Filmagem do dia a dia da escola… fake!

Esta semana esteve na escola uma equipe da rede enganação globo de televisão.

Estavam filmando o “dia a dia” da escola, para mais uma maravilhosa série da emissora sobre educação.

A ideia, segundo eles, seria acompanhar o cotidiano da escola, um trabalho em sala de aula, a reunião de professores, etc.

No dia, estavam filmando uma reunião de professores.

Solicitaram para assinar uma declaração de direitos de imagens e quem não quisesse participar, que saísse.

Saí.

Não vou ficar como fundo de pano para a encenação de uma palhaçada.

Palhaçada porque se querem mesmo captar o dia a dia da escola, que venham ficar aqui dentro no dia a dia, diariamente, cotidianamente. Ao menos por um tempo.

E não por algumas horas encenadas. E não armando um circo para filmar uma cena pré-produzida.

Pois foi isso o que se fez.

Pega-se sempre os “melhores” alunos, arma-se uma turma de mentira, filma-se uma aula que não existe.

Depois, chama um “especialista” para dar seus pitacos sobre como o professor deve se portar, como o professor desperdiça tempo em sala, como o professor deve aproveitar melhor o tempo de reunião e planejamento, como o professor deve se importar com o aprendizado do aluno, blá blá blá!

E, como sempre a globo faz, provavelmente deverá ser o “especialista” que nunca ficou dois dias dando aula numa escola pública de periferia gustavo ioschpe.

Então, eu que não vou ficar de palhaço pro dono do circo jogar ovos podres em mim!

Quer ver o dia a dia da escola?

Venha aqui ver um aluno chamar o professor de filho da puta; venha ver uma aluna acusar falsamente o professor de tê-la molestado só porque ele a retirou de sala; venha ver um responsável gritar na porta da escola “cadê aquele professor Declev que chama alunos de maconheiros e fica alisando as meninas!” [sim, passei por isso e NADA foi feito]; venha ver as turmas saírem todas no corredor gritando quando das mudanças de professor entre uma sala e outra; venha ver os alunos quebrando deliberada e propositadamente os bebedouros, cadeiras e demais utensílios; venha vê-los fazendo guerra de comida; venha vê-los quebrando, rasgando e jogando fora os materiais didáticos, uniformes, mochilas e outros materiais que recebem gratuitamente; venha ver as bolinhas de papel sujas de liquidpaper, canetas ou borrachas voando pela sala, muitas acabando no corpo dos professores; venha ver uma aluna metendo as unhas no pescoço de outro aluno, deixando uma marca como um arranhado de leão; venha ver as brigas cotidianas; venha ver os bandidos, traficantes ou simples curiosos vagabundos na porta das escolas aliciando as meninas e meninos; venha conhecer os alunos que nem material trazem, não têm cadernos – apesar de ganharem – e, quando trazem mochilas, nem tirar das costas as tiram; venha ver os alunos saindo de sala sem nem mesmo solicitar ao professor, como se estivessem em casa, não para fazerem necessidades, mas para ficar gritando, bagunçando ou brigando pelos corredores; venha ver um professor tentando ensinar alguma matéria, mas com dez alunos falando, conversando ou gritando ao mesmo tempo; venha ver um professor – eu – tentando fazer um trabalho de pesquisa, de projeto, um trabalho em grupo com uma turma em que mais da metade da turma nem mesmo pega um papel para escrever, que devolve as folhas em branco, nem abrem o caderno e fica, desafiadoramente, conversando, ouvindo músicas e brincando com celulares; venha ver um professor sair de sala passando mal pelas agressões de um aluno; venha ver quantos professores estão de licença médica por estresse ou alterações da saúde por aborrecimentos no trabalho – converse com eles; venha ver uma aluna de perna quebrada com a mãe se recusando a levá-la ao médico porque “é frescura dela”; venha ver um aluno que vive nas ruas pedindo esmolas andando pelos corredores sem termos possibilidades de fazê-lo entrar em sala; venha ver outra que é molestada; venha conhecer a escola de verdade.

Venha ver, de verdade, o cotidiano de uma escola.

Tudo o que falei acima ocorre real e cotidianamente nesta escola em que a globo veio filmar o “dia a dia” da escola.

Isso vai aparecer lá?

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Professor desgastado com o dia a dia da escola

 

 

5 comentários sobre “Filmagem do dia a dia da escola… fake!

  1. Querido Declev,

    Respondendo sua pergunta final: claro que não vai aparecer lá! Não interessa que apareça. Essas verdades que vc aponta, Declev, inviabilizariam, por exemplo, projetos assistencialistas, cada vez mais incensados pela mídia, de intervenção nas escolas públicas.

    Sua indignação tem toda razão de existir!!!!

    Apenas acho importante pontuar, mais uma vez, o quanto o professor acaba culpando o aluno por tudo ou quase tudo, justamente porque o olhar do professor está mais voltado para o que acontece dentro das salas de aula e não pro que acontece na escola e na Educação como um todo, como nas interações entre Direção e funcionários de apoio, por exemplo, entre outras relações.

    Se é injusto – e é!!! – culpar o professor por tudo, também é fazer o mesmo com o aluno! É até mais ainda, em minha opinião, porque eles NÃO são adultos ainda.

    Ambos – alunos e professores – são os que mais sofrem, diariamente, as consequências de um sistema tão cruel, injusto e pouco conhecido por quem nunca trabalhou, mesmo que por pouco tempo, em escolas públicas, especialmente as de periferia.

    Dentro do maior parágrafo do seu texto, vc acusa os alunos por todos os problemas que acontecem em sala de aula (esquecendo-se dos péssimos professores que também existem, infelizmente, e que também agridem, xingam, debocham de alunos, entre outras coisas…), com poucas exceções, que faço questão de citar, pois inclusive explicam muito do que acontece:

    “(…) venha ver uma aluna metendo as unhas no pescoço de outro aluno, deixando uma marca como um arranhado de leão; venha ver as brigas cotidianas; venha ver os bandidos, traficantes ou simples curiosos vagabundos na porta das escolas aliciando as meninas e meninos (…)”;

    “(…) venha ver uma aluna de perna quebrada com a mãe se recusando a levá-la ao médico porque “é frescura dela”; venha ver um aluno que vive nas ruas pedindo esmolas andando pelos corredores sem termos possibilidades de fazê-lo entrar em sala; venha ver outra que é molestada; venha conhecer a escola de verdade. (…)”.

    Então, destacando esses trechos do seu texto – e sem negar nenhum dos outros, pois às agressões aos professores também acontecem, infelizmente… -, quero só dizer que o estresse do professor é tão sofrido e justificado quanto a forma agressiva ou debochada dos alunos que, em suas vidas diárias, são muito mais influenciados pelas mentiras da mídia e pelo ambiente violento em que nascem e crescem, do que por qualquer outra coisa (lembremos que só ficam quatro horas por dia na escola e já chegam querendo extravasar tudo o que trazem de fora, todas as agressões que sofreram e sofrem desde crianças).

    Repito o que já disse outras vezes: ou nos unimos em busca de um objetivo maior e comum a todos os envolvidos – a melhora da educação -, ou não sairemos nunca dessa gangorra, onde alterna-se alunos e professores, culpando um e vitimizando o outro e vice-versa.

    Parabéns pelo texto, mais uma vez realista e sem nenhuma tentativa de camuflar o que realmente acontece nas escolas, ao contrário do que aparece tantas vezes na mídia.

    Sou solidária a vc e a todos que lutam por uma educação melhor (e não são só os professores que lutam por isso), assim como sou solidária ao sofrimento dos alunos, em geral manifestado de forma tão agressiva…

    Um abraço.

    • Oi Regina,

      Eu concordo com você. Eu sei que os alunos são vítimas de todo um processo social que os transforma no que eles não deveriam ser. Ok.

      Mas é um fato.

      Nada, nada do que eu disse ali é mentira ou invenção.

      TUDO aconteceu em uma só escola que trabalho.

      É um fato.

      E eu também repito o que eu sempre digo: enquanto a realidade da escola e dos alunos não forem levadas à sério – e isso inclui o que você fala sobre o que os alunos passam, que eu também sempre falo – nunca iremos focalizar nas soluções corretas para a educação.

      Abraços,

  2. Concordo, Declev.
    E sei que a realidade é exatamente essa que vc relatou, infelizmente.
    Fico triste demais com isso, indignada, irritada, cansada… Não acabei doente à toa, como vc sabe. 🙁
    Separei brigas de alunos várias vezes, em que “sobrou pra mim”, isto é, acabei me machucando, porque o nível de raiva deles quando brigam é assustador! Sozinha eu não conseguia detê-los, então vinham sempre outros profissionais da escola pra ajudar. E isso sem falar nas ameaças, uns aos outros, do tipo: “vou te pegar lá fora depois!”. E pegavam mesmo!!! Na comunidade todos sabiam disso e já estavam acostumados a “resolver” as coisas assim.
    Chamávamos os pais e, quando apareciam (raridade…), batiam mais ainda nos filhos, berravam, xingavam… Certa vez, a mãe de um aluno de uns 12 anos, aproximadamente, começou a dar tapas na cara dele na minha frente, com força, por ter sido chamada na escola para ouvir reclamações sobre o filho. Ele foi tentando escapar, ela o encurralou na parede e bateu a ponto de dar com a cabeça dele na parede várias vezes! Foi tudo muito rápido e, quando consegui intervir, muitos tapas e cabeçadas já haviam sido dados. E sabe qual foi a reação do pessoal da escola – Direção, professores, pessoal da secretaria, porteiro, merendeiras, etc. (nesse dia a única pedagoga lá era eu) -, diante de toda aquela violência? Disseram “bem feito pra ele!; só assim vai aprender a respeitar os outros!; essa mãe é ótima e sabíamos que com ela, ele não ia ter moleza!”, entre outros comentários do tipo. O garoto com a cara vermelha, inchada, cabeça doendo e ainda tendo que aguentar o olhar dos adultos da escola – menos eu -, que pareciam estar “vingados”, achando ótimo o que aquela mãe fez. E quer saber qual foi o “delito” do menino? Querer entrar na escola usando boné e responder ao professor, discordando abertamente dele, ao invés de baixar a cabeça.
    O que o professor passa não é justo (embora os que se aproveitam dos idealistas, pra serem péssimos profissionais e ficarem “na aba” dos bons, estejam totalmente errados, na minha opinião).
    O que o aluno passa também não é justo (e, nesse caso, considero injusto pro próprio aluno “difícil” também, pois ele é sem dúvida fruto, principalmente, do meio e não tem a maturidade do adulto, ainda, para poder lidar com muitas coisas de uma forma mais ponderada).
    Famílias inteiras vivendo na miséria em um país de elites milionárias também não é justo.
    Uma mídia perversa, que distorce “fatos” e manipula à vontade, também não é justo.
    Enfim…
    Durma-se com um barulho desses!!!
    Um abraço.

  3. Todo mundo sabe que a Globo é uma bosta mas muita gente gosta de bosta. O professor é um mestre lembra antigamente quando o professor era chamado de Mestre ? Eu sou desse tem. E fica de castigo com autorização dos pais. Não virei um bandido. Eu agradeço aos meus professores que tanto amo. E essa palhaça da globo é para quem gosta de bosta ! Parabéns professor pela sua dignidade. Muitos poderia dizer: Era só participar e tudo ia ficar bonito na tela… Direito de imagem mas dinheiro no bolso. Porque professor ganha muito pouco por sua importância na sociedade. Manda esses merdas ir a bosta.

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