa de quem quer vender a ideia de que a educação se resume a relação professor-aluno. O magistério não pode mais suportar o fardo de ser, sozinho, responsabilizado pelas mazelas do ensino. Os fatores extraclasse são tão ou mais importantes para determinar o aprendizado.

Mas voltemos ao assunto da nossa análise.

Se as verbas públicas na educação continuarem a ser pautadas por índices, por números, o abismo social existente no Brasil aumentará a cada dia. Imagine só, a que ponto chegamos! Os alunos, o trabalho árduo e diário do professor, as horas e horas de dedicação de ambos são renegadas a dados frios e vazios. Logo eles, os números, que longe das certezas matemáticas apenas servem para ratificar as ideologias. Afinal de contas, um copo com líquido pela metade pode estar 50% cheio ou 50% vazio. Os números não mentem, mas omitem realidades.

Em segundo lugar, são inúmeras e diversas as consequências que a destinação do dinheiro público trazem para a qualidade da educação. E aqui não vou cair no lugar comum de que as escolas com mais verbas conseguem desenvolver um trabalho muito melhor no seu ensino. O óbvio não se discute.  Mas pouco se fala da reação em cadeia que isso provoca.

Vejamos o caso do estado do Ceará (exposto no mesmo jornal): uma lei determinou que uma parte do ICMS (Imposto sobre Circulação de Serviços e Mercadorias) deve ser vinculada ao desempenho na educação. Ou seja, enquanto maior o IDEB do município maior será o repasse de verbas a receber. O que tem de mal nisso? Muita coisa. Vejamos.

Você é o prefeito. Precisa muito se manter na política, pois este é o seu ganha pão. Para isso, tem que deixar a sua marca na cidade, deve fazer muitas obras, reformar inúmeras pracinhas e asfaltar um sem número de ruas. O que você precisa? Acertou se falou “dinheiro”. De olho na lei do seu estado que garante uma conta bancária maior, você chama a sua secretária de educação e diz que ela deve melhorar o IDEB. E ainda tasca um “se vira nos 30”. A secretária chama os diretores e supervisoras pedagógicas numa reunião e diz pra todos que o IDEB tem que melhorar. E como ela tem pretensões de, quem sabe um dia, se tornar uma deputada, ainda emenda um “se vira nos 30, se não sobra pra mim”. Os diretores e pedagogos (desculpa, Regina, mas sofro pressão de ambos), então, chamam os professores (nem que seja numa salinha reservada) e dizem pra eles que o IDEB tem que melhorar (até porque as escolas também recebem mais verba, e o que diretor mais gosta é ter verba pra gastar), e no fim da conversa ainda sussurram um “se vira nos 30”.

Como se sabe, devido ao cálculo que é feito para se chegar no número do IDEB, os dados de aprovação/reprovação dos alunos tem um peso maior do que os resultados da Prova Brasil. Desta forma, para melhorar os índices, nada melhor do que aprovar todos os alunos.

Resolvido o problema!

Professores que não concordam com isso?

Bom, talvez eles sejam “convidados” a se silenciar, trocar de colégio, sair de sala de aula ou qualquer outra coisa que não seja atrapalhando o prefeito receber mais dinheiro. Vivem solitários a clamar no deserto, a gritar em meio ao silêncio.

Em terceiro e último lugar, assim como acontece nas grandes empresas, uma das consequências trazidas por estes benefícios é o estímulo à competição entre os docentes. E é exatamente isto que o poder público deseja: comprar o magistério para que não haja a nossa união. Ao nos dividir e nos fazer pensar “que bom que eu ganho, quem não recebe que se lasque”, o Estado também camufla a sua responsabilidade nisso tudo. Afinal de contas, o poder público faz a sua parte para que os nossos alunos tenham uma educação de qualidade?

Sobre isso, e tomando uma frase que o mesmo jornal publicou, da oficial da PM Solange Vieira, finalizo dizendo que “o líder não é só o que dá ordens, mas o que dá o exemplo”. Sábias palavras! Como o Brasil precisa de governantes que antes de agirem como políticos ajam como líderes.

Luiz Eduardo Farias

About Luiz Eduardo Farias

Luiz Eduardo Farias é historiador e professor de história desde 2006, especialista em História Contemporânea (2010/2011) e atualmente cursa Pedagogia. Sempre trabalhou em escolas públicas (seis, até o momento) e atualmente tem duas matrículas – Fundação Educacional de Volta Redonda (autarquia municipal) e Rede Estadual do Rio de Janeiro.

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10 comments

  1. O raciocínio por trás dessa prática é o mesmo de uma UTI lotada: só tratem os com maiores chances de sobrevivência…
    Fica difícil dar motivação para quem se acha “resto”, principalmente quando se oficializa essa situação de “resto”.

  2. Isso é o efeito da tal competitividade. Coisa muito retrógrada frente ao nosso tempo que pede e indica a colaboração e a participação.

  3. Fabiano Ferreira

    Alôôôwatençâoçâoçâo ! ! !

    https://www.youtube.com/watch?v=n9KeDTMEYSE

  4. Ótimo texto, Luiz!
    Também discordo totalmente das formas de avaliação das escolas e dos professores, que tem sido usadas. Continuam num padrão de “punição ou recompensa”, meramente behaviorista, como já critiquei várias vezes aqui, nos meus artigos e em comentários.
    Escola não é fábrica e não deve funcionar nem ser avaliada como tal, claro!!!
    Quanto aos pedagogos que te cobram, pode ter certeza que sofrem pressão, assim como os diretores (bons ou ruins) também sofrem e por aí vai. A união necessária é entre todos os profissionais de educação e não só entre os professores, na minha opinião. Já escrevi aqui sobre isso também, várias vezes.
    Enquanto os professores se colocarem como: “a realidade é todos-os-professores-de-um-lado X todos-os-outros-profissionais-da-educação do outro”, essa guerrinha será eterna e a educação não vai melhorar.
    E uma das coisas principais pra começar a melhorar, é o professor se formar como educador sim (mesmo que seja na prática, já que os cursos de formação ainda são fraquíssimos), para poder se unir com os outros profissionais e, aí sim, todos juntos, ouvindo uns aos outros pra valer, terem força suficiente para mudar as decisões que continuam chegando de cima pra baixo na educação, sem a menor participação dos que estão dentro das escolas.
    Um abraço,
    Regina.

  5. Paulo Pontes

    Entendi a sua crítica, mas não o que vc está propondo como solução.

  6. Paulo, a solução está na própria crítica: não adotem medidas do mundo empresarial para avaliar a educação! Não sei por que se tem uma preocupação tão grande em saber que escola ou professor é melhor do que outro. Isso é uma mentalidade capitalista, que estimula a competição. Estamos falando de seres humanos e de um processo educativo que é de longo prazo. Muitas das vezes um bom professor ou uma boa escola vai fazer a diferença em situações que não são transformadas em números. Só pra ficar em apenas um exemplo: vejo um aluno desenhando armas e escrevendo os símbolos de uma facção criminosa. Eu paro a minha aula para debater o tema e consigo convencê-lo que ele estava errado. Vamos dizer que este momento evitou que ele entrasse para o crime. Sabe o que isso conta para o IDEB? Nada! E para a vida dele? Que diferença essa conversa fez?
    Se continuarmos com essa idolatria de números e notas estaremos incentivando que o professor simplesmente não perca tempo de aula para “dar o conteúdo da prova”, ignorando múltiplos aspectos educativos presente na função do professor. E falo isso mesmo com todas as críticas que faço para a noção do professor como “educador”. Neste exemplo que dei, pode ser que os números mostrem que o segundo professor é melhor. Mas eu prefiro ser o primeiro!
    Então, Paulo, não tenho uma solução melhor para se avaliar a educação simplesmente porque sou contra esse tipo de prática. Boas escolas e bons professores são conceitos bem particulares e dependem completamente do ponto de vista de quem julga. Os papéis atribuídos à escola e aos professores são diversos. O fetichismo dos números faz parte de uma ideologia que vê a educação como formadora de mão de obra. Portanto, todos aprendem na escola o que os espera no mundo do trabalho. E começam a ser avaliados conforme a sua produção, julgados como competentes ou incompetentes conforme os números, enfim, definitivamente não consigo concordar com essa visão.
    Abraços!

  7. Luiz Eduardo, interessante seu texto. Há muito tempo leio o blog e material sobre educação em geral, na tentativa de aprimorar minhas opiniões sobre o tema. Um dos padrões que eu reparei ao longo desse tempo é que os professores, em geral, costumam ser contra avaliações externas, ferramentas de gestão e etc. Pode ser que esteja certo, mas só gostaria de entender melhor. Por exemplo, você não acha importante o professor ser avaliado, como são avaliados todos os outros profissionais? Imagino que os professores não são iguais, certo? Sendo assim, não é uma proposta interessante premiar aquele que possui melhor desempenho?
    Ter um índice com falhas não quer dizer que o sistema todo é ruim. Se o IDEB pesa muito o nível de reprovação e as escolas tendem a aprovar excessivamente para conseguir índices melhores, uma simples correção dos pesos do IDEB pode melhorar este problema, não? Além disso, acredito que o tempo despendido conversando com os alunos é um investimento que se reflete sim no seu desempenho. Se seu aluno fosse para o tráfico, no mínimo você teria um aumento na evasão, o que diminui o índice da escola. Então manter ele lá, e mante-lo estudando estimulado, não é importante?

  8. Vinicius,
    Eu tenho certeza que existem professores melhores do que outros. Revolto-me com os colegas que não levam a sério a profissão. Sei de inúmeras histórias através dos alunos: professores que não dão matéria, que dão em cima das alunas, que dormem durante a aula, enfim, pessoas que não merecem estar no magistério. Nestes casos, acredito que já existem mecanismos que os gestores podem usar para punir e até mesmo retirar estes docentes da escola.
    O que não acredito é que exista alguma maneira de indicar através de dados estatísticos quem é o bom professor. Se algum dia alguém me apresentar uma solução eu posso mudar minha posição. Do jeito que é feito hoje, independente do peso que se dá para a reprovação, evasão ou notas em avaliações, é injusto. Existem múltiplas variáveis que interferem no resultado destes 3 quesitos e não necessariamente demonstram a ação de um bom professor.
    Sou professor de História e uso muita interpretação e produção de texto. Um professor de Português ruim pode interferir no meu trabalho. No final das contas, os índices não querem saber disso. As estatísticas na educação apenas comprovam que existem problemas, mas não o solucionam. Pelo contrário, muitas vezes criam outros.
    Por fim, o que podemos estar de acordo é que deve existir uma punição para os professores que, comprovadamente, apresentam atitudes incompatíveis com o magistério. Isso eu defendo! Mas premiar os bons professores ou as boas escolas já é outra realidade.
    Abraços!

  9. Divina Viana

    Infelizmente, Luiz Eduardo, uma gestão escolar com sua equipe de trabalho, não consegue resolver toda problemática que existe numa Instituição Escolar. Estou no 5 semestre de pedagogia, e pude perceber no ambiente escolar, como´´e arduo e duro o trabalho em conjunto de seus profissionais, e não podemos esquecer que há uma política por traz de tudo isto. Esses profissionais como em qualquer instituição pública, obedecem Leis e muita das vezes com bastante autoridade para com eles. Concordo com seus relatos, mas qual a solução ou como resolver se nossa sociedade não se concientizar desses problemas.