De quem é a culpa?

DE QUEM É A CULPA?

Lanço com este artigo um debate em um terreno pantanoso e perigoso. Há flexas partidas de todos os lados envolvidos, de todas as tribos. Porém, creio que devemos discutir, de uma maneira extremamente ampla e aberta a todos os setores da sociedade, os problemas da educação brasileira.

A pergunta que faz o título é, ao mesmo tempo, pertinente e inconsistente. Pertinente porque realmente há culpas, mas inconsistente porque o importante não é de quem, mas onde se escondem as culpas, pois são de todos nós.

O fato é que, a despeito de toda a discussão até hoje travada, a educação no Brasil vem se deteriorando em todos os níveis, tanto no ensino público quanto no particular. Há algo errado e ninguém pode se privar desta discussão.

Diversos fatos nos lembram isso a todo o momento, como o baixo nível de aprovação nos diversos concursos realizados pelo país, os inúmeros exemplos de barbaridades escritas nos vestibulares veiculadas pela mídia, e o 43o lugar que o Brasil recebeu dentro de 43 países no teste da ONU. 

Estranho é que todos os setores envolvidos diretamente (e indiretamente) com a educação – o poder público, as escolas, os professores, os familiares e outros – quase que negam a realidade, varrendo a sujeira para debaixo do tapete, vendando os olhos e continuando a agir e a atuar como sempre fez, como se nada houvesse de errado.

Sobre a sua atuação, claro.

Quanto aos outros, apontam-lhe os mínimos detalhes, explicitando com toda a certeza o como os outros estão colaborando para esta situação caótica.

As perguntas que ficam são: quem está certo? Quem está errado?

A resposta é única: Sim. Estão todos certos no sentido de que vêem nos outros o que pode ser melhorado. E estão todos errados ao negarem para si a mesma obrigação de enxergar o que tem de ser mudado, até negando com veemência qualquer relação com o problema. Como se a sua atuação fosse perfeita e a dos outros deficitária.

Os professores culpam o poder público de pagar pouco e sucatear a educação; o poder público culpa a família de não colaborar com a educação dos filhos; a família culpa os professores por não “darem toda a matéria” ou por não serem mais rigorosos; os professores universitários culpam os do ensino médio, que por sua vez culpam os dos últimos anos do ensino fundamental, que por sua vez culpam os dos primeiros anos…

Essa cadeia pode ir e voltar várias vezes, com uma série de culpabilizações diferentes, entrelaçados formando uma teia. Chamemos isso de “Teia de culpas”. Uma autofagia que tem como único prejudicado: o aluno. Que muitas vezes também é culpado por todos: “são todos preguiçosos, não querem nada com os estudos, só querem saber de namorar…”

Certo é que em uma receita de bolo basta um ingrediente estragado para pôr no lixo todo o trabalho. Neste caso, como podemos ver, todos os ingredientes tem sua parcela de responsabilidade na receita.

O que me motivou a escrever este artigo foi a conduta profissional (ou anti-profissional) encontrada em alguns colegas de magistério. Sei que em todas as profissões há bons e maus profissionais e esta não foge à regra.

Nada do que digo aqui é inventado por mim; todas as informações foram colhidas de conversas com os próprios colegas, mas devo dizer que o que escrevo não é para a totalidade dos professores, mas uma parte dele, que vê a profissão e seus empregos apenas como formas de ganhar algum dinheiro e aumentar os rendimentos.

Ao ponto de um professor (da rede pública) dizer aos companheiros que “isso aqui para mim é um ‘bico’”, quando questionado sobre as suas constantes faltas ao trabalho. Por menos que seja o salário, é inadmissível, para mim, que um professor seja displicente com seus afazeres e seus alunos.

Aliás, o ensino público sofre com os professores que atuam como verdadeiros “funcionários públicos”, em sua mais arcaica e pior conotação: faltas regulares ao trabalho, displicência no planejamento, nas aulas, nas avaliações, nos acompanhamentos aos alunos.

Tudo encoberto pela estabilidade no emprego e pelo silêncio da categoria, que se nega a questionar as atitudes dos colegas, mesmo reconhecendo que os mais prejudicados são exatamente aqueles a quem devemos servir: os alunos. 

A culpa, pelos professores, nunca é de nós mesmos, sempre do poder público. Mesmo sabendo que este último não cumpre a sua parte na receita da forma devida, rogo pela auto-reflexão. Vamos parar de fazer parte da Teia de Culpas apenas culpando os outros, mas nos auto-censurando à busca de mudanças.

Conheço os problemas: classes superlotadas, salário que nos obriga a trabalhar em diversos lugares, falta de materiais, entre muitas outras coisas. Mas a minha pergunta é: o que podemos fazer?

Desejo com essas reflexões, não apontar os erros de cada um, mas iniciar um debate aberto com todos aqueles que têm uma relação e uma responsabilidade com a educação. Obviamente não estarei 100% certo e, tendo consciência disso, me disponho a um debate produtivo, onde opiniões discordantes sejam lançadas.

E, por isso, me reservo no direito, como sempre fiz, de rever meus conceitos se acaso achar que assim devo proceder, ou de fortalecê-los, se for o caso. Portanto, não são idéias fixas, mas mutantes e aglutinantes de outras idéias, para que juntos possamos achar a saída desta caverna escura, deste labirinto em que se encontra a educação brasileira.

Lembremos que o que temos nas mãos é mais do que o simples fato de ensinar alguém a ler e escrever, como uma ação mecânica de decodificação de um amontoado de letras. Temos a formação de uma vida, de um caráter, de uma personalidade, de um futuro nas mãos.

Mas temos falhado até na leitura e escrita e passado muito longe dos outros objetivos.

O que você acha?

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