Informações Docentes, Discentes e Decentes
por Declev Reynier Dib-Ferreira
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Sobre binóculos e lupas

Talvez tenhamos que nos ater mais aos detalhes, às pequenas coisas e, para isso, tenhamos que saber observar melhor.

Enxergamos o mundo com olhos de humanos, mas deveríamos observar com os instrumentos adequados às situações.

Determinadas vezes, olhar com binóculos, outras com lupas.

Ao enxergar uma turma com olhos de humanos vemos uma massa homogênea, um bando de gente. São bagunceiros; são quietos; são bons; são maus; são bons estudantes…

São?

Quem são?

Devemos, neste caso, estar sempre com o binóculo a postos, preparado para uso. Enxergar um aluno mais de perto, estando longe.

Quem é; onde vive; com quem mora; tem família; pai; mãe; irmãos; vive com os avós; padrasto; tem atividades externas; fez pré-escola; está namorando?…

E, ao mesmo tempo, devemos estar sempre com a lupa, para observar os alunos bem de perto, lá dentro, mas ao lado dele.

O que ele quer; quais suas aspirações; tem medo; tem coragem; o que gosta; o que tem facilidade; por que não aprende; o que quer para o futuro; por que faz o que faz; como se vê; por que se vê deste jeito?

Sem esses “aparelhos”, sem essas observações, não vemos o outro. Apenas vemos nós neles.

E, como são todos diferentes de nós, não os entendemos.

Se não os entendemos, não os atingimos, não os ajudamos e não os educamos.

09/07/2008   5 Comentários

A importância da educação familiar: como atuar na raiz do problema escolar

Acho que estão confundindo as coisas.

Pensam hoje que a escola e os professores são os salvadores desta sociedade decadente. Que irão educar as crianças para serem os cidadãos do futuro.

Será que não estão colocando muitas obrigações na escola? E será que a forma de enfrentarmos a situação não está errada? (pergunta sem sentido, visto saber-se a resposta).

Sim, está errada. (viu?)

Mesmo que a escola tenha este ‘poder’ e obrigação, a forma de atingir os objetivos está errada.

Quem já leu meu post sobre a metodologia de construção de projetos denominada “árvore de problemas x árvore de objetivos“, percebeu por onde devemos começar a atuar para a solução de um problema: pela raiz.

“O Mal se corta pela raiz”, diz o esquecido e desprestigiado ditado popular.

E quem tem experiência em escola sabe que, em geral (pois sempre há exceções), aqueles alunos-problema são justamente aqueles que tem uma “família-problema”.

São aqueles que os responsáveis são irresponsáveis; que os responsáveis são ausentes; que não têm em casa nada mais do que trabalho forçado, surras, molestações, brigas; aqueles que você sabe que se chamar a mãe virá uma pessoa 10 vezes pior do que o próprio filho…

Então, o que tenta fazer a escola? Dar jeito no filho (na árvore), quando se sabe que o problema está na família (na raiz).

E o que se faz com os responsáveis? São chamados para ouvirem diversas pessoas falarem como seu filho é mal-educado, como é brigão, como é desrespeitoso, como não faz nada em sala, como vai mal na escola… Então, adivinhem… os pais dos piores não vão! - ou ao menos não voltam.

Tenho a idéia de uma escola diferente (novidade, né?).

Pra mim, a escola deveria ser permanentemente aberta para os responsáveis. Deveria ser uma “escola de pais”. Mais do que tentar ensinar os filhos, sem sucesso, deveríamos ensinar os responsáveis a sê-los.

Quantas vezes os ouvimos dizer “eu não sei mais o que fazer!”; “eu já tentei de tudo!”, “esse menino não tem mais jeito!”; “só se eu der uma surra!”, entre outras frases mais desesperadas do que as nossas?

Sabemos que o ciclo está cada vez mais curto: a criança que passa por nós com resultado pífio terá uma criança antes mesmo de deixar de ser criança. E que condições terá (com a família que tem) de ser uma boa mãe, de ser um bom pai?

Como saberá ajudar seu filho a ser um bom aluno se ele mesmo não o foi?

O que pode fazer a escola?

Para mim, a escola deve ter um processo paralelo permanente de “formação continuada” para responsáveis.

Cursos e palestras ininterruptos, em todos os dias e horários possíveis, sobre

“como ser uma boa mãe e um bom pai”,

“como ajudar seu filho nos estudos”,

“o que fazer para que seu filho seja uma pessoa melhor”,

“qual a importância do que se ensina na escola”,

“caminhos a serem trilhados para o futuro do seu filho”,

entre dezenas de outros exemplos que eu poderia dar.

E assim que chegasse, eles deveriam ser tratados como quem nos paga, com respeito, não como o pai ou a mãe que pôs no mundo aquele ser que me tira do sério:

Ficha de inscrição no curso ou palestra,

lista de presença,

cafezinho com biscoito,

certificado de participação,

Festa de formatura no final do ano para aqueles que participaram - independente da carga horária,

Cartilha ou outro material didático de cada curso ou palestra,

Material didático para anotações,

Recursos audiovisuais interessantes (data-show, devedês),

Dinâmicas de grupo,

Grupos de autoajuda no estilo “Responsáveis Anônimos”, quando cada um poderia trocar sua experiência com os outros - experiências exitosas para problemas que acham insolúveis.

É isso.

“Escola de responsáveis”.

Estes podem entrar e sair, observar as aulas, conversar com os professores, assistir aulas com o filho.

E paralelamente a isso, daríamos aulas às crianças.

17/06/2008   9 Comentários

Pequena descrição de uma aula de ciências de um professor frustrado e alunos desinteressados…

Escrevi isso em sala de aula…

Destranco a porta, abro o cadeado e entro na sala de ciências - onde vendo aulas - seguido dos alunos. Uns sentam, outros ligam o ventilador.

Uns não entraram em sala, perambulando e gazeteando pela escola.

Um grupo de 4 ou 5 vão ao terrário onde está um casulo se emborboletando e uma lagartixa. Batem no vidro. Chamo àtenção. Raspam a unha no isopor que está no fundo do aquário, depedaçando-o. Brigo.

Um grupo de meninas senta numa mesa (nas cadeiras!) no centro da sala e elas fazem tranças de cabelo a aula inteira, com fios coloridos.

Uns 10 ficam conversando.

Um aluno abre a janela (em forma de basculante), coloca a boca na fresta e grita para algum aluno na outra sala.

Um pede uma revista para ler. Eu deixo. 2,5 minutos depois ele está com a revista enrolada em megafone gritando coisas, cantando fanque.

5 alunos estão fazendo o trabalho proposto, continuidade das aulas anteriores. Não preciso mandar fazer, pois eles sabem - ou deveriam…

Consigo, entre os sons emitidos por todos, fazer a chamada. Lá se vai mais da metade da aula.

Me mexo passando de mesa em mesa. Alguns poucos, ao me ver ao lado da mesa, começam a trabalhar, ou fingem que o fazem. Vão abrindo as mochilas como uma tartaruga com preguiça.

Outros nem assim.

As que estavam fazendo trancinhas nos cabelos com fios coloridos, agora estão fazendo trancinhas nos cabelos com fios coloridos.

Bate o sinal, todos gritam êêêêêêêêêêê e saem.

A vontade que eu tenho é de desistir. O sentimento é de total frustração e depressão.

Definitivamente, a educação se dá - claro que para além do esforço, dedicação e trabalho de cada um - pela interação entre quemaprende-quemensina. E esta interação fica impossível com turmas com muita gente.

Não estou falando nem de 40, 50 ou 60 pessoas. Neste exato momento tenho 25 alunos em sala; muitos faltaram.

Mas a absoluta falta de interesse deles aliada ao meus sentimentos de frustração e depressão, o que se desdobra em auto-falta de interesse em tentar interessar quem não tem interesse, monta uma cena trágica: a escola como depósito de gente.

07/06/2008   4 Comentários

O que a profissão faz com a gente: confissões de um professor e seus traumas

Percebi-me hoje altamente intolerante. Na verdade, não é só de hoje que percebo isso, mas a reflexão interna veio agora.

Fico neuvôso só de ver alunos de uniforme nas ruas…

É sério. Não ria!

Estava no ponto de ônibus, de manhã, de mau humor por tudo, quando parou, do outro lado da rua, um ônibus de excursão com crianças na janela, que já vieram com ele em movimento falando com as pessoas na rua.

Eiiiii, oÍÍÍÍÍÍ !!!”… As mãos dando tchau.

Não estavam mexendo de forma ofensiva nem nada. Mas antes mesmo do ônibus parar, já entreouvindo aquelas vozes infanto-juvenis gritando, em milésimos de segundo minha mente já elocubrou: “lá vem um ônibus cheio de alunospestestraumatizantesmexendocomtodos!”.

Quando ele veio parando, do outro lado da rua - portanto na direção oposta para onde eu estava olhando - dei uma espiada de rabo de olho e vi a cena dantesca: um ônibus de turismo se aproximando, cheio de traumas crianças com as cabeças nas janelas, acenando e gritando aos transeuntes e paradeuntes.

Um destes infelizes era eu.

Virei o olhar, antevendo o inevitável, comecei a ler meu jornal, fingindo que nem vibravam meus tímpanos.

“Ei, você!”.

Devia ser pra mim…

“Ei, você lendo jornal!”.

Sim, definitivamente, era pra mim!!!

Pose de intelectual surdo.

“Ei bonitão!” (isso fica pela minha licença poética…).

Eu nem aí, já quase suando frio porque o sinal fdp não abria.

Pára um ônibus no ponto onde eu estava, entre mim e eles. Vou me escondendo, aliviado.

Enquanto o ônibus-tapume estava lá, vi um senhor acendando a eles, tímido, educadamente, ao ser convidado a tal. Certamente não é professor…

Chego mais pra trás, na esperaça de que se distraiam com outros e me esqueçam. Quimera…

Quando meu biombo ambulante ambula, tornam a mim, mas com menos ênfase. A mesma pose de intelectual lendo jornal, alheio a tudo, absorto nas catástrofes diárias.

Por sorte chega o meu e subo aliviado…

Chego à conclusão, óbvia, de que aturar todas aqueles adolescentes em plena ebulição hormonal tá me traumatizando.

E eu ainda nem tive filhos! 

04/06/2008   4 Comentários

Docência profissão frustração

Desculpe o desabafo, mas é muito frustrante dar aulas. Se acaso há migalhas de recompensas, na maioria das vezes é frustrante.

Parece que fazemos algo diariamente para não ver resultados.

Acho que um profissional enxugador de gelo vê mais resultados em seu trabalho.

Na docência você trabalha, trabalha, trabalha… fala, ensina, promove, diz, mostra, encaminha, dita, proclama, dá, oferece, puxa a orelha, manda, grita, conversa mas parece que nada adianta. Aliás, nada adianta realmente, se o seu interlocutor, o docente, não quiser.

E, meus amigues, o que os alunes menos querem hoje em dia, é aprender!

Aprender pra quê? Ou, antes, o que é aprender? Pra que serve?

Hoje na escola em que eu sofro trabalho, mais um dia sui generismente igual: sumiu a chave da sala de informática da mesa da cordenadora quando estavam lá alguns alunos.

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26/05/2008   7 Comentários

Reflexões sobre os problemas da escola brasileira e a busca de soluções

Bom gentes, todos conhecem a escola em que trabalho, certo? (Mas quem não conhece e quiser saber, veja, por exemplo, este artigo, mais este e este outro).

Pois é. Posso listar uma série de fatos que a fazem o que é - e sei que muitas e muitas são o que são por motivos parecidos:

a) localizada dentro de um bairro perigoso, acuado pelo tráfico e sem a infraestrutura de lazer ou urbanização dos bairros de classe média;

b) com salas de aula lotadas (30, 35 ou 40 alunos);

c) com alunos sem base familiar que possa ajudar, de alguma forma, na sua educação escolar;

d) com falta de professores;

e) sem equipe técnico-pedagógica, contando apenas com uma coordenadora - hoje, porque ficamos dois anos sem;

f) com salas de aula barulhentas e quentes - sem ar-condicionado, com ventiladores barulhentos, dando de frente para uma rua com intenso fluxo de caminhões;

g) com falta de inspetores para dar conta dos corredores -  o que tem não dá;

h) com intensa movimentação de alunos nos corredores;

i) que sofre com depredações diversas de portas, ventiladores, banheiros, etc.;

j) pela qual a maioria dos alunos não consegue aprender o mínimo - ler e escrever decentemente;

l) onde os alunos adoram ir, mas detestam assistir aulas;

m) onde há ótimos professores, mas também os problemáticos, que não ajudam na melhora - por má vontade ou mesmo por incapacidade;

n) onde os professores não têm tempo livre e pouco se encontram para programarem e planejarem sua prática conjunta;

o) na qual a relação diretoria corpo docente não seria a melhor do mundo.

E por aí vai. Poderíamos chegar a “z(n)”.

Mas eu sou inquieto.

Sou teimoso que nem mula empacada.

E gostaria de desempacar esta educação capenga.

Além de tudo o que sofro fazer, como já mostrei aqui (veja exemplo e exemplo), começo a tentar um movimento de mudança; mais por minha própria sobrevivência, confesso o egocentrismo, pois realmente não aguentava mais [não] dar aulas naquele inferno.

Uma das coisas que tenho feito, podem me criticar à vontade, é dividir a turma e dar duas aulas diferentes.

Um grupo deixo trabalhando na sala de ciências com uma proposta de pesquisa e trabalho em grupo. Deixo-os lá e vou de vez em quando retirar dúvidas e ver o andamento das pesquisas.

Lá este grupo tem à disposiçao livros, revistas, aquários, materiais de artes (lápis de cor, hidrocor, réguas, cola, cartolinas, etc.), etc.; ou seja, tudo o que tem na sala.

É claro que eu deixo lá aqueles que eu sei - ou que eu acho - que posso confiar. Aqueles que se eu deixar fazendo uma pesquisa, com toda a dificuldade que têm, vão fazer.

E na sala mais esvaziada fico com os outros, trabalhando com o livro didático. Passo exercícios, cópias no quadro, leio o livro com eles, respondo os exercícios junto, etc.

Está funcionando! Eureca! Com dois lugares com menos alunos, consigo dar aulas!

E não me venham com o pedagogês de “mas você está fazendo uma separação dos bons e dos ruins”, “você pode traumatizar as crianças” e blá blá blá! TRaumatizado estava eu!

SIM! Estou separando! E fazendo isso, consigo desenvolver trabalhos específicos para cada grupo! Consigo ver quem tem dificuldades nisso ou naquilo. Consigo separar os “grupinhos”. Consigo fazer com que, aqueles que atendem à proposta, busquem o conhecimento através de pesquisas em grupos.

Ou seja, consigo.

E tenho menos trabalho do que trabalhando com todos juntos.

Mas não paro por aí hein! Tem mais coisas acontecendo por lá!

Estou em conversas com um grupo de professores e com a coordenadora - parceira - para o desenvolvimento de trabalhos diferenciados não só por mim e nem só com a simples separação da turma em duas.

Mas esta é uma história para um próximo artigo.

Esperem e verão.

29/04/2008   12 Comentários

Como não enlouquecer?

Às vezes me sinto enxugando gelo! Não… neste caso o gelo acaba.

Me sinto estancando com as mãos o sangue de uma grande ferida! Não… neste caso o doente sucumbe e morre.

Me sinto espantando centenas de moscas de um pedaço de carne! Neste caso as moscas cabarão por acabar com a carne, mais cedo ou mais tarde.

É assim que me sinto às vezes por ser professor.

Tudo bem… depois piora.

ps. fiquei em dúvida se às vezes levava o acento grave indicativo da crase. Verifiquei.

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Na mesma linha:

a) http://somaisumaprof.blogspot.com/2007/09/farta-de-ser-prof.html

24/10/2007   2 Comentários

Você quer ser professor?

Vida de professor cansa! E é assim mesmo. Cheguei em casa 23h, havia saído às 7:30h. Não, não passo o dia todo dando (ou melhor, vendendo) aulas; tenho outros trabalhos.

Mas faz parte da vida do professor, certo? Ou ele tem diversos trabalhos como professor - aí entra em sala bem cedo e sai bem tarde - ou ele tem suas escolas e outros diversos - aí ele sai bem cedo de casa e chega bem tarde.

Hoje passei um filme pra turma da noite, sobre um professor de basquete, dentro de uma escola do subúrbio dos EUA, onde a maioria é negra. O time de basquete começou a ganhar todas, mas o professor cobrava deles a presença nas aulas e as boas notas - o que, claro, eles não tinham. Ele cancelou todos os treinos e jogos até que o time todo estudasse e tirassse boas notas. É claro que todos foram contra ele, blá blá blá, aquele melodrama de professores que nós conhecemos dos filmes. E o basquete nos EUA parece pior que uma religião né?

Claro que todos foram felizes, inteligentes e bons jogadores para sempre. Mas confesso que não deu pra assistir o final do filme! É mole? Bateu o sinal, deu 22h e todos tivemos que sair sem ver o final - mas que podemos imaginar…

Mas que é interessante e instigante ver estes filmes sobre professores é né? Como Sociedade dos Poetas Mortos, Escola de Rock e outros. Dá até mais ânimo pra tentar ser diferente… até encontrarmos tudo igual pela frente e a resistência ser tão forte que nos desanima de novo! Aí assistimos outro filme e a vida continua…

Mas é raro vermos um com uma professora! Por quê será…?

Em tempo: ensinar é diário e em qualquer lugar… veja o Raphael ensinando a introduzir!

23/10/2007   1 Comentário