Perdemos a luta por uma educação pública de qualidade

Me desculpem aqueles que ainda têm esperanças, mas o fato é que perdemos a luta por uma educação pública gratuita e de qualidade para todos.

Não, não somos a Finlândia e nunca seremos.

O pior de tudo é que aqueles que mais precisam, muitas vezes, são os que menos lutam. É o ciclo da ignorância que se perpetua, o ciclo da miséria, da opressão, mesmo que travestida de liberdade.

O maravilhoso curta Vida Maria retrata isso muito bem.

O sonho acalentado por muitos de uma escola pública que atenda a todos, diferente, autônoma e democrática, para mim, acabou.

As forças liberais estão – e são – muito mais fortes do que nós. Podem muito mais do que eu posso. A força do capital ganhou.

Achar que “os professores unidos” são capazes de mudar isso é utopia. Não são.

Em primeiro lugar, porque não se “une” milhares de pessoas com pensamentos tão diferentes. Depois, porque a força do dinheiro é muito maior, até mesmo muito maior do que nossa pretensa “união”.

Então, se existem possibilidades de repasses e parcerias e inexigibilidades para fazer farra com o dinheiro da educação, nós, professores, não temos como lutar contra.

Justiça? Ora, acreditar na justiça brasileira é ainda mais conto de fadas. Ministério público? Só se for contra nós mesmos, professores. Esta democracia representativa em que quem é eleito faz o que quer e tem sempre a maioria no legislativo? Esquece.

Por isso tudo, já escrevi aqui que desisti e repito: desisto.

Por isso, também, certa vez escrevi que era contra o 10% do PIB para a educação, ou mesmo os royalties do petróleo, se não se indicar ONDE e EM QUÊ se investiria este dinheiro!

Ora, se for para gastar com fundação roberto marinho, instituto ayrton sena, fundação getúlio vargas, editoras editoras e editoras, que continue assim! Chega de escoar dinheiro a estas travestidas benfeitoras!

Agora, o município do Rio de Janeiro está prestes a votar – e aprovar – um plano de carreira que, simplesmente, acaba com a carreira dos professores atuais.

Belo Horizonte acaba de entregar à odebrecht a gestão de 37 escolas, pela qual a empresa honesta vai receber dos cofres públicos, da verba da educação, 39 milhões por ano – só para a parte física, porque o gasto com pessoal continua com a prefeitura! [Ora, se tinham mais de 1 milhão por ano por escola, por onde andava este dinheiro???]

E Niterói está revendo seu plano de cargos e salários, com uma greve e queda de braços com a secretaria de educação.

Mas, ao que tudo indica, seja lá o que for sair, o fato é que, Niterói, que antes pioneirava nos ciclos, que antes tentou fazer algo diferente, que tentou implantar trabalhos diferenciados – com, por exemplo, reagrupamentos, etc. – que havia passado professores de 16h para 22h na intenção de que ficassem mais tempos na escola… voltará às séries, voltará à tradicional educação falida existente há séculos, inclusive com a implantação da liberalíssima e fatídica “avaliação externa”. Daqui a pouco, estará distribuindo “bônus por desempenho”, como o Rio já vem fazendo.

Então, caro colega, se você sonha (ou, como eu, sonhava) com uma escola em que professores fossem mais do que “aulistas”; que as aulas fossem mais do que meras repetições de conteúdos; que as salas fossem mais do que carteiras enfileiradas viradas para um quadro; que ao invés de disciplinas determinadas em tempos matematicamente calculados nós trabalhássemos com projetos interdisciplinares… esquece, isso não vai acontecer.

Faça o seu trabalho, se isso te ajuda, da melhor maneira possível. Isole-se. Tranque sua porta e faça ali dentro. Mas a escola não vai te ajudar, os alunos não vão te ajudar, os outros professores não vão te ajudar, a direção não vai te ajudar, a secretaria de educação não vai te ajudar. Muito pelo contrário, se puder te atrapalhar, eles vão.

Esquece a utopia da educação pública gratuita de qualidade para todos.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Sem mais utopias

3 comentários sobre “Perdemos a luta por uma educação pública de qualidade

  1. Falar o quê, Declev?
    Você está certíssimo!
    Suas palavras me arrepiaram. Bastam alguns anos na educação pública para os sonhadores se tornarem apenas realistas. Sinto-me exatamente como você. Tem horas que dá vontade de largar tudo porque você se vê como o ÚNICO que realmente se importa.
    Triste, viu!

  2. Engraçado em como me enquadrei em seu desabafo,estou na luta mas já sem esperanças também, é dolorido ter que admitir que perdemos, que não importa o que façamos nada vai mudar. Infelizmente você está certo, o dinheiro fala mais alto que qualquer sonho de liberdade, somos e seremos sempre marionetes nas mãos de um governo corrupto e ditador.

  3. Gostei do seu último parágrafo…Isso me fez relembrar Paulo Freire um incansável guardião da esperança.Tive uma amiga que se aposentou e não viu o seu sonho se realizar após trinta anos de luta por um ensino adequado para seus alunos surdos. Conseguimos por algum tempo instituir suas idéias, porém vieram outros tempos e outros interesses e suas idéias sumiram, foram apagadas. Aqueles que construíram a partir delas ainda continuam a faze-lo, como eu. Tenta-se passar as mesmas ideias e metodologia, porem os mais novos não entendem porque falta experiência, aprendizagem, não alcançam o processo pela imaturidade, ou querem experimentar as suas próprias ideias deletando todo o passado. Foram séculos até conseguirmos ver o Estatuto da Criança. É meu amigo, ainda estamos vivendo momentos escuros porque nossos governantes não fizeram “concurso” como nós para os nossos cargos, após anos de estudo. Existem alguns que nem conseguem redigir uma carta…o que esperar dessas mentes!? Democracia ou armadilha? Ainda não me decidi.

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