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Ensino religioso nas escolas

Era uma vez um Brasil culturalmente religiosamente diverso, amável, amigável, tolerante às diferenças. E, então, as igrejas neopentecostais surgiram. Finalmente, o supremo tribunal federal jogou a última pá de cal no defunto, liberando o ensino religioso nas escolas de forma confessional.

Sou professor há quase 20 anos. Quando comecei, muitos alunos já eram das neopentecostais, além de muitos integrantes de outras igrejas, como da católica, das protestantes tradicionais e das matrizes africanas.

Todos conviviam pacificamente. Ninguém era ‘do diabo’. Já se tinha uma certa rejeição às ‘macumbas’, mas ainda se dizia que frequentava, junto com a mãe ou com a avó, sem ser defenestrado.

Hoje, grande parte dos alunos – dou aula para os mais pobres, de periferia, maioria absoluta de negros – segue as religiões neopentecostais, influenciados pelas famílias.

Tudo é do diabo. Parece que nada é de Deus.

‘Macumba’ é do diabo. Candomblé, Umbanda, imagens de santos católicos, tudo é do diabo. Doces de Cosme e Damião são do diabo. Tá amarrado. É do diabo.

E, pelo jeito, o Brasil está sendo entregue ao diabo.

Este povo das neopentecostais não veio para salvar ninguém do inferno, mas sim para mantê-los ignorantes, pobres e dando aos donos dos negócios das igrejas, cada um de seus seguidores, a sua parte em dízimos.

Isso ficou bem claro quando, há muitos anos, filmou-se uma reuniãozinha  dos pastores, flagrando-se o edir macedo ensinando a tirar dinheiro dos fiéis.

O prefeito do Rio de Janeiro, aquele que ‘não mistura religião com política’, foi claramente colocado lá pelo tio, o ‘bispo’ macedo, para servir à igreja deles politicamente. Ou seja, fazer lobby político para obter mais e mais vantagens.

Ora, isso foi dito por ele mesmo:

E ele vem conseguindo isso. Na prefeitura do Rio, vem colocando a igreja lá dentro, em diversos lugares, tanto para ganhar dinheiro diretamente, quanto para angariar mais fiéis ou manter um braço da igreja lá dentro:

Agora, a porteira do inferno está aberta de vez.

STF libera ensino religioso nas escolas

A nossa Constituição afirma clara e enfaticamente que o Estado é Laico – o que significa que não segue nenhuma religião, que religião é do âmbito pessoal, físico, e não público. E tem que ser respeitado esse direito a todos. Está lá:

ensino religioso nas escolas

Mas essa nossa coitada Lei Máxima vêm sendo constantemente vilipendiada, especialmente neste quesito.

E ninguém, nenhum Guardião Legal da nossa Constituição tem a coragem e o repeito de mantê-la.

Aliás, muito pelo contrário: eles vêm continuadamente indo CONTRA ela.

Agora, contrariando novamente a Lei – impressionante como um stf pode fazer isso (minúsculas propositais) -, o supremo decide que o ensino religioso nas escolas públicas – por si só, um atraso absoluto – pode ser ministrado como um ensino confessional, ou seja, ligado a uma religião específica.

São tantas barbaridades neste ato que fica difícil até começar a pensar pra escrever. MAs vou fazer umas considerações por partes:

1 – Já falei acima da invasão das igrejas neopentecostais. Imagina um “professor(a)” crente de uma igreja nepentecostal, o que vai ensinar? Imagina as lições de preconceito, homofobia, intolerância que eles trarão pra dentro da escola!

Ah, não?? É só fazer uma pesquisa rápida na internet para encontrar milhares de exemplos. Então, esqueça os discursos e focalize em seus atos no seio da sociedade:

2 – Dentro das escolas públicas estão todos os cidadãos, de todas as crenças. Todas as crenças serão ensinadas? Não, impossível. E quem está tomando o poder político? Quem utiliza a pobreza e – desculpe-me a sinceridade – pobreza intelectual das pessoas para angariar cada vez mais fiéis que dão dízimos e votos?

3 – Que tipo de “professor” um prefeito como o crivella, por exemplo, colocará para ensinar “religião” nas escolas do Rio de Janeiro?

4 – Como ficam os alunos que não querem aquela aula de religião específica? [lembremos de nossos direitos constitucionais] Onde estarão eles? Largados pela escola? As escolas realmente respeitarão seus direitos de não querer?

5 – Quem serão os “professores” contratados? Formados em quê? Quem se disser “pastor” ou religioso de qualquer religião? Qual o currículo mínimo? Que tipo de formação? Que tipo de diploma? Que sabedorias deve ter? Cada religião tem sua formação específica, não? Eu posso, somente por me declarar “espírita”? Vou me candidatar a dar aulas de Espiritismo, pode ser?

Enfim, depois de tantas décadas livres desta abominação que é a união do Estado com a Religião, retrocedemos quase à Idade Média com uma série de medidas, culminada agora nesta imbecilidade do stf, da liberação do ensino religioso nas escolas.

Me faz pensar seriamente que o poder econômico dessas falsas igrejas neopentecostais estão “influenciando” as mentes e os bolsos dos magistrados.

Última reflexão: onde está a “religião de matriz africana” no google?

ensino religioso nas escolas

Abraços desolados,

Declev Reynier Dib-Ferreira