Sim, eu sou um privilegiado desde que nasci. E temos que entender que EXISTEM indivíduos absolutamente privilegiados, mesmo que em diferentes níveis.
Mas, o que é ser um privilegiado?
Eu sou um privilegiado?
As pessoas são diferentes e obtém resultados diferentes na sociedade.
Pelo senso comum – ou falta de senso – os menos privilegiados intelectualmente creditam essas diferenças, sem pensar sobre isso, sem ler, sem pesquisar, à simples meriticracia.
Ou seja, quem tem mais é porque batalhou mais; quem é mais rico é porque está colhendo o fruto do seu trabalho, porque trabalhou e trabalha muito.
Essa visão superficial ignora por completo todas as dinâmicas da sociedade, visando apenas pequenas questões individuais. E, mesmo assim, absolutamente equivocadas.
Ora, quem pode dizer que um gari, um pedreiro ou uma empregada em casa de madame não trabalham muito, não ralaram e ainda ralam demais. Mas não obtém os mesmos resultados que outras categorias que… tá bom, também trabalham bastante.
Por este pequeno exemplo, nós vimos que a questão meritocrática não se sustenta. Só mesmo na cabeça de quem quer porque quer culpar os outros – todos – pelo fracasso da própria sociedade.
Então, se não é simplesmente por conta do “esforço” individual, há origens diferentes, há situações que ajudam com que as pessoas tenham resultados diferenciados.
Isso não significa que o esforço individual não exista ou não faça diferença. Sim, a questão individual faz diferença e ajuda as pessoas a obterem resultados diferentes. Mas isso comparando-se pessoas com os mesmos privilégios – ou sem os mesmos prilégios. Não dá para analisar a sociedade inteira desta forma.
Seria como, em uma prova de natação, colocássemos um golfinho contra um guepardo. O guepardo é o animal mais rápido do mundo… na terra. Na ´gaua, além de perder pro golfinho, ainda poderia se afogar durante uma competição dessas.
Até mesmo nós humanos somos capazes de entender isso. Ora, por que existe uma Olimpíada e uma Paraolimíada?? Se a questão fosse só o “esforço” individual e a meritocracia, por que não colocamos um atleta sem nenhum problema físico para competir com um atleta com deficiência?? Não seria só este último “se esforçar” e “dar tudo de si”?
Sabemos que não.
O que é ser um privilegiado?
Bom, eu sou um privilegiado.
Nasci branco de classe média. Sim, você que nasceu branco já é um privilegiado nessa sociedade racista. Não se engane: racismo existe, mesmo que nossa sociedade seja mesclada entre brancos, índios e negros.
E ter nascido em uma família de classe média também foi um privilegiado. Com toda dificuldade que se poderia ter, estudei do jardim ao 3º ano em uma escola particular, minha mãe é professora (aposentada há muito tempo) e aempre me ajudava. Se eu tina dificuldade em alguma matéria que ela não dominava, as amigas dela – também professoras – me davam aulas particulares de graça.
Fiz cursos e cursos: inglês; jiu-jitsu; natação, desenho e pintura, saxofone…
Passei no primeiro vestibular que fiz para uma universidade particular. Em outros contextos, outra pessoa teria que fazer de novo até passar para uma pública, mas, no meu caso, cursei na particular mesmo sem minha família ter tão boas condições na época.
Meu pai increveu eu e meu irmão (que também passou para uma particular) para o Crédito Educativo – programa de apoio ao estudante da época. Nós dois ganhamos. Eu seja, universidade particular, mas sem pagar.
NUNCA precisei trabalhar desde novo. Tentei ser artista plástico, mas não ganhava nada, desisti. tentei ser poeta, mas não ganhava nada, desisti. Tentei outras coisas também, mas nada me dava dinheiro. Incompetência ou azar, tanto faz.
Depois de formado, corri ainda atrás de trabalho, mas nada que arrumava sera suficiente para me bancar emancipadamente. Ah, e bicos, nunca de Carteira assinada.
Mas meus pais sempre me bancando!
Somente aos 29 anos passei em um concurso para professor do município e comecei a trabalhar “sério”, com regras e horários. Cinco anos depois passei em outro concurso como professor de outro município. Nesta época eu já me bancava, casei, mudei…
Resumindo: funcionário público, duas matrículas, férias duas vezes por ano, feriados, finais de semana, dinheiro mensalmente em minha conta – inclusive durante toda a pandemia, a qual fiquei em casa.
A partir daí fiz especialização, mestrado e doutorado em Universidades Públicas – DE GRAÇA, sem pagar nem um tostão de mensalidade.
Bom, acho que já deu para entender, não é?
É claro que em toda a minha história há uma porcentagem de meu esforço, de minhas tentativas, de minhas escolhas, ou seja, de meu mérito. Isso é óbvio.
Mas também é óbvio ululante que se eu não fosse branco de classe média e não tivesse família e muitas outras pessoas me ajudando eu não conseguiria nada do que consegui. Mesmo que eu me esforçasse 1.000% a mais, era provável que eu desistisse já na faculdade – se tivesse conseguido passar.
O esforço que uma pessoa preta, pobre e sem estrutura familiar tem que fazer para conseguir algo na vida que não seja a repetição centenária de todas as suas gerações é IMENSO, muito maior do que a minha própria capacidade – e provavelmente da sua também.
O que é ser um privilegiado? É isso.
SIM, eu sou um privilegiado.
Abraços,
Declev Reynier Dib-Ferreira