ser professor

A Síndrome da uniformização do pior de tudo

Fico pensando que nós estamos celebrando uma época de bestialização, que o pior de tudo é o que as pessoas querem pra suas vidas. Ou, ao menos, que acham que querem, pois não sabem o que fazem.

Parece que quanto pior for alguma coisa, maior a tendência das pessoas aceitarem-na e reproduzirem-na, gerando uma uniformização do pior de tudo.

Hoje, mesmo com as infinitas opções que temos para quaisquer coisas as pessoas tendem a repetir à exaustão aquilo que tem de pior.

Por exemplo, nós temos, praticamente, o mundo em nossas mãos 100% do tempo, através da internet. Mas o que é visto e buscado na internet? O pior dela.

Seja em qualquer campo: música, leitura, política, etc., as pessoas vão como rios para um mar de coisas ruins.

Na música, quanto menos letra, mais repetições de sílabas aleatórias, menos acordes e mais superficial a melodia, mais vende. Não preciso dar exemplos, pois acho que todo mundo já sabe do que falo.

É sempre uma nova “música” que estoura, fica uns poucos meses (ou mesmo semanas), depois vem outra retirada do lodo da mediocridade para tocar à exaustão.

Mas as melodias mais elaboradas, com letras que dizem algo, ficam restritas a um pequeno e mesmo grupo de pessoas.

Outro exemplo: existem centenas de revistas e publicações de tudo quanto é tipo, sobre tudo quanto é assunto.

Mas, quando vamos a um consultório de médico, dentista, um departamento burocrático qualquer, um escritório, seja lá onde for no qual teremos que esperar sentados em um banquinho com uma mesinha ao lado na qual dispõem-se revistas… encontraremos a “caras” e a “veja”.

Só nestes locais temos milhares de assinaturas das piores revistas que existem no mercado, só com fofocas da pior baixeza sobre a vida dos outros ou sobre política. Lixo.

Na política, então, os mais bostas, com as piores receitas, os que mais agridem os outros com atrocidades verbais, são os mais votados. São endeusados. Reflexo da uniformização do pior de tudo.

Mais um exemplo do cotidiano: tenho uma filha de 1 ano e 4 meses. Quando a levo ao pediatra ou a qualquer outro lugar e as pessoas querem agradá-la e distraí-la, pensam em colocar algo na tv ou no computador ou no tablet para ela assistir. Aí colocam SEMPRE… a “galinha pintadinha”.

Um SACO, chato pra cassete, músicas com arranjos péssimos, estridentes, acho horrível. Mas só colocam – automaticamente, como se só existisse isso – a bosta da galinha pintadinha.

E me diziam, assim que ficamos grávidos, que “não tem como escapar”, “ela VAI assistir, com certeza”, “ela VAI adorar a galinha pintadinha e não tem nada que você possa fazer quanto a isso”, blá blá blá.

Agora, acreditem, sabe quando ela vê galinha pintadinha? NUNCA! Quer dizer, só quando estamos em um dos locais que falei acima e não temos opção (e mesmo assim, tenho dito para não colocar). Em casa ou conosco? Nunca.

Mas, então, ela vê o quê? Ora, ignaros, há centenas de (boas) opções na internet. Pode-se no computador, no tablet, na televisão (conectando o computador na tv, por exemplo) centenas de outros bons desenhos, educativos, com boas músicas, não estridentes ou esquizofrênicos como esta galinha.

Entretanto, as pessoas, sem pensar (claro, SEM pensar) automaticamente fazem a ligação: criança = assiste galinha pintadinha idiotizante.

As pessoas se prendem às piores coisas, como a um cavalo amarrado numa cadeira de plástico.

cavalo amarrado na cadeira de plastico

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira