Lei da Ação e Reação na Educação

Newton estava certíssimo, não só no domínio da Física, mas, sem ele saber, até nas relações humanas.

Trabalho em duas escolas. Hoje, sou dois professores.

Em uma escola tenho três turmas médias, com cerca de 25-30 alunos; em outra, três turmas pequenas, com 20 alunos em média.

As características dos alunos de uma e de outra me fazem ser um e outro professor.

Na primeira, sou recebido pelos alunos com sorrisos e bons dias. Faço trabalho em grupos, de forma lúdica, independente, com liberdade, sou engraçado, mas às vezes durão.

Porém, mantenho com quase todos os alunos e alunas uma relação de camaradagem, cumplicidade, respeito, conversa… Sou às vezes uma espécie de confessor, quando me contam sobre suas vidas, as relações com os pais, coias sobre as descobertas amorosas, etc.

Não é raro, no intervalo do almoço, ter eu um grupo de estudantes que ficam comigo em sala, sem fazer nada. conversando, batendo papo.

Todos os dias alguns me ajudam a arrumar a sala e os materiais, limpar, varrer, tirar pó, molhar as plantas.

Todos os dias, sem exceção, diversos alunos vêm de outras turmas – que nem são minhas – falar comigo, me dar bom dia, apertar a minha mão. Não raro pedem para ficar em minha sala, pedem permissão ao outro professor, fazem rápido o trabalho que têm que fazer com ele e ficam depois comigo o resto do tempo.

Tenho um rádio e um aparelho de som ligado ao computador em que deixo tocando na aula músicas de relaxamento, músicas clássicas ou, por vezes, músicas solicitadas por eles mesmos.

No corredor, ao lado da porta da sala, coloquei duas mesas e um armário com livros. Algumas aulas um ou dois grupos ficam ali, do lado de fora, fazendo o trabalho.

Por vezes fico cercado de alunas me contando de suas experiências, fazendo perguntas.

Não, não é o céu, nem a melhor maravilha do mundo e, sim, tenho muitos problemas e aborrecimentos com alunos. Alguns em especial. Mas a relação entre mim e eles é, em sua grande maioria, agradável, simpática e respeitosa. Posso falar, perguntar, fazer brincadeiras.

Os trabalhos em grupo rendem, os alunos – com as exceções de sempre – produzem, perguntam, me chamam fazendo questionamentos.

Enfim, o tempo passar rápido e, de certa forma, agradável.

Na outra escola sou recebido com um “ah, professor, por que que você veio?”. Continua em sala logo de início com um “hiii, professor, passa nada hoje não!”.

Assim que coloco o título do assunto no quadro eles já começam com um “chega, professor!”.

Já tentei fazer os mesmos trabalhos, os mesmos projetos, as mesmas atividades que as outras escolas. Mas, depois de diversos aborrecimentos, brigas, insistências, desisti. Parei.

Já fui xingado; já levei bola de papel; já fui acusado de ser pedófilo (sério!); já fui acusado de chamar os alunos de putas e de bandidos. Não, nada disso é verdade. Eu costumava conversar com eles como converso com os alunos da outra escola, tentando demostrar a importância do estudo, da falta de oportunidade das pessoas que não estudam e não conseguem seguir estudando, da dificuldade de conseguir bons empregos daqueles que passam pela escola sem aprender o mínimo que deveria e, quando têm que entrar no mercado de trabalho, não lhes restam muitas opções. Dentro deste contexto, já dei exemplos de vários ex-alunos dali que se tornaram bandidos, traficantes e que morreram ou estão presos. Não são poucos. Nisso, num dia virei o professor que os chama de bandidos e putas.

Não há conversa. Não temos a mesma linguagem, nem consigo chegar a que me entendam.

Os papos dentro de sala são repletos de palavrões, xingamentos e agressões.

Hoje, só consigo entrar calado, sair mudo, nem consigo conversar ou manter um diálogo seja lá sobre o que for.

Coloco a “matéria” no quadro, eles copiam. Termina a aula, eles saem. Só.

E não me julguem. Quem quiser julgar ou me dar conselhos, antes de tudo, venha pra escola. Aqui vive com falta de professor.

Aliás, uma das turmas está desde o início do ano sem professor de História, por exemplo.

Saia de seu gabinete e venha nos fazer companhia.

Eu só estou esperando as férias chegarem pra poder descansar um pouco e, quem sabe, no recomeço do ano que vem tentar ao menos uns meses de bons trabalhos e boas relações.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Professores.

Um comentário sobre “Lei da Ação e Reação na Educação

  1. Declev, praticamente todo o seu texto poderia tranquilamente ser assinado por mim. Sei exatamente o que você passa e o quanto é frustrante ter “duas caras”. Acho que é inevitável, uma hora todo o ambiente e as pessoas de uma determinada rede/escola te puxam para o modo automático e você vira quase um robô, sem expressão e frustrado. Mas que bom que ainda temos um lugar para nos sentir vivos e úteis, onde somos bem vindos e realmente podemos sentir que podemos transformar os alunos (e ser transformados, para melhor, por eles). O meu medo, Declev, e já penso nisso há um bom tempo, é quando não tivermos mais essa válvula de escape. Já imaginou se tivéssemos só as escolas do segundo exemplo pra dar aula? Não sei se aguentaria, meu amigo!

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