Os diálogos inter redes na perspectiva dos Fóruns brasileiros de educação ambiental

A Rede Brasileira de Educação Ambiental – REBEA – foi criada em 1993 e articula, hoje, cerca de 50 redes territoriais, temáticas e de juventudes[1]. Sua configuração em rede traz a perspectiva da horizontalidade, da participação e do controle social. Suas ações se dão a partir de consensos construídos nos Fóruns Brasileiros de Educação Ambiental que são constantemente dialogados e redimensionados à luz das conjunturas políticas do campo ambiental e do campo da Educação Ambiental, no país e nos diversos territórios.

O documento de identidade da REBEA é o “Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global”[2], documento elaborado no Fórum Global em 1992, que entre seus princípios mais contundentes afirma: “A educação ambiental não é neutra, mas ideológica. É um ato político, baseado em valores para a transformação social.”

Em 2009, durante o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental[3], as redes da malha da REBEA elaboraram a Carta da Praia Vermelha[4], documento que apresenta o posicionamento político da REBEA frente ao “cenário de desmonte das ações do Órgão Gestor da Política Nacional de Educação Ambiental” e aos  “ ataques e retrocessos da legislação ambiental no país” , afirmando que os educadores ambientais nas redes e coletivos “ se mantêm atentos e atuantes para a construção de processos e espaços educadores sustentáveis, exercício da cidadania ambiental e a defesa da Vida.” Este posicionamento é reiterado no VIII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, em 2014, com a Carta de Belém[5] que afirma: “a urgência da aproximação da pauta ambiental com os direitos humanos, especialmente na redução de barreiras para a igualdade de oportunidades para todas as pessoas, garantindo assim, um desenvolvimento humano justo, acessível, portanto, inclusivo”.

Com a Carta da Praia Vermelha e a Carta de Belém, os Fóruns Brasileiros de Educação Ambiental, organizados pela REBEA desde os anos 90, se fortalecem como um espaço político primordial para a construção coletiva de estratégias e táticas políticas dos educadores ambientais engajados nas lutas contra o capital, a privatização da natureza e as injustiças sociais e ambientais.

Os Diálogos Inter Redes é um processo político de diálogos entre diversas redes e coletivos que teve início durante o V Fórum Brasileiro de Educação Ambiental (Goiânia, 2004), a partir de demanda da REARJ – Rede de Educação Ambiental do Rio de Janeiro – que aprovou um indicativo para que no V Fórum fosse oportunizado um espaço de diálogos entre a REBEA, a REBAL – Rede Brasileira de Agendas 21 – e o FBOMS – Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais.

A proposta foi aprovada pela Facilitação Nacional da REBEA, pelo Colegiado Nacional da REBAL e pela Coordenação Nacional do FBOMS e os Diálogos foram centrados na construção de uma pauta de propostas ao Órgão Gestor da Política Nacional de Educação Ambiental e para a Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Brasileira.

Durante o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental (Rio de Janeiro,2009), os Diálogos Inter Redes se solidificam e a elaboração da Carta da Praia Vermelha contou com a participação de integrantes de: REBAL,  FBOMS,  Rede de Juventude e Meio Ambiente,  Rede Brasileira de Justiça Ambiental, Rede de ONGs da Mata Atlântica, Rede Ecossocialista, APEDEMA-RJ,  Fórum Ambiental Popular do Rio de Janeiro, Federação das Associações de Moradores do Rio de Janeiro, Coletivos de agricultores orgânicos e apicultores , Rede Ecosurfi, lideranças de povos indígenas, lideranças do movimento negro e produtores culturais.

Os Diálogos Inter Redes tiveram papel preponderante em 2012, sob a liderança do FBOMS, da REBEA e da REBAL, quando da construção de um “campo ambiental” na Cúpula dos Povos[6], que se concretizou em 3 tendas:  duas Tendas sob a coordenação do FBOMS[7], com uma programação intensa congregando diversos coletivos e redes do campo socioambiental e uma Tenda onde ocorreram a Cúpula das Águas e Florestas[8] e a II Jornada Internacional de Educação Ambiental[9], organizadas pela REBEA e REBAL.

Em 2014, durante o VIII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, os Diálogos Inter Redes se revigoram, e a Carta de Belém teve a participação, em sua elaboração, de integrantes do FBOMS e da REBAL.

Em 2015, durante o 3º Congresso Internacional de Educação Ambiental dos Países Lusófonos, em Portugal[10], a proposta de ampliação dos Diálogos Inter Redes para os países Lusófonos foi incorporada ao Programa do Congresso[11].

Em 2016, durante o Fórum Social Mundial, os coletivos e redes protagonistas dos Diálogos estiveram à frente do Fórum Social Temático de Educação Ambiental[12].

Em setembro de 2017, durante o IX Fórum Brasileiro de Educação Ambiental[13], haverá uma nova rodada de reflexões, com a proposta de consolidação de uma pauta concreta de ações compartilhadas entre as redes e coletivos que integram os Diálogos Inter Redes e visando também a construção de proposta para o Fórum Social Mundial [14](2018) e o Fórum Alternativo Mundial da Água (2018)[15] .

Texto de Jacqueline Guerreiro *

* Integrante da Facilitação da Rede Brasileira de Educação Ambiental e da Rede de Educação Ambiental do Rio de Janeiro. Integrante do Comitê Assessor do Órgão Gestor da Política Nacional de Educação Ambiental e do Comitê Assessor do Órgão Gestor da Política Municipal de Educação Ambiental do Rio de Janeiro. Integrante do Grupo Interinstitucional de Educação Ambiental do Estado do RJ. Coordenadora da Câmara Técnica de Educação e Mobilização Social do Comitê da Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara.

REFERÊNCIAS

[1]  http://encontrorebea.blogspot.com.br/

[2] http://encontrorebea.blogspot.com.br/p/o-que-somos.html

[3] https://pt.scribd.com/document/44033758/VI-Forum-de-Educacao-Ambiental-Textos-e-artigos

[4] http://www.jorgeamaro.com.br/praia-vermelha.pdf

[5] http://www.recicloteca.org.br/noticias/carta-de-belem/

[6] http://www.inovacaonacadeiadevalor.com.br/cupula-dos-povos-quer-nova-agenda-global-de-lutas-entrevista-carlos-henrique-painel-coordenador-do-fboms?locale=pt-br  , http://www.oeco.org.br/noticias/26168-declaracao-final-da-cupula-dos-povos/

[7] http://fboms.aspoan.org/wp-content/uploads/2013/05/Jornal_FBOMS_Edicao_18_Ano_VII_Maio_Junho_2012_alta_resolucao.pdf

[8] http://www.itpa.org.br/?p=2259  ,  https://issuu.com/rebal/docs/relat_rio_final_web_

[9] http://www.ecoar.org.br/web/news.php?id=410

[10] http://redeluso.blogspot.com.br/p/3-congresso.html

[11] http://www.ealusofono.org/index.php/acerca-de/edicoes-anteriores/iii-programa

[12] http://vhecologia.blogspot.com.br/2016/01/em-defesa-da-educacao-ambiental-no.html

[13] http://ixfbea-ivecea.unifebe.edu.br/

[14] http://forumsocialportoalegre.org.br/tag/forum-social-mundial-2018/

[15] https://www.facebook.com/FAMA2018/