Vida virtual x vida real

Sei que parece insano, mas a vida “virtual” tem me tomado cada vez mais tempo.

Na vida “real” eu tenho que sair de casa com todos os riscos que isso pode trazer: tenho que pegar ônibus e me aborrecer com o motorista que pensa que é piloto de Fórmula 1; tenho que andar pelas calçadas quebradas desviando de camelôs, buracos, carros e outros obstáculos; tenho que andar com medo a cada rapaz que cruza por mim de chinelo; tenho que ficar horas e horas em engarrafamentos para perfazer percursos que faria em poucos minutos; tenho que respirar a fumaça que sai muito mais do que seria o normal dos escapamentos; tenho que ficar ao sol, me perguntando onde está a árvore que estava ali; tenho que ficar em fila por 40 minutos, pois o “sistema” está fora do ar; tenho que fugir da polícia e do bandido ou de ambos ao mesmo tempo; tenho que ficar em pé onde estiver, pois não há mais bancos ou praças; tenho que conviver com caminhões, obras, barulhos; tenho que ver as pessoas atravessando por entre os carros porque não quer esperar o sinal fechar pra eles; tenho que ver os carros furando os sinais vermelhos…

A vida real me parece cada vez mais perigosa, chata e estressante.

Linchamentos, roubos, cuspes, mijos, gritos, esbarrões, cascas de

vida real

Mas a vida virtual é mais calma.

Posso estar no ambiente seguro e limpo de minha casa, em meu quartinho sagrado; posso criar, escrever, elaborar ao meu tempo; posso levantar, comer, beber água ou ir ao banheiro quando quiser; posso fazer minhas manifestações, protestos, encaminhamentos em segundos; posso trabalhar; posso divulgar e contribuir sem sair de minha cadeira; posso ter um nome, uma vida, uma rede social sem os problemas e perigos da vida real.

Ou eu tenho que mudar de vida real – e isso é um desejo cada vez mais ardente -, ou minha vida virtual será continuamente mais importante.

E, detalhe, posso ser feliz assim.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
O virtual