Isso não é arte!

Isso não é arte?? Quem é você pra dizer que algo é ou não é “arte”? A ninguém cabe dizer isso, porque a arte é indefinível como tal.

Diz o senso comum que arte é beleza, mas não é. Ou melhor, não precisa ser. Afinal, belo, bonito, feito, etc. são conceitos muito relativos. São subjetivos, isto é, depende do  sujeito que observa.

Se o artista apresenta como arte, arte é.

E a arte é feita não obrigatoriamente para se “apreciar” ou “contemplar”. A principal função da arte é questionar, abalar as estruturas, fazer as pessoas saírem da sua zona de conforto, perguntarem se isso é mesmo isso ou se aquilo é de fato aquilo.

Quantos conceitos arraigados não se fez abalar por conta da arte?

A prova disso é que muito do que hoje o senso comum acredita – ou tem certeza – de que é arte e é considerado belo, em suas épocas não eram.

Os impressionistas, quando quebraram os formatos fixos das pinturas, quando misturaram as cores, quando saíram do figurativo, foram execrados pelos especialistas e pelo mbl povo da época. Mas estavam à frente dos da sua época.

Duchamp quando colocou um mictório num pedestal dentro de um museu e disse “isso é arte”, fundiu a cabeça de muita gente. Muitos frotas especialistas devem ter se corroído. Coitados dos dadaístas, hoje seriam linchados.

Mas essa é a questão: quem diz que isso ou aquilo não pode ser arte? Qual o conceito de arte? Como dizer que o design de um carro não é arte, mas a pintura de um quadro retratando um carro é arte?

Por que o cachimbo pintado pelo Magritte é arte (“Ceci n’est pas une pipe”) e um próprio cachimbo não é? E se um cachimbo for feito à mão minuciosamente por um artesão, é arte? E se este mesmo artesão faz um cachimbo em formato de pênis com as bolas penduradas, seria arte pra você?

Como dizer que a pintura de um nu em uma tela é arte, mas um artista nu representando uma estátua grega não é arte?

Por que a pintura pueril de uma criança pode ser considerada arte – ou não – e uma pintura pueril de um adulto não pode ser considerada arte – ou pode?

Se um artista acha que enfiar uma vela acessa no ânus dele pode representar toda a opressão que a Igreja comete contra os homossexuais e te fazer pensar sobre isso, por que isso não seria considerado arte pra você e, ao mesmo tempo, um artista de circo apagar o fogo com sua boca seria arte circense?

Você pode não gostar, tem todo o direito de não gostar. Mas não pode dizer o que é ou não é arte.

Aliás, como eu disse, arte não é para “gostar”. Mas pode gostar. Pode não gostar. Isso não importa. Ela existe e é.

Você não precisa ir a museus ou parar em frente a uma performance. Aliás, se você pensa que “isso não é arte”, provavelmente você não vai mesmo a museus. Continue não indo. É simples.

O que você não pode é querer que os outros não tenham o direito de ver, de gostar e de não gostar por si mesmos.

Ah, e o nu está na arte desde sempre.

Abraços,

Declev Reynier Dib Ferreira

3 comentários sobre “Isso não é arte!

  1. Começarei dizendo “QUEM SOU EU”, para poder dizer se algo é ou não é arte:
    Meu nome é Artur Cimirro, e normalmente para não parecer arrogante me defino como compositor e pianista, mas na verdade sou compositor, pianista, pesquisador, historiador, filósofo e crítico de arte – http://www.arturcimirro.com.br

    E resolvo escrever porque este artigo é de uma falácia sem igual.
    Primeiro: Arte não é “indefinível”.
    Temos definições de arte desde os tempos Gregos, e obviamente a arte passou por evoluções históricas bem como suas definições.
    Mas NÃO é uma definição correta de arte: “qualquer coisa feita por qualquer patife que se autoproclame artista com intenções hediondas”.
    Infelizmente os pseudo-artistas que são defendidos por artigos como este (independente da intenção do autor) demostram total desconhecimento da história da própria arte que professam, e acabam se dedicando a um sub-produto oriundo de uma sub-cultura defendida e propagada pelas mídas ignorantes como sendo “Arte”.

    Sobre a frase:
    “Quantos conceitos arraigados não se fez abalar por conta da arte?”
    Adoraria que tivessem sido mencionados tais conceitos que foram abalados. Porque em geral os verdadeiros artistas foram muitas vezes levados a fazer uma “obra revolucionária” devido ao fato de estarem em contato e/ou estudando a filosofia de algum pensador (seu contemporâneo ou não).
    Então antes da arte, houve um filósofo. E filosofia, com toda sua história e evolução, passa longe das atuais demonstrações pseudo-artísticas que tantos querem justificar.

    E sim, com o modernismo tivemos também o movimento dadaísta que apenas se justificou pelo fato de estar inserido em um contexto.

    Concordo que a arte não precisa ser “bela”, até mesmo porque o conceito de beleza varia muito para cada ser. Aquele velho “gosto não se discute”. Então o que é belo para mim, não é necessáriamente belo para outros. Assim sendo, não podemos usar como um medidor de arte. O Gosto é um inimigo da arte.
    Agora, sobre sua menção à um possível cachimbo “fálico”, não vejo motivos para classificar como arte uma vez que qualquer sex-shop possui materiais bem mais funcionais para as intenções de quem faz uso deste tipo de objeto – e a despeito de qualquer taboo religioso eu pouco me importo com o a sexualidade alheia, em nada me incomoda o que cada um goste de fazer – porém, em arte, a excessiva demonstração de alguma orientação sexual no máximo se mostra como uma perturbação psiquicas de um artista que não soube separar suas criações de alguma dependência, perversão ou fetiche.

    Dizer que a principal função da arte é “questionar, abalar as estruturas, fazer as pessoas saírem da sua zona de conforto”, é negar qualquer conhecimento de filosofia.
    O ser que pensa, filosofa, e nesta condição questiona, abala estruturas e sai de zonas de conforto.
    A Arte em si não tem este papel. Pode-se obviamente unir filosofia com arte, assim como pode-se unir música e poesia para fazer uma canção. Mas para tanto é necessário o estudo tanto da filosofia quanto da arte, é necerrário um ARTISTA E FILÓSOFO (coisa rara), sendo que, obviamente, alguém que estude profundamente ambas e possa responder (assim como eu estou fazendo aqui) vai notar que não há qualquer estudo filosófico que justifique as “velas anais”, o “homem nú para manipulação infantil” e a “apologia à pedofilia em pinturas sem técnica”.

    A propósito, o fato de Duchamp dizer que um urinol era arte, e isso ainda ser “engrandecido” por uns, só faz dele e de seus seguidores perversos protetores do charlatanismo em arte. Afinal o fato de um artista ter técnicas e fazer bons trabalhos, não garante que ele será sempre filosoficamente bem orientado para que nunca faça coisas mal feitas ou mesmo abomináveis – Hitler, por exemplo, era pintor e tinha técnica… Artistas não são deuses!

    – Sobre as questões:
    Quem diz que isso ou aquilo não pode ser arte?
    Um artista sério – qualquer um que realmente “estude profundamente” – e não alguém que apenas se autoproclame “artista” ou que seja um fantoche protegido por motivos espúrios pelas mídias de massa.

    – Qual o conceito de arte?
    Arte é um conjunto de técnicas empregadas para se criar algo.
    Sejam tecnicas sonoras – para a música
    Sejam tecnicas de expressão e fala – para um ator.
    Sejam técnicas de cocção – para culinária.
    Sejam técnicas para se fazer um grande museu – para arquitetura.
    E só é “artista” de fato quem sabe empregar tais técnicas. Então este monte de “macacos treinados” que temos nas mídias, nada mais são do que meros papagaios da arte, e não artistas.

    Sobre a questão:
    – Como dizer que o design de um carro não é arte, mas a pintura de um quadro retratando um carro é arte?
    Ambos são arte.

    Sobre a questão:
    – Como dizer que a pintura de um nu em uma tela é arte, mas um artista nu representando uma estátua grega não é arte?
    A pintura foi feita por um artista com técnicas artísticas.
    Ficar nu, qualquer um fica, e além disso, o ser humano, por mais racional que seja, é um animal. E assim sendo possui instintos e tais “exposições” podem gerar problemas psicológicos em crianças que talvez nunca mais serão sanados.
    Então sim, tudo no mundo, inclusive a arte, tem que entender que certos limites não são justificáveis de se ultrapassar independente do discurso utilizado.

    Num país completamente ignorante como Brasil, os museus deveriam ter um papel educacional muito mais imponente do que o fiasco que temos aqui. Os projetos que eles fazem sempre tem ótimos argumentos para justificarem “gastos”. No entanto, o maior problema é que a ignorãncia impera entre os famosos “curadores” e “organizadores”, que se especializam em “conceitualizar” e não em conhecer e propagar arte.

    Sim, o nú esta na arte desde sempre, e crianças não são levadas a museus para “tocarem” em pinturas onde aparecem pessoas nuas, nem se vê pessoas sãs “alisando” a estátua de Davi.

    Finalizo dizendo que, em geral, ao lidar com arte, eu não me importo com o gosto público por saber que o mesmo é levado a apreciar apenas o que tem acesso. E a mídia não oferece acesso à arte de qualidade hoje (incluindo as ditas TVs “especializadas” em arte, que nada mais fazem que divulgar material de uma máfia da pseudo-arte) as raras exceções que ocorrem são completamente inúteis para a introdução do leigo às artes.
    Como exemplo menciono algo que ocorre frequentemente: Não é com a execução de uma Sinfonia de Mahler com uma hora de duração que se faz um público leigo gostar de música clássica – não importa o quanto se justifique a importãncia da obra. Deveria-se começar com obras curtas, miniaturas, coisas que raramente o público imagina que existe mas que existe em abundância – Também não é com um arranjo sobre Adoniram Barbosa ou uma Valsa detrupada pelo Andre Rieu que se divulga cultura, mas isso é uma outra história…
    E apesar do meu “pouco importar” com a opiniao pública, neste caso tenho todos motivos técnicos para achar ótimo que tais aberrações não sejam bem recebidas nem propagadas.

    Por fim, eu posso dizer, sem medo, sem preconceitos e sem taboos religiosos:
    ISSO NÃO É ARTE!

    Artur Cimirro
    24/10/2017
    P.S.: Por via das dúvidas, posto minha resposta e também seu artigo integralmente no site http://www.opusdissonus.com.br/arte.htm

    • Oi Artur, obrigado pelo comentário e pela segunda opinião. Independente de toda a sua formação e experiência, com certeza há pessoas que têm provavelmente formação e experiências similares, mas que discordam de você e pensam diferente (Não é o meu caso, não as tenho). Desta forma podemos perceber que, sim, a arte é inclassificável – como sendo ou não arte, o que é ou não, se é válido ou não – visto a dificuldade de chegar a um consenso.

      • Olá Declev,

        Essa dificuldade de concenso que você menciona não existe entre quem estuda profundamente a arte. Existe sim entre subgrupos que são normalmente classificados como “conceitualistas” e utilizam do termo “arte” como meio de vida.
        Nada tenho contra o conceitualismo, que pode inclusive ser unido à qualquer arte.

        No entanto por mais que os conceitualistas se esforcem em mudar os dicionários e toda história que temos, e que ainda estamos criando, não são eles que definem arte.

        Arte como sendo “um conjunto de técnicas empregadas para se criar algo” só pode ser refutado por um ignorante, jamais por alguém com a mesma formação e experiência que eu tenho como profissional da área. E a desinformação que leva ao seu comentário é fruto do meio que o Brasil vive, não é uma culpa sua, mas insistir nela é uma decisão que será somente sua.

        Temos sim as tentativas arrogantes da mídia e de muitos outros em deturpar conceitos para justificar o patrocínio e a divulgação de muita gente incompetente que se diz artista, num meio onde apenas o aberrativo tem voz.

        Assim como um médico pode falar de medicina com propriedade, um artista pode falar de arte com propriedade, no entanto existe charlatanismo em ambos casos e raramente eles são percebidos.

        Vale ainda falar que, não é a “minha opinião”, isso é a definição mínima de arte. Um médico pode dizer que medicina é religião, nem por isso tal frase vira uma verdade e desqualifica ou põe o mesmo em pé de igualdade com outro que defina medicina como ela de fato é.

        Apesar do incômodo que meu tipo de resposta pode gerar, devido ao tom sério, sugiro que reflita, afinal o papel do educador é também um eterno apreender e em nada isso lhe tiraria qualquer valor ou moral.

        Artur Cimirro

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