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Como funciona a burocracia e a escola

Certos serviços públicos têm pressa. Mas a burocracia, mãe do mau funcionamento deste país, não quer saber disso.

Um probleminha que pode ser resolvido em duas horas ou dois dias de trabalho transforma-se em dois anos, fácil fácil.

Muitas vezes não é culpa do diretor ou diretora da escola, como pode-se levar a pensar – embora às vezes seja.

A Secretaria de Educação? É a avó: mãe da mãe. As leis são a bisavó.

A lei manda, a secretaria obedece; a secretaria manda, a direção obedece. Nem sempre a lei manda, mas a secretaria obedece assim mesmo… e por aí vai.

O professor, padece.

No final de tudo, na ponta da corda, os alunos que se… que esperem!

Vamos a uma historinha real.

A minha escola no Rio (municipal) vem sofrendo há anos com infiltrações no teto, molhando várias salas e mesmo corredores.

A Sala de Ciências também sofre durante anos com uma infiltração em uma parte da sala, fazendo escorrer água pela parede, pelo teto, estragando uma coluna, que está, inclusive, rachada.

A água molha e estraga há anos materiais de ciências, livros…

Eu, claro, reclamo disso também há anos. Tenho diversas fotos de materiais estragados, que tirei para comprovar. Vejam dois exemplos dos muitos que tenho:

Infiltrações Sala de Ciências - 2

Infiltrações Sala de Ciências

Então, vieram umas três vezes “consertar” o telhado. Hã? Três vezes??? Pois é.

Depois de cada uma delas, após a primeira chuva… água!

Mais material estragado.

De repente, chega-me um pessoal na sala dizendo que iria “pintar o teto”.

– Mas tem vazamento – mostrei – não adianta pintar.

– Temos ordens de pintar o teto.

– Mas o teto em si não é o problema, a parede aqui neste canto que está podre, vejam – mostrei.

– Não nos interessa, temos ordens de pintar o teto. Está aqui na Ordem de Serviço: pintar o teto. De toda a sala.

– Mas a sala está com o teto impecável, só aquele pedaço ali que tem problema por causa do vazamento, mas o vazamento continua, não adianta pintar.

– Temos ordens de pintar o teto.

Meodeus, contrataram um robô, pensei.

Para entender, a sala de ciências tem uma divisória, separando-a em duas, a maior onde ficam os alunos e uma parte onde é nosso depósito. A parte do teto vazando está no depósito. A outra está perfeita.

Vejam, por exemplo, a imagem do teto ANTES de receber a pintura:

Infiltrações Sala de Ciências - 5

Este teto foi pintado.

Mas queriam, simplesmente, que eu parasse minha aula para eles pintarem o teto. Não deixei.

Eles reclamaram e eu levei bronca da direção porque não parei minha aula para eles “pintarem o teto”.

Dias depois, sem eu estar atrapalhando, pintaram o teto.

O teto tava pintado, mas o vazamento não foi sanado, a parede a e coluna, podres. Vejam que o teto da parte do vazamento, agora sem o descascado de antes, mas já molhado:

Infiltrações Sala de Ciências - 4

Mas, como eu disse, a coluna e a parede…

Infiltrações Sala de Ciências - 6

Alguns dias depois, chuva… vazamento no teto. Ainda continua vazando.

Mais um tempo se passou, vieram consertar a coluna quebrada. Só, só e somente só a parte onde está quebrado naquela coluninha.

– Nós viemos consertar a coluna. Onde está?

– Mas… ainda tem vazamento no teto, não adianta consertar a coluna! – disse eu.

– Mas temos ordens de consertar a coluna!

Vi que não adiantava argumentar com uma ordem de serviço. A coluna foi “consertada” e pintada de branco. Só acoluna:

Infiltrações Sala de Ciências - 7

Aí, obviamente, no final de tudo, com essas últimas chuvas aqui no Rio – quem sabe sabe como está sendo – cai tudo, molha tudo, descasca tudo, estraga um monte de material.

Lá está o teto “pintado” todo descascado de novo, acima da coluna branquinha.

Embaixo dele, mais material se estragando.

Infiltrações Sala de Ciências - 8

Infiltrações Sala de Ciências - 8 Infiltrações Sala de Ciências - 9

E, nisso, sem exagero, lá se vão cerca de 3 anos.

Só um detalhe: isso não é função da direção da escola, mas da coordenadoria regional de educação (CRE) e secretaria de educação.

Essa mesma secretaria de educação do Rio de Janeiro, tão maravilhosamente divulgada na grande (e podre) imprensa, como uma das maravilhas do Rio.

Mas deve ser culpa minha, que não arrumo outro lugar pra colocar o material…

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Professor, culpado pela má educação

About Declev Dib-Ferreira

Declev Reynier Dib-Ferreira é professor, biólogo, educador ambiental, especialista em EA pela UERJ, mestre em Ciência Ambiental pela UFF, doutor em Ciências pela UERJ.

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5 comments

  1. Regina Milone

    Amigo Declev,

    Primeiro vou repetir, aqui, em parte, o que já havia escrito no facebook:

    “Amigos, infelizmente uma imensa parcela da responsabilidade da péssima educação que temos hoje é dos professores sim!!! Sou professora e fico triste em constatar isso, mas foi o que pude ver em anos de trabalho em escola. As eternas queixas dos professores que, em geral, não estão nem aí pros alunos (perdi as contas de quantas mil vezes vi isso), já me cansaram e não me dizem mais nada. Só me interessa dialogar, agora, com professores como vcs – Luiz Eduardo Farias, Declev Reynier Dib-Ferreira, Suely Andrade… -, que são exceções e não a regra, na minha opinião.
    Outra coisa: acho que não leva a lugar nenhum ficar se discutindo eternamente sobre quem são os “culpados”. Cada um que trabalha em Educação ou tem filhos que estudam ou se interessa pelo assunto, mas que, mesmo assim, não se informa o suficiente, tem sua parcela de responsabilidade.”

    Dito isso, só posso concordar com sua indignação, Declev, em relação ao espaço físico das escolas e sua (falta de) manutenção. É um completo absurdo!!!
    Passei por isso várias vezes, em várias escolas: infiltrações, rachaduras nas paredes, pichações, falta de material didático e de espaço adequado para guardá-los, ventiladores que não funcionam, janelas quebradas, problemas elétricos… Certa vez, eu estava com uma turma de 6º ano quando começou a PEGAR FOGO na sala ao lado, por causa de um curto que deu no ventilador de lá, que já estava dando choque há um tempão (já havíamos notificado e pedido providências à Secretaria de Educação várias vezes). Muita fumaça, gritos, mas todos acabamos conseguindo sair, mesmo assim. Tentei frear o pânico, o que foi bem difícil naquela situação, pois todos ficaram, com razão, muito assustados. O que salvou a todos foi o extintor de incêndio do carro da professora Cristina (de Ciências, por sinal, Declev, como vc), que ela pegou rapidamente para apagar o fogo. A presença de espírito dessa professora (que era excelente, por sinal), salvou a todos. A escola não tinha extintor!!!!!!!!!!!!! E cada sala de aula só tinha uma porta para servir tanto de entrada quanto de saída. Por isso, mesmo estando na sala ao lado, saímos tendo que assar pertíssimo do fogo, já que as portas eram coladas uma na outra e o ventilador que pegou fogo era logo o que ficava mais perto da porta!! Imaginem o perigo que passamos!!!
    Será que terá que acontecer um incêndio maior, como o da boate em Santa Maria (RS), com morte de jovens, para tomarem alguma providência???
    Parece que as coisas só funcionam assim em nosso país! E, mesmo assim, só enquanto aquilo é notícia, pois depois todo mundo esquece.

    É de matar, Declev… É de doer!

    Abraços indignados…
    Regina.

  2. E um último detalhe sobre o caso do fogo no ventilador que contei: todas as janelas eram gradeadas lá, nas salas de aula, e, portanto, a única forma de sair era realmente pela porta, onde justamente a fumaça era maior e o fogo começava a se espalhar…

  3. Digitar rápido dá nisso…rsrs
    Onde lerem “assar”, no meu primeiro comentário, entendam “passar”.
    Regina.

  4. Conhecedor que sou das normas (e da burocracia) da Administração Pública, eu vou esclarecer o aparente mistério: todo e qualquer serviço executado em um Órgão Público – seja por outro Órgão Público, ou por um preposto seu (no caso, uma firma de obras contratada pelo setor encarregado dos reparos) – tem que ser inspecionado e receber a aprovação do órgão cliente (se este não tiver os meios de avaliar a qualidade, a Administração Pública tem outros órgãos que devem prestar esse serviço).
    Então, quando você conta que o tal telhado já foi “consertado” três vezes e voltou a vazar, das duas, uma: ou os “consertos” foram de tão má qualidade que não consertaram, ou o problema não é “consertar”; é “refazer”. Em qualquer um dos casos, faltou fiscalização.
    Mas, pela descrição que você dá do caso, se percebe claramente que no órgão que deveria ter fiscalizado, mas não fiscalizou, o problema do telhado está constando como “resolvido”, tanto que os serviços “cosméticos” estão sendo realizados.
    Agora, como certamente alguém está ganhando bom dinheiro com todas essas obras inúteis, que tal acionar o Ministério Público para verificar se não há todas as características de malversação do dinheiro público?

  5. José Carlos,
    A realidade das escolas está longe de ser simples assim.
    As escolas públicas tem problemas de manutenção, com tetos quase caindo, tudo desmoronando (de uma fora ou de outra), e isso é a regra e não a exceção.
    A maioria esmagadora das escolas públicas tem problemas exatamente do tipo que o Declev descreveu. Leu o caso em que quase tivemos um incêndio na escola (foi contido a tempo por uma professora), que descrevi acima? Essas coisas são rotineiras nas escolas, o que é um absurdo completo!!! É descaso político.
    Outro caso do tipo, que assisti acontecer: um quadro negro enorme (daqueles antigos mesmo, onde só se usa giz, e que são maioria nas escolas públicas do país ainda), durante uma aula, simplesmente caiu com um enorme estrondo, quase em cima dos pés da professora. Passou raspando. Era um quadro pesado. A parede por trás dele estava cheia de infiltrações, claro. A professora teve que encostar o quadro na parede, apoiado no chão, para poder continuar a aula.
    Onde vão parar as verbas, já mínimas, para a educação???
    Cansamos de enviar ofícios, telefonar, pagar até do próprio bolso (muitas vezes), entre outras providências, para buscar soluções para problemas como os citados aqui, no artigo e nos comentários.
    Essa é a realidade das escolas públicas e teríamos que acionar o Ministério Público todos os dias, se seguíssemos sua sugestão.
    As mil etapas burocráticas pelas quais uma obra na escola tem que passar até um problema, muitas vezes simples, poder ser resolvido é um absurdo!! Declev sabe bem do que está falando.
    Abraço.