Sobre binóculos e lupas
Talvez tenhamos que nos ater mais aos detalhes, às pequenas coisas e, para isso, tenhamos que saber observar melhor.
Enxergamos o mundo com olhos de humanos, mas deveríamos observar com os instrumentos adequados às situações.
Determinadas vezes, olhar com binóculos, outras com lupas.
Ao enxergar uma turma com olhos de humanos vemos uma massa homogênea, um bando de gente. São bagunceiros; são quietos; são bons; são maus; são bons estudantes…
São?
Quem são?
Devemos, neste caso, estar sempre com o binóculo a postos, preparado para uso. Enxergar um aluno mais de perto, estando longe.
Quem é; onde vive; com quem mora; tem família; pai; mãe; irmãos; vive com os avós; padrasto; tem atividades externas; fez pré-escola; está namorando?…
E, ao mesmo tempo, devemos estar sempre com a lupa, para observar os alunos bem de perto, lá dentro, mas ao lado dele.
O que ele quer; quais suas aspirações; tem medo; tem coragem; o que gosta; o que tem facilidade; por que não aprende; o que quer para o futuro; por que faz o que faz; como se vê; por que se vê deste jeito?
Sem esses “aparelhos”, sem essas observações, não vemos o outro. Apenas vemos nós neles.
E, como são todos diferentes de nós, não os entendemos.
Se não os entendemos, não os atingimos, não os ajudamos e não os educamos.
09/07/2008 5 Comentários
A importância da educação familiar: como atuar na raiz do problema escolar
Acho que estão confundindo as coisas.
Pensam hoje que a escola e os professores são os salvadores desta sociedade decadente. Que irão educar as crianças para serem os cidadãos do futuro.
Será que não estão colocando muitas obrigações na escola? E será que a forma de enfrentarmos a situação não está errada? (pergunta sem sentido, visto saber-se a resposta).
Sim, está errada. (viu?)
Mesmo que a escola tenha este ‘poder’ e obrigação, a forma de atingir os objetivos está errada.
Quem já leu meu post sobre a metodologia de construção de projetos denominada “árvore de problemas x árvore de objetivos“, percebeu por onde devemos começar a atuar para a solução de um problema: pela raiz.
“O Mal se corta pela raiz”, diz o esquecido e desprestigiado ditado popular.
E quem tem experiência em escola sabe que, em geral (pois sempre há exceções), aqueles alunos-problema são justamente aqueles que tem uma “família-problema”.
São aqueles que os responsáveis são irresponsáveis; que os responsáveis são ausentes; que não têm em casa nada mais do que trabalho forçado, surras, molestações, brigas; aqueles que você sabe que se chamar a mãe virá uma pessoa 10 vezes pior do que o próprio filho…
Então, o que tenta fazer a escola? Dar jeito no filho (na árvore), quando se sabe que o problema está na família (na raiz).
E o que se faz com os responsáveis? São chamados para ouvirem diversas pessoas falarem como seu filho é mal-educado, como é brigão, como é desrespeitoso, como não faz nada em sala, como vai mal na escola… Então, adivinhem… os pais dos piores não vão! - ou ao menos não voltam.
Tenho a idéia de uma escola diferente (novidade, né?).
Pra mim, a escola deveria ser permanentemente aberta para os responsáveis. Deveria ser uma “escola de pais”. Mais do que tentar ensinar os filhos, sem sucesso, deveríamos ensinar os responsáveis a sê-los.
Quantas vezes os ouvimos dizer “eu não sei mais o que fazer!”; “eu já tentei de tudo!”, “esse menino não tem mais jeito!”; “só se eu der uma surra!”, entre outras frases mais desesperadas do que as nossas?
Sabemos que o ciclo está cada vez mais curto: a criança que passa por nós com resultado pífio terá uma criança antes mesmo de deixar de ser criança. E que condições terá (com a família que tem) de ser uma boa mãe, de ser um bom pai?
Como saberá ajudar seu filho a ser um bom aluno se ele mesmo não o foi?
O que pode fazer a escola?
Para mim, a escola deve ter um processo paralelo permanente de “formação continuada” para responsáveis.
Cursos e palestras ininterruptos, em todos os dias e horários possíveis, sobre
“como ser uma boa mãe e um bom pai”,
“como ajudar seu filho nos estudos”,
“o que fazer para que seu filho seja uma pessoa melhor”,
“qual a importância do que se ensina na escola”,
“caminhos a serem trilhados para o futuro do seu filho”,
entre dezenas de outros exemplos que eu poderia dar.
E assim que chegasse, eles deveriam ser tratados como quem nos paga, com respeito, não como o pai ou a mãe que pôs no mundo aquele ser que me tira do sério:
Ficha de inscrição no curso ou palestra,
lista de presença,
cafezinho com biscoito,
certificado de participação,
Festa de formatura no final do ano para aqueles que participaram - independente da carga horária,
Cartilha ou outro material didático de cada curso ou palestra,
Material didático para anotações,
Recursos audiovisuais interessantes (data-show, devedês),
Dinâmicas de grupo,
Grupos de autoajuda no estilo “Responsáveis Anônimos”, quando cada um poderia trocar sua experiência com os outros - experiências exitosas para problemas que acham insolúveis.
É isso.
“Escola de responsáveis”.
Estes podem entrar e sair, observar as aulas, conversar com os professores, assistir aulas com o filho.
E paralelamente a isso, daríamos aulas às crianças.
17/06/2008 7 Comentários
Quantos talentos deixaremos escapar pelos nossos dedos?
Acabei de assistir a um filme (”Ela dança, eu danço”) sobre a história de um rapaz do subúrbio americano com talento pra dança.
Ele e um amigo que tem um irmão menor só fazem merda, roubam carros, quebram coisas.
Entram numa escola de dança e depredaram.
O segurança o pega (os outros escapam) e ele tem que cumprir 200 horas de serviços comunitários no local do delito, ou seja, na escola de dança.
O rapaz tem talento pra dança, o que já se mostrou no filme, nos bailes do bairro.
Ele acaba ajudando uma moça, a mocinha, a ensaiar para sua prova final, visto que seu parceiro se machucou.
O filme se passa com as idas e vindas típicas de uma película como essa, entre elas os tapanacaras que a vida dá em muita gente - neste caso a morte do irmão menor do amigo, que eles mesmos ensinaram a fazer muita besteira, quando roubou o carro de um bandido, sem saber que era.
No final do fime - com final feliz, como eu gosto - ele e a mocinha dançam na final, ele é aceito na escola como aluno, ela é aceita numa escola de dança, blá blá blá.
Fico pensando… (ô peste esse, o pensamento!)…
Quantos talentos deixaremos escapar para as merdas da vida?, para as mortes prematuras?, para o tráfico? (ninguém tem “talento” pra isso!).
Quantos passarão por nós e não veremos? Quantos talentos serão desperdiçados, e com eles a vida de quem o tem?
No filme ele só foi “descoberto” por uma sucessão de acasos.
Por que a escola não tem um olhar atento e um trabalho profundo nos talentos?
A escola deveria ser, mais que uma fábrica de bonecos iguais em série, um local de aprofundamentos das diferenças: quem sabe desenhar, dançar, escrever, atuar, jogar etc.ar, deveria ser estimulado a tal.
Simples.
08/06/2008 5 Comentários
Pequena descrição de uma aula de ciências de um professor frustrado e alunos desinteressados…
Escrevi isso em sala de aula…
Destranco a porta, abro o cadeado e entro na sala de ciências - onde vendo aulas - seguido dos alunos. Uns sentam, outros ligam o ventilador.
Uns não entraram em sala, perambulando e gazeteando pela escola.
Um grupo de 4 ou 5 vão ao terrário onde está um casulo se emborboletando e uma lagartixa. Batem no vidro. Chamo àtenção. Raspam a unha no isopor que está no fundo do aquário, depedaçando-o. Brigo.
Um grupo de meninas senta numa mesa (nas cadeiras!) no centro da sala e elas fazem tranças de cabelo a aula inteira, com fios coloridos.
Uns 10 ficam conversando.
Um aluno abre a janela (em forma de basculante), coloca a boca na fresta e grita para algum aluno na outra sala.
Um pede uma revista para ler. Eu deixo. 2,5 minutos depois ele está com a revista enrolada em megafone gritando coisas, cantando fanque.
5 alunos estão fazendo o trabalho proposto, continuidade das aulas anteriores. Não preciso mandar fazer, pois eles sabem - ou deveriam…
Consigo, entre os sons emitidos por todos, fazer a chamada. Lá se vai mais da metade da aula.
Me mexo passando de mesa em mesa. Alguns poucos, ao me ver ao lado da mesa, começam a trabalhar, ou fingem que o fazem. Vão abrindo as mochilas como uma tartaruga com preguiça.
Outros nem assim.
As que estavam fazendo trancinhas nos cabelos com fios coloridos, agora estão fazendo trancinhas nos cabelos com fios coloridos.
Bate o sinal, todos gritam êêêêêêêêêêê e saem.
A vontade que eu tenho é de desistir. O sentimento é de total frustração e depressão.
Definitivamente, a educação se dá - claro que para além do esforço, dedicação e trabalho de cada um - pela interação entre quemaprende-quemensina. E esta interação fica impossível com turmas com muita gente.
Não estou falando nem de 40, 50 ou 60 pessoas. Neste exato momento tenho 25 alunos em sala; muitos faltaram.
Mas a absoluta falta de interesse deles aliada ao meus sentimentos de frustração e depressão, o que se desdobra em auto-falta de interesse em tentar interessar quem não tem interesse, monta uma cena trágica: a escola como depósito de gente.
07/06/2008 4 Comentários
O que a profissão faz com a gente: confissões de um professor e seus traumas
Percebi-me hoje altamente intolerante. Na verdade, não é só de hoje que percebo isso, mas a reflexão interna veio agora.
Fico neuvôso só de ver alunos de uniforme nas ruas…
É sério. Não ria!
Estava no ponto de ônibus, de manhã, de mau humor por tudo, quando parou, do outro lado da rua, um ônibus de excursão com crianças na janela, que já vieram com ele em movimento falando com as pessoas na rua.
“Eiiiii, oÍÍÍÍÍÍ !!!”… As mãos dando tchau.
Não estavam mexendo de forma ofensiva nem nada. Mas antes mesmo do ônibus parar, já entreouvindo aquelas vozes infanto-juvenis gritando, em milésimos de segundo minha mente já elocubrou: “lá vem um ônibus cheio de alunospestestraumatizantesmexendocomtodos!”.
Quando ele veio parando, do outro lado da rua - portanto na direção oposta para onde eu estava olhando - dei uma espiada de rabo de olho e vi a cena dantesca: um ônibus de turismo se aproximando, cheio de traumas crianças com as cabeças nas janelas, acenando e gritando aos transeuntes e paradeuntes.
Um destes infelizes era eu.
Virei o olhar, antevendo o inevitável, comecei a ler meu jornal, fingindo que nem vibravam meus tímpanos.
“Ei, você!”.
Devia ser pra mim…
“Ei, você lendo jornal!”.
Sim, definitivamente, era pra mim!!!
Pose de intelectual surdo.
“Ei bonitão!” (isso fica pela minha licença poética…).
Eu nem aí, já quase suando frio porque o sinal fdp não abria.
Pára um ônibus no ponto onde eu estava, entre mim e eles. Vou me escondendo, aliviado.
Enquanto o ônibus-tapume estava lá, vi um senhor acendando a eles, tímido, educadamente, ao ser convidado a tal. Certamente não é professor…
Chego mais pra trás, na esperaça de que se distraiam com outros e me esqueçam. Quimera…
Quando meu biombo ambulante ambula, tornam a mim, mas com menos ênfase. A mesma pose de intelectual lendo jornal, alheio a tudo, absorto nas catástrofes diárias.
Por sorte chega o meu e subo aliviado…
Chego à conclusão, óbvia, de que aturar todas aqueles adolescentes em plena ebulição hormonal tá me traumatizando.
E eu ainda nem tive filhos!
04/06/2008 4 Comentários
Docência profissão frustração
Desculpe o desabafo, mas é muito frustrante dar aulas. Se acaso há migalhas de recompensas, na maioria das vezes é frustrante.
Parece que fazemos algo diariamente para não ver resultados.
Acho que um profissional enxugador de gelo vê mais resultados em seu trabalho.
Na docência você trabalha, trabalha, trabalha… fala, ensina, promove, diz, mostra, encaminha, dita, proclama, dá, oferece, puxa a orelha, manda, grita, conversa mas parece que nada adianta. Aliás, nada adianta realmente, se o seu interlocutor, o docente, não quiser.
E, meus amigues, o que os alunes menos querem hoje em dia, é aprender!
Aprender pra quê? Ou, antes, o que é aprender? Pra que serve?
Hoje na escola em que eu sofro trabalho, mais um dia sui generismente igual: sumiu a chave da sala de informática da mesa da cordenadora quando estavam lá alguns alunos.
26/05/2008 7 Comentários
Mãe Árvore - um pouco de poesia…
Estava mexendo no meu outro saite, o http://hebdomadario.com, onde cometo o crime de publicar meus escritos poéticos e estéticos, e deparei-me com esta poesia, que transcrevo abaixo.
Toda vez que a leio me emociono, pois fala de lembranças muito boas que me vêm através das árvores da minha vida.
Esta é uma poesia-prosa, mais ou menos grande, mas modéstia à parte, muito bonita. É uma das que eu mais gosto. Alguns amigues já conhecem, pois… hãm hãm… tirou primeiro lugar num concurso nacional (devia ter só uns dois ou três inscritos…).
E é também uma homenagem às mulheres, especialmente às mães.
Coloco-a aqui, pois acho que tem poeticamente a ver com o momento atual, desmatamento, essas coisas…
EU QUERO MINHAS ÁRVORES DE VOLTA!!!
É o que eu quero gritar quando a leio.
Divirtam-se:
20/05/2008 3 Comentários
Roleta-Russa no cotidiano urbano
São tantas e tantas coisas que passam pela minha cabeça que me imobilizam.
Penso tanto que às vezes não faço nada.
As milhares de perguntas que me assolam ficam sem resposta, apesar deu me esforçar por encontrá-las.
Hoje estou vivo, mas vivo num estado de quase morte, visto que saímos, mas não sabemos se voltamos.
Saí de casa hoje para ir à casa do meu pai, vó, tia e primos (sim, tem bastante gente morando lá).
Pego o ônibus - como sabem, não dirijo - e sento no único local disponível, ao lado de um senhor insuspeito.
18/05/2008 5 Comentários