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Esclarecimentos sobre méritos

Em diversas conversas com amigos sobre políticas assistenciais, cotas, bolsas [especificamente a bolsa família, que atinge aos pobres], é comum as pessoas se inflarem e dizerem como elas foram “pobres” e são “vencedoras” e, portanto, nada disso seria necessário.

Frases como “paguei com meu suor e trabalho” ou “minha família sempre foi pobre e eu batalhei pra ter tudo que tenho” são comuns, escondendo uma ponta de preconceito e despeito.

O problema é que estas frases nunca vêm acompanhada de uma reflexão sobre o que é o retorno sobre nosso “suor e trabalho” nesta sociedade desigual e injusta.

Dentre os “pobres”, há os mais pobres e os realmente pobres. Dentre os miseráveis, os mais miseráveis. Dentre as dificuldades que temos, existem os que têm 100 vezes mais dificuldades. Quem somos nós pra julgar?

Ora, eu também trabalho e ganho meu dinheiro com “meu suor e trabalho”, mas depois de ter tido a OPORTUNIDADE de estudar em uma escola privada muito boa [com a ajuda do meu avô aos meus pais e de ter descontos na escola, pois sempre tivemos mais de dois irmãos estudando lá], depois de ter estudado numa das melhores universidades privadas do Rio com CRÉDITO EDUCATIVO [isso mesmo, pago pelo Estado], depois de ter feito mestrado na UFF (pública) e doutorado na UERJ (pública), ambas, portanto, pagas pelo Estado.

Então, apesar de não denegrir o meu próprio esforço pessoal, não posso deixar de ver que 90% da população não teve os mesmos privilégios que eu, branco de classe média, tive para, agora, estar colhendo os frutos do “meu suor e trabalho”.

E, sim, negritei o “branco”, porque isso fez e faz toda a diferença na hora de colher os frutos de nosso “suor e trabalho”. Então, mesmo os frutos do “suor e trabalho” de cada um são extremamente diferentes e injustamente proporcionais.

Ou você acha que os grandes empresários que auferem fortunas milionárias (veja as famílias mais ricas do Brasil, por exemplo, ou os empresários de transportes, das construções, etc), obtiveram toda sua fortuna e grandes empresas somente com o “trabalho e suor” de seus próprios rostinhos?

Não, não tiveram.

Milhares de pessoas são EXPLORADAS há séculos por eles (vide AINDA, em pleno séc XXI, existirem muitos que utilizam mão de obra escrava ou semi-escrava!). São bilhões em impostos SONEGADOS (vide, por exemplo, a globo que agora há pouco se soube de mais de 600 milhões em sonegação). São muitos e muitos e muitos políticos filhosdaputa comprados por outros emrpesários filhosdaputa por meio de “doações” que nada mais são que “investimentos” para depois “ganharem” licitações fraudulentas e somarem ainda mais fortunas ao fruto de seu “suor e trabalho”.

Por que será que as grandes empreiteiras “doam” tanto para as campanhas e, coincidentemente, depois das eleições os eleitos fazem obras faraônicas com estas mesmas empreiteiras? Para que os donos possam dizer que fizeram fortuna com o seu “suor e trabalho”?

Não, a sociedade NÃO pode ser resumida num simples processo de meritocracia como querem supor.

Não é tão simples dizer “estude e trabalhe que você se dará bem na vida”.

Se a meritocracia fosse, realmente, colocada em prática, pode ter certeza de que a pirâmide social se inverteria.

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Então, se você ainda acha que na nossa sociedade todo mundo tem o que é justo e colhe somente os frutos de seu “suor e trabalho”, uma sugestão: pare de ler a veja e similares e pense fora da caixinha.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

About Declev Dib-Ferreira

Declev Reynier Dib-Ferreira é professor, biólogo, educador ambiental, especialista em EA pela UERJ, mestre em Ciência Ambiental pela UFF, doutor em Ciências pela UERJ.

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