Conhecendo nossos alunos: como a criança e o adolescente se desenvolvem

Como a criança e o adolescente se desenvolvem? Como é possível trabalhar bem com crianças ou adolescentes sem o conhecimento dessas etapas? Só a experiência prática basta? Como algo tão fundamental é tão pouco estudado pelos professores, entre outros educadores? Como a Psicologia, entre outros conhecimentos, pode nos ajudar nisso?

Quando falamos em crianças ou em adolescentes precisamos saber um pouco mais sobre o que define essas fases de desenvolvimento bio-psico-sociais humanos, se quisermos trabalhar bem na área de Humanas.

Mas, infelizmente, o que se estuda sobre isso é pouquíssimo e o que mais vemos e ouvimos nas escolas são “achismos” vindos do senso comum, muitos absolutamente fora da realidade, sem base nenhuma, embora o conhecimento a respeito já exista há décadas!

Na própria internet, se um educador – pai, mãe, avós, profissionais de educação, etc. – quiser saber mais sobre o assunto, inúmeros artigos, dissertações, teses, matérias jornalísticas e entrevistas são encontradas, algumas muito boas. Portanto, hoje em dia, o acesso a esse tipo de informação é rápido, fácil e, em geral, pode ser feito dentro de nossas próprias casas ou ambiente de trabalho.

Por isso, não ficarei aqui listando as diversas fases e etapas e sim mostrarei e questionarei um pouco das diversas reações que se tem, nas escolas e nas famílias, em relação a comportamentos de crianças e adolescentes que, na verdade, são absolutamente naturais nas fases que estão vivendo, embora muitos adultos reajam como se fossem absurdos. Acho que saber mais sobre isso pode ajudar a todos, especialmente aos professores. E, como professora, pedagoga, psicóloga, arteterapeuta e mãe (ufa!!!), posso ajudar.

É importante lembrar que as idades ligadas a cada fase são aproximadas, isto é, variam um pouco de acordo com os estímulos ou falta de estímulos recebidos. No caso dos alunos das escolas públicas de periferia, principalmente, muitos estímulos estão em falta e muitas atitudes prejudiciais são consideradas “normais” na educação familiar e escolar deles, o que vai levando a um atraso intelectual, emocional, social e, portanto, de compreensão do mundo. Muitas superstições, crenças baseadas em preconceitos, senso comum sendo tomado como “verdade” – tipo: “sempre fizeram assim comigo e deu certo, então faço o mesmo com meus filhos ou alunos” -, falta de vontade de aprender seja lá o que for que coloque em dúvida alguma dessas certezas, enfim… Atitudes defensivas, ignorância e preconceito atrapalham muito, o tempo todo, não só quando vem das famílias e dos alunos como, também, quando vem dos professores e demais educadores.

Por exemplo, a sexualidade humana existe desde sempre. A criança passa uma fase em que é absolutamente natural a curiosidade em relação ao próprio corpo e ao do colega do mesmo sexo e de sexo diferente. No entanto, em pleno terceiro milênio, muitos ainda se chocam quando sabem que a menina ou menino estavam mostrando seus corpos no banheiro, um pro outro, na hora do recreio, por exemplo. E, vejam bem, estou falando de crianças da mesma idade ou próxima, porque quando uma é muito mais velha do que a outra, aí já é preocupante e temos que ver se a maior não está se aproveitando, de alguma forma, da menor.

O que eu ouvi de gente muito religiosa, por exemplo, dizendo que a criança estava fazendo “coisas do Diabo”, “coisas feias”, enchendo a cabeça das crianças de culpas sem sentido, assustando essas crianças com essas reações, enfim… Perdi a conta de quantas vezes vi esse tipo de coisa acontecer! E, mesmo levando informação a respeito, as reações dos adultos dificilmente mudam, pois já possuem os próprios sentimentos de culpa arraigados dentro de si! É triste… E é uma tremenda bobagem, pois é até um momento de curiosidade relativamente curto, já que a libido da criança, sua energia, será vivida em outras esferas, naturalmente, nessas fases iniciais. Satisfeita a curiosidade, passa-se a outras brincadeiras e pronto! É só mais uma brincadeira pra eles. Não tem o peso que o adulto dá. Os adultos é que maliciam, equivocadamente, muita coisa.

E a sexualidade ainda é uma das coisas que mais assusta realmente. Na adolescência também. Nesse caso, porque os hormônios estão a mil e a sexualidade que era vivida mais na base da sublimação com brincadeiras, jogos e estudos nas fases anteriores (infância), aqui passa a querer ser vivida com o outro, o amigo(a), o “ficante”, o namorado(a). É uma explosão! Tesão correndo solto, corpos se modificando rapidamente e sentindo coisas antes desconhecidas, a vontade de desejar e ser desejado pelo outro, etc. E a isso se junta a vontade de ser aceito e querido, o que, muitas vezes, leva os meninos e, principalmente, as meninas, a fazerem péssimas escolhas em relação ao momento e a pessoa com quem começar essa “brincadeira” nova.

O adolescente quer ser aceito pelo grupo. Os pais e os adultos em geral é que são os estranhos para eles, nessa fase. Querem distância desses, pois acham sempre que não os entendem, os constrangem, etc. A adolescência é uma fase super complicada e contraditória: ao mesmo tempo que o adolescente não quer perder o carinho e os mimos da infância, não quer mais ser cobrado e tratado como criança, pois realmente não é mais! Só que também ainda não é adulto. Está em transição. É uma fase intermediária. E é por essas e outras que essa não é a melhor fase para engravidar e virar mãe ou pai antes da hora. A gravidez joga o adolescente de forma brusca pro mundo adulto, sem que ele tenha ainda a menor maturidade para isso, o que costuma trazer conseqüências nem sempre boas depois. Mas esse é um assunto pra muitos e muitos outros artigos…

Nesse artigo, só quero citar também a agressividade na adolescência e na infância. Quando criança, se a agressividade está exagerada, pode ser simplesmente um pedido de socorro. Se pro adulto muitas vezes é difícil verbalizar o que está sentindo, imaginem pra criança! Com a criança tudo passa muito pelo corpo e pela imaginação. Então, é observando a forma como ela brinca, com o que e com quem está brincando, que podemos muitas vezes ver que algo não vai bem. E a agressividade, nesse sentido, é sadia, pois serve mesmo como um pedido de ajuda, um alerta, ao qual não devemos ficar surdos!

Já com o adolescente, a agressividade, as horas a mais de sono, a rebeldia, o incômodo com toda figura de autoridade, tudo isso é natural. É assim mesmo. Ficar dizendo “Fulano foi meu aluno e não era assim; como ele está diferente”, de forma reprovadora, mostra ignorância, pois o adolescente está vivendo mil mudanças realmente e, se estivesse igualzinho à como era na infância, aí sim seria preocupante!

O adolescente questiona a autoridade, se rebela, percebe as pequenas e grandes hipocrisias dos adultos e, por essas e outras, quer mesmo é a companhia dos outros adolescentes e não dos adultos. Os adultos que lhes interessam são os seus ídolos, do esporte, das artes (da música, especialmente) e, muitas vezes, da comunidade (entre esses, infelizmente, muitas vezes traficantes e/ou milicianos…).

Aqueles adolescentes que sofrem bullying também ficam traumatizados (não só as crianças), sofrem muito, pois o que mais querem é ser queridos por seus colegas! Já os populares, ficam cheios de si e acabam, em geral, se arriscando demais em várias situações, pois estão “agradando”. Na verdade, tudo é uma grande experimentação da vida, do mundo, agora sem um adulto sempre por perto dizendo o que ele pode ou não fazer. Acabam abusando, por causa disso, muitas vezes.

Crianças e adolescentes precisam de limites sim. Pedem por isso agressivamente às vezes, por não saberem verbalizar ou simplesmente por não saberem que é isso que estão precisando, pois suas reações são muito emocionais. Adolescentes, em geral, são dramáticos e isso deve ser respeitado, pois sentem nessa intensidade realmente. Por isso, quando um adolescente fala em suicídio, por exemplo, isso deve ser levado muito a sério, pois é uma enorme besteira dizer que “quem avisa ou ameaça que vai fazer isso, não faz”. Muito pelo contrário!

Mas adolescentes e crianças precisam saber o porquê daqueles limites que lhes são impostos. O adolescente, então, mais ainda, pois criticará e questionará aquilo até que faça sentido, já que está na fase de questionar tudo no mundo, o que é uma qualidade e não um defeito!

Crescer não é fácil. Muitas vezes dói, fisicamente, emocionalmente e na vida social também. Ainda mais num mundo tão cheio de contrastes, injustiças, desarmonia e violência como o que nós, adultos, estamos entregando pra eles.

Citei aqui, rapidamente, apenas dois temas importantes – sexualidade e agressividade – em relação ao desenvolvimento de crianças e adolescentes, mas são temas tão importantes que, se fossem estudados com profundidade nas formações de educadores, fariam enorme diferença e evitariam muitos confrontos infantis e desnecessários que acontecem, quando, muitas vezes, os educadores se comportam de forma tão ou mais infantil ou adolescente que seus filhos ou alunos, muitas vezes porque também passaram aos trancos e barrancos pela própria infância e adolescência e, emocionalmente, ainda estão “presos” lá. Como, por exemplo, já vi professores homens querendo sair no tapa com alunos adolescentes dizendo: “o que ele está pensando que eu sou? Eu sou homem!”, sem perceber que estava parecendo mais adolescente do que o próprio que havia sido grosseiro ou debochado com ele…

Só para citar um exemplo da Psicologia, W. Reich, um grande médico psiquiatra já falecido, criador das primeiras psicoterapias corporais, dizia algo muito interessante sobre o quanto a sexualidade esfuziante dos adolescentes deixam tantos adultos incomodados. Ele dizia que isso acontecia por estes estarem vivendo mal a própria sexualidade há muito tempo e vê-la florescendo de forma tão escancarada nos adolescentes era quase insuportável para estes adultos…

Enfim…

Esse artigo foi só pra mostrar um pouquinho do quanto é importante conhecer como funcionam as fases de desenvolvimento da criança e do adolescente para poder saber com quem se está trabalhando, como abordá-los, como reagir a eles em diferentes situações, etc. Quantos mal-entendidos e quanto estresse seria poupado assim… Será que um dia ainda chegaremos lá??? Disso não desisti não! Se quiserem me perguntar qualquer coisa sobre o que pode ser considerado natural ou não nessas etapas da vida, contem comigo! Óbvio que sempre terei muito mais a aprender sobre esse assunto fascinante, mas já sei bastante pra ajudar. J

Abraços…

 

Regina Milone
Pedagogia, Arteterapeuta, Psicóloga

Rio, 20/11/2012

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9 comentários sobre “Conhecendo nossos alunos: como a criança e o adolescente se desenvolvem

  1. É Regina… é complicado o assunto.

    Até porque os professores, os pais, os demais funcionários das escola e todo mundo que trabalha diretamente com adolescente TAMBÉM é um ser humano cheio de problemas, cheio de seus próprios problemas, medos, frustrações.

    Entender, saber, estudar o assunto realmente ajuda.

    Mas o dia a dia continua difícil.

    É como o psicoterapeuta que atende a dezenas de pessoas e suas complicações, mas também tem as próprias…

    Abraços,

  2. Problema todo mundo tem, Declev.
    Não me referi tanto a isso mas, especialmente, ao que é ou não NATURAL de cada idade. Sabendo disso, o profissional pode se preparar melhor para o que vai encontrar e decidir se é isso mesmo que quer. Afinal, muita gente não tem a menor paciência ou disposição para educar, seja educar crianças ou adolescentes. Nesses casos, melhor seria que trabalhassem com adultos ou não trabalhassem com gente! Simples assim.
    Mas não querer nem saber nada sobre o assunto? Achar que vão encontrar crianças e adolescentes sempre alegres, bem dispostos, bem educados, interessados, etc., é utopia. É irreal. É absurdo! Nunca seria assim, nem se tivéssemos o melhor governo do mundo, porque sempre existirão as crises próprias do crescimento, do desenvolvimento, muito diferentes do que são as crises dos adultos.
    Comparar nossos problemas com os deles é injusto com eles, pois eles ainda não são adultos; estão em formação. Algumas pessoas dizem que estamos em formação a vida inteira, mas é diferente. A formação básica da identidade vai até o fim do tumultuado período da adolescência e essa é uma só. Depois vc continua ou não se “formando” na vida, evoluindo, se quiser, mas ficará mais a cargo da vontade e da luta de cada um, enquanto na infância e na adolescência o que acontece não é uma opção e sim algo da natureza do ser humano, do qual não se escapa e se atravessa, bem ou mal, querendo ou não. E é bem difícil!
    Agora, quem não tem a mínima vontade de se deparar com isso, de aprender sobre isso, de se preparar para lidar com isso, simplesmente não deveria trabalhar com crianças nem com adolescentes.
    Esse é o “x” da questão que expus nesse artigo.

    Obrigada por participar!
    Abraços…

  3. Só pra completar, meu caro amigo Declev, o psicoterapeuta tem seus problemas, claro, e o ideal é que faça terapia também, isto é, que tenha um espaço para cuidar das suas próprias questões, até para poder dar conta de ajudar seus pacientes a lidarem com as deles, sem se misturar com eles. Eu penso assim – nem todos os psicólogos concordam -, e, por isso, faço a minha terapia também.
    Médico adoece, psicoterapeuta pode deprimir, um administrador pode falir e por aí vai. É humano. Não ganhamos “imunidade” por escolhermos determinada profissão. Somos todos humanos. Mas precisamos separar os momentos individuais, isto é, aqueles para cuidarmos de nós, dos momentos em que, trabalhando com gente, estamos ali PARA e COM o outro. Até porque, se não estivermos minimamente bem com nós mesmos, como estaremos com o(s) outro(s)?…
    Um abraço…

  4. É bem isso, especificamente os que fazem opção por pedagogias que incorporam ao seu saber os outros saberes, refutando o senso comum como respostas para demandas educacionais.

  5. Obrigada por participar, Sidiney!
    O senso comum gera mais preconceitos e ignorância do que sabedoria, na maioria das vezes, em minha opinião. Por isso, precisamos realmente estudar, buscar outros saberes e experiências, mesmo que isso nos coloque em crise com nossas próprias “certezas”, muitas vezes…
    Abraços…

  6. É, o assunto é pra lá de complexo, sem dúvida.
    Acho bem absurdo que os profissionais da educação
    não tenham um conhecimento mais aprofundado
    sobre, informações de extrema necessidade em suas
    profissões. Te parabenizo pelo artigo e por trazer
    informações tão necessárias.

  7. Eu também acho, Marisa.
    Mesmo nos bons cursos de Pedagogia – e me formei em um desses – a informação passada sobre essa área do saber ainda é pouca. Nos cursos de formação de professores então, nem se fala! E é mesmo um absurdo, porque são conhecimentos que já existem há décadas e muito necessários para quem vai lidar com crianças ou adolescentes de alguma forma.
    Mas o interesse em aprender sobre isso é mínimo!
    Sempre procurei levar esse tipo de informação em reuniões de professores, por exemplo, e ficavam impacientes, não tinham interesse, só queriam soluções rápidas, concretas e objetivas para o desgaste diário das salas de aula. Só que essas soluções rápidas não existem! Qualquer solução tem que ser CONSTRUÍDA e, para isso, a psicologia do desenvolvimento da criança e do adolescente precisa ser conhecida, com mais profundidade, pois é parte essencial de qualquer reformulação educacional que se pretenda fazer nesse país. Falar apenas dos problemas sociais não é suficiente! Mas poucos querem saber disso ainda, infelizmente…
    Obrigada pela participação e pela força!!!
    Beijos…

  8. Oi Regina!

    Trabalho com adolescente á 26 anos em uma colégio da minha cidade, adorei seu trabalho, abriu horizontes para trabalhar com os adoscentes , sinto que deixamos despercebidos muitas coisas ao nosso redor, por falta de conhecimento ou mesmo por comodismo.

  9. Também acho, Arlete.
    Buscar esse conhecimento e experiência, trocar ideias a respeito, se aprofundar no assunto, não se acomodar… Tudo isso ajuda e muito! Pelo menos a Psicologia do Desenvolvimento deveria ser ensinada de forma mais ampla nas formações de educadores.
    Que bom que meu texto foi útil pra você, de alguma forma! Fico muito feliz com isso. Meu maior desejo aqui é contribuir e ajudar. 🙂
    Muito obrigada pela participação. Obrigada por deixar seu comentário! Pra quem escreve, os comentários são extremamente importantes!
    Um abraço.

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