Escola não é para fazer pensar

O aluno “não consegue achar” o assunto que pedi para pesquisar no livro.

“Não tem!”, afirma ele.

Abro o livro no sumário e o primeiro assunto é… o mesmo que havia pedido e que “não tinha” naquele livro.

“Você sabe o que é e para que serve o sumário?”, pergunto.

“Não” – cara de quem está ouvindo alguém falar em russo.

Eu suspiro.

Percebo – aliás, reafirmo o que eu já sabia – que no 7º ano os alunos não sabem o que é um sumário.

Praticamente todos. Isso quer dizer que estes alunos passaram 7 anos, no mínimo, na escola e não aprenderam o que é um sumário, o básico do básico para começar a fazer uma pesquisa.

Claro, a escola não é para fazer pensar, nem para pesquisar, nem mesmo para aprender ou aprender a aprender.

A escola – dos pobres, diga-se de passagem – é para manter os jovens dentro de um prédio. E os professores passaram a ser seres que tomam conta dos alunos para não se matarem.

É um projeto muito bem elaborado: finge-se que a educação é “para todos”, que é de qualidade, etc., enquanto desenvolve-se o emburrecimento – em relação à cultura letrada – de uma grande massa.

E nisso são gerações perdidas. Por mim já passaram umas duas.

Dos meus alunos, já não cabem em meus dedos aqueles que foram assassinados, presos, acidentados.

É uma vitória quando encontro algum ou alguma em um subemprego, ralando para ganhar quase nada e ter menos ainda, mas tendo uma vida, de certa forma, digna.

São vários os indícios deste projeto de bestialização social dos mais pobres – o que vai garantir eternamente o voto de cabresto, a mão de obra semi escrava e que o Brasil seja, por exemplo, um dos poucos países do mundo em que há empregadas domésticas em quase todas as residências.

Nós, professores, somos massacrados de todos os lados:

  • O salário do professor no Brasil é dos piores do Mundo;
  • Os professores no Brasil têm as maiores cargas de trabalho do mundo;
  • As salas são cada vez mais lotadas, o que impede qualquer tipo de trabalho diferenciado com os alunos, fora do famoso “copia do quadro”;
  • Os materiais vêm prontos e acabados ditando as regras, como apostilas, provas e materiais elaborados por nobres institutos e ong’s “educativas”;
  • Os alunos podem TUDO, mas a cobrança que podemos fazer é cada vez menor. Basta ir à escola – e às vezes nem isso. Não precisa estudar, nem fazer nada;
  • Se você é um profissional crítico, pensante, que tenta inserir algo diferente no dia a dia da escola, será mais massacrado, defenestrado, maldito e sacaneado ainda. Será, quiçá, banido. Estes podem ainda sofrer assédio moral;
  • Aliás, contra estes que pensam até mesmo leis estão sendo criadas, como a “Lei contra doutrinação ideológica” – o que querem dizer com esta lei? “Não pensem nem façam pensar”

Enfim, estar na escola tentando fazer os alunos PENSAREM, para além de decorar algo para cuspir numa prova “oficial”, destas dezenas de testes e provas para compor índices que para nada servem, é impossível.

TODOS os que conheci que tentaram, foram massacrados e desistiram. Inclusive eu.

Que venha a nossa Idade Média. Ela virá.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira

2 comentários sobre “Escola não é para fazer pensar

  1. Sinto uma tristeza enorme quando vejo que nao posso te ajudar, que tudo o escrito acima e a mais crua verdade, porque fui professora em escola publica e sei por experiêencia propria que tudo o que diz e amais”pura realidade”. Eu desisiti Declev, adoeci, nao consigo mais nem passar perto de uma escola. Apenas desisti. Desejo-te toda a felididade do mundo e peço a natureza que consiga lhe preservar a saude…
    Com todo o meu respeito, Professor, o melhor que posso dizer e: eu te amo.
    Elaine

    • Obrigado, Elaine… eu desisti também… vou à escola quase que como um zumbi, por pura obrigação. Estou trabalhando em minha porta de saída e, quando ela estiver aberta, passo por ela. Abraços.

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