Copa do Mundo 2014 e os investimentos em educação

Os protestos contra a copa do mundo sempre vêm acompanhados de motes como “quero educação padrão fifa” ou “da copa eu abro mão, quero dinheiro para saúde e educação”.

Ao contrário do que pensam, estas reivindicações fazem sentido. Quem está dentro da escola é que sabe que o dinheiro “da educação” não é somente “para a educação”.

Para fazer qualquer coisa na escola é um sufoco. Obra, climatização, compra de materiais, aluguel de ônibus para passeios, dentre outros,  são sempre acompanhados de um “não tem dinheiro” ou de uma burocracia sem fim que, ora inviabiliza a concretização, ora faz demorar meses e meses para fazê-lo. As pequenas verbas que as escolas recebem são sempre “carimbadas” e com 1001 exigências.

Então, se tem dinheiro, não se usa; se se usa, é pouco; se é suficiente, é mal empregado. Poderia dar inúmeros exemplos, mas não é caso deste artigo.

E, enquanto isso, 99% das escolas, para ser bondoso, não têm as condições ideais de funcionamento.

Para os professores, nunca se tem dinheiro para melhoria salarial ou do plano de carreira. A regra do 1/3 do horário do professor que deve ser dedicado ao planejamento de suas aulas não é cumprida e vem sendo de toda forma burlada pelos gestores, com a desculpa de que “não tem dinheiro”. Em breve vou escrever, assim que tiver estômago para isso, sobre as tentativas de burlar a lei que estão ocorrendo nos municípios do Rio e Niterói, dois dos mais ricos do Brasil.

Ora, quando pedimos aumento, não tem dinheiro. Quando queremos 1/3 do tempo para planejamento, não tem dinheiro [pois teriam que contratar mais professores].

Mas, para dizer que os 30 BILHÕES gastos para a copa do mundo equivale a “apenas” 1 mês do que é “gasto” com a educação, enchem a boca!!!

Copa equivale a um mês de gastos com educação http://brasil247.com/+luwd8 – Alvo central das manifestações de rua e greves que perturbam o país, investimento público no Mundial, destinado a estádios, projetos de transporte urbano e aeroportos, soma R$ 25,8 bilhões – o equivalente, por exemplo, a 9% das despesas públicas anuais em educação, de R$ 280 bilhões; valor do evento foi o mesmo gasto em Belo Monte, maior obra financiada pelo governo.

A matéria da Folha de São Paulo sobre os gastos com a Copa e a educação: http://goo.gl/WpDUmF

E ainda fazem “figurinhas” pra tentar desqualificar a luta dos professores:

Copa do Mundo

Então, deixe-me fazer algumas ponderações sobre isso para as Polianas…

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Dinheiro pra saúde e educação é obrigação, inclusive previsto na Constituição: os três níveis de governo devem destinar um percentual mínimo da arrecadação para a educação (18% no caso da União, e 25% no caso dos Estados e municípios).

E não é um simples “gasto” nem é o mesmo tipo de investimento que em estádios. É o investimento primordial que um país deve realizar, pois dele advém todos os outros: saúde, comportamento, civilidade, segurança, etc.

Agora, vamos comparar também. Consideremos os 30 bilhões gastos com a copa. Só com meia dúzia de estádios foram 8 bilhões.

Só um adendo: veja a figura da direita acima em que a assessoria da dilma coloca INCIATIVA PRIVADA na construção dos estádios (como se BNDES não fosse dinheiro do governo) e leia este artigo: Governo admite que não conseguiu mobilizar iniciativa privada para a Copa.

Mas vejamos agora o que é gasto com a educação – uns 280 bilhões, certo?

Neste valor ANUAL (cerca de 23 bilhões por mês) estão TODAS as universidades federais (quase 70!), escolas técnicas, institutos de educação, colégios de aplicação, além de todo o dinheiro dos fundos (FUNDEB, FNDE, etc.) que vão para estados e municípios; o dinheiro do PDE (Dinheiro Direto na Escola); o dinheiro de 30 milhões de livros do PNLD… o que mais?

Que comparação esdrúxula é essa???

Uma coisa é manter-se toda esta estrutura da educação, outra coisa é gastar-se bilhões em obras faraônicas que, possivelmente, em breve muitas nem estarão mais em condições nem de ser usadas, pois provavelmente poderão nem ter como se manter, nem terão público para tanto.

Vide, por exemplo, algumas obras que foram feitas para o Pan, aqui mesmo no Rio, que estão ou ficarão inoperantes, desabando e que nem servem mais para uso, por exemplo, nas olimpíadas. Observe a “previsão de custo” e o custo final.

Mas você acha que não acontecerá o mesmo com estas de agora??

Então, não é só uma simples questão de “quantidade” de dinheiro, mas também da qualidade de seus gastos. Não é possível achar-se “normal” ou “necessário” o gasto que se teve para colocar abaixo o maracanã e “reformá-lo”, agora, praticamente, para uso da elite (pois pobre está socio-cultural-financeiramente excluído dali). Só ali foram enterrados, literalmente, mais de 1,3 BILHÃO de reais!

E, mais um detalhe: quem vai LUCRAR com o maracanã? Uma empresa privada!

Governo gasta com estádios, mas não vai controlar nenhum depois da copa

Se você acha isso normal, eu não acho.

Não gastasse todas estas elucubrações, ainda podemos dizer que estes eventos tem sido mote para uma série de desocupações e outras barbáries, por exemplo, com o povo aqui do Rio:

E, enquanto isso, sim, É VERDADE que temos escolas e hospitais públicos caindo aos pedaços, mesmo com tantos “bilhões” “investidos” nestes setores.

Tem algo errado.

Para quem acha que ter este tipo de pensamento e protestar contra a copa é ter um “complexo de vira-latas” e tem o discurso de “viva a Copa povo brasileiro, aproveite este momento, valorize o papel que o Brasil tem no mundo”, chegando a cúmulo de achar que “o que tinha que ser roubado já foi” [!!!], eu tenho um recado: leia novamente os dois itens lá em cima e repare na expressão utilizada duas vezes “por pressão popular”, deixe de ser Poliana e comece a raciocinar.

Você pode se surpreender.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
f* a copa, quero aumento de salário e condições de trabalho