Entrevista para o jornal Folha Dirigida

Tive o privilégio de ser convidado a conceder uma entrevista ao jornal Folha Dirigida, aqui do Rio.

É um jornal especializado em concursos diversos, mas tem seções e cadernos direcionados à Educação e aos professores.

Eles chegaram até moi através deste belo site que vos é lido. Bacana, não?

O interesse veio pelo artigo Ser professor é correr riscos?.

Saiu na Folha Dirigida do dia 15 de outubro de 2008, Suplemento do Professor, caderno 2, página 15. O nome da chamada foi “Professor, profissão perigo” e o entrevistador e autor foi o Renato Deccache.


Divirtam-se…

Professor, profissão perigo

Renato Deccache – Folha Dirigida, 15/10/08

Entrevista com Declev Reynier Dib-Ferreira

“Se o professor tivesse R$5 mil de salário, possivelmente também trabalharia em três ou quatro escolas para ganhar R$15 mil a R$20 mil por mês. Então, acho que é preciso criar condições de fazer com que o professor se dedique mais à escola e não à profissão exatamente”

“Salário não é sinônimo de bom trabalho. É só pensarmos em políticos e juízes. Eles têm ótimos salários mas não vemos um trabalho condizente com o que recebem”

“Há um aluno em uma de minhas turmas que não faz nada, por mais que eu tente formas diferentes. Conversei com a mãe dele, que disse não saber o que fazer. Ela queria colocá-lo para trabalhar, mas não pode, por ser menor de idade. Ela é obrigada a colocá-lo na escola, mesmo sem ele querer, pois, do contrário, pode sofrer sanções penais. E se nem a mãe sabe o que fazer, o que eu faço com um caso destes?”

O professor Declev Reynier Dib-Ferreira fala de experiências vividas por ele – e por seus colegas de profissão – envolvendo casos de agressão de alunos, sentimentos de impotência, somatização de doenças e até conflitos de autoridade com os conselhos tutelares. Dificuldades que, experimentadas no dia-a-dia, traduzem os muitos percalços enfrentados por todos aqueles que, apesar de tudo isso, ainda encontram prazer no labor do magistério.

Há cerca de nove anos o então biólogo Declev Reynier Dib-Ferreira deixava de lado a pretensão inicial de ser pesquisador para tornar-se professor de Ciências Biológicas no ensino fundamental. O período, dedicado a uma escola municipal de Niterói e outra da rede municipal do Rio na qual trabalha até hoje, foi suficiente para conhecer de perto alguns dos riscos da profissão. O mais temido deles, ser vítima de violência por parte dos próprios alunos, ele viu de perto. E não só na condição de alvo – por pouco não foi atingido por uma pedrada que estraçalhou o vidro da sala em que estava. O educador também assistiu ao drama de colegas agredidos e humilhados por bandidos, alunos ou não.

“Este risco passa pela própria profissão, que não é valorizada, e ainda pela impunidade que existe em toda a sociedade e que se reproduz na escola”, analisa Declev, que é mestre em Ciência Ambiental pela UFF, cursa doutorado em Meio Ambiente na Uerj e coordena a área de Ciências Naturais da Fundação Municipal de Educação de Niterói.

Para contar suas experiências em sala, Declev criou o Diário do Professor, um blog em que escreve artigos sobre assuntos variados, a maior parte deles relacionados ao cotidiano da escola. No espaço, ele fala não só dos riscos da profissão, mas mostra a visão otimista de quem acredita que, na maior parte dos casos, é possível fazer o aluno gostar de estudar. Para isto, defende, é preciso mudar alguns parâmetros do ensino de hoje. “Uma coisa é ter salas de aula que têm carteiras viradas para um quadro, outra é ter um espaço com uma disposição que facilite um trabalho mais dinâmico.”

Nesta entrevista, Declev mostra algumas das preocupações de quem ensina nas salas de aula Brasil a fora. Para ele, bom salário é, sem dúvida, importante, mas falta mais atenção às condições de trabalho. Os mestres se ressentem também de infra-estrutura para dar aulas melhores e de apoio, em especial nos casos de alunos que nem os pais conseguem controlar. “Se ele ficar em minha sala, quieto, pelo menos dou aula para os outros. Agora, se ele resolve bagunçar? Me preocupo com ele ou com os outros 25, 30 que estão na mesma sala?”, questiona o professor que, mesmo diante das dificuldades, conseguiu descobrir o caminho para se realizar no magistério. “Acho que está valendo a pena ser professor por sempre tentar fazer algo diferente”, concluiu Declev Dib-Ferreira.

Em seu blog, “Diário do Professor”, o senhor escreveu um artigo no qual fala sobre os riscos de ser professor. Quais são eles?

Declev Dib-Ferreira — Para começar, nem sempre trabalhamos nas regiões centrais das cidades. Dependendo de onde se localiza a escola, muitas vezes, se trabalha em locais perigosos. Se há um tiroteio, uma guerra entre policiais e traficantes, estamos no meio do confronto. Eu nunca passei por uma situação como esta, mas já ouvi relatos de muitos colegas que, durante a aula, tiveram de se jogar no chão quando ocorrem tiroteios próximo de onde trabalham. No meu blog, mostro a foto de uma pedra atirada contra a escola, que quebrou a janela de minha sala e passou entre mim e uma aluna. Então, há este risco da própria violência local, que, muitas vezes, entra na escola. A região do colégio em que trabalho, no bairro do Caju, é dominada por mais de uma facção criminosa. E estamos no meio desta guerra. Não temos muito problema pois há alunos que pertencem a estas facções. Mas, muitas vezes, a violência entra mesmo. São vários os casos em que controlamos brigas, encontramos revólveres e facas com alunos e percebemos a entrada de pessoas do bairro que não são estudantes. Estamos sujeitos a isto no dia-a-dia.

O senhor relatou o caso de uma pedra que foi jogada em sua sala de aula e que quase o atingiu. Também não é raro ouvir relatos de professores que são agredidos por alunos. Por que se perdeu o respeito?

Não foram só os alunos que perderam este respeito. Todo mundo perdeu. A própria educação perdeu o valor. E se isto aconteceu, aqueles que são responsáveis pelo trabalho educacional também passam a não ter valor. Antigamente, as pessoas estudavam para ganhar dinheiro e ser alguém na vida. Hoje em dia, parece que não há mais esta perspectiva entre nossos estudantes. E também, antigamente, este respeito à escola e aos professores existia muito por um certo medo que os estudantes tinham dos professores e dos pais. Hoje, não há mais esta rigidez. Muitas vezes, nem os pais agüentam estes alunos mais problemáticos e são agredidos por eles. Imagine como fica a situação do professor. No meu blog eu relato o caso de uma professora, uma senhora de 50 anos, que teve a bolsa pichada com xingamentos e a sigla de uma facção criminosa. Na minha escola, há o caso de uma professora negra que tem de ouvir as mais preconceituosas baixarias de estudantes. E não se faz nada. Se o aluno tivesse algum tipo de punição, talvez pudesse existir algum freio. Mas nada acontece… E daí surge a impunidade. Este risco passa pela própria profissão do professor, que não é valorizada, e ainda pela impunidade que existe hoje em dia em toda a sociedade e que se reproduz na escola.

O que autoridades e até alguns estudiosos em Educação defendem é que, em situações como esta, a melhor estratégia é conquistar o estudante e levá-lo a gostar da escola. E sustentam ainda que o trabalho do professor é fundamental para este objetivo. O senhor acredita nisto?

Acredito que é possível. Mas, temos vários poréns. Em primeiro lugar, o professor precisa estar motivado para isto e preparado. O que não é possível para quem tem três, quatro, cinco empregos. O professor entra na escola, vai para a sala e, quando termina a aula, é para sair da escola. Então, não há nem tempo para se preparar, fazer uma pesquisa, reunir materiais. E em casa não dá porque ele já chega exausto. O segundo ponto é a própria estrutura da escola. Conheço vários professores que tentam fazer alguma coisa e que não conseguem. Aí, me refiro a problemas de estrutura física, rigidez dos horários, pouco tempo que o professor tem na escola para fazer coisas diferentes, a falta de material. Tudo isto atrapalha. Há também o número de alunos. Motivar 15 estudantes é uma coisa, 40 é outra completamente diferente. Uma coisa é ter salas de aula que têm carteiras viradas para um quadro, outra é ter um espaço com uma disposição que facilite um trabalho mais dinâmico, que é o que tento fazer lá. Então, resolvendo-se estes pontos, que são gargalos, acho que é possível motivar a maior parte dos alunos. Em geral, os casos de professores que conseguem isto são aqueles em que o número de alunos nas salas é menor, as escolas possuem melhor estrutura, há tempo de planejar as aulas ou é possível realizar atividades no contra-turno. Ou seja, tem alguma coisa a mais e bem diferente do que é a maioria das escolas, onde os alunos entram para ficar quatro horas, sentados em uma cadeira para assistir aulas e depois ir embora.

Em uma das passagens encontradas em seu blog, o senhor diz que o professor se sente, por muitas vezes, como “Daniel na cova dos leões”. O que quis dizer com isto?

Talvez seja até uma posição pessoal minha, pois detesto esta estrutura de sala de aula que existe. Nos dias de hoje, em que há inúmeros recursos disponíveis como televisão, jogos, computador, internet, tudo isto que é tão dinâmico, o que se faz é colocar os alunos em uma sala de aula em que ele só tem cadeira, quadro e um livro didático que, na maior parte dos casos, nem é tão interessante assim. Há turmas em que até se consegue trabalhar com isto. Mas, há casos em que não tem jeito. Em uma turma de 40 adolescentes, cujo interesse não é exatamente a matéria que o professor quer ensinar, é complicado. O professor só tem a si próprio e um quadro. Não há profissionais de apoio na retaguarda. Falta também tempo, materiais e uma estrutura diferente de escola. É como se dissessem: se vira com seus 40 alunos. E muitas vezes, o professor é considerado bom quando consegue fazer com que seus 40 estudantes fiquem sentados, quietos, sem fazer nada.

Hoje em dia, o magistério compõe uma classe numerosa e com um certo poder de fogo. Por que, então, é tão difícil reunir forças para uma mobilização que traga melhorias efetivas para questões básicas, como as condições de trabalho? Acha que o foco da mobilização sindical está errado?

Acho que está. Sou contra qualquer sindicato. Não gosto de nada corporativo. Não temos de lutar por uma causa só de uma profissão, de um profissional. Então, sempre que vejo a luta de um sindicato, a realização de greves, em geral, a maior motivação é conseguir aumento salarial. Mas, o salário não é o único problema. É o salário, a falta de tempo, a estrutura da escola, tudo o que já comentei. E esta estrutura de horário de hoje, em que os professores têm de trabalhar em várias escolas, acaba por desmobilizar a categoria. Imagine se os professores trabalhassem só em uma escola, durante todo o dia. Aí teríamos tempo de conversar, discutir, debater e até fazer uma pressão para melhorar. Na escola em que trabalho, há cerca de 50 professores. Se eu encontro com dez, semanalmente, é muito. E como vamos nos fortalecer sem nos ver? É complicado.

Nas pautas dos sindicatos, realmente a questão do reajuste salarial é prioritária, mas há também outras reivindicações referentes às condições de trabalho. Qual o problema então?

O problema é que estes outros itens são pouco trabalhados. Não há uma pressão para que estas reivindicações sejam atendidas. Se dobrássemos, triplicássemos os salários, não mudaria muito. Se o professor tivesse R$5 mil de salário, possivelmente também trabalharia em três ou quatro escolas para ganhar R$15 mil a R$20 mil por mês. Então, acho que é preciso criar condições de fazer com que o professor se dedique mais à escola e não à profissão exatamente. Ela tinha de estar a serviço de uma escola. Quando alguém leciona em duas, três, vai só para dar aula e não para fazer uma educação diferente, pois não há meios de fazer isto. Os professores deveriam se mobilizar mais pela melhoria das condições de trabalho. Hoje, em uma greve que tenha dezenas de reivindicações na pauta, se o reajuste salarial for concedido, acaba o movimento. Não quero dizer que não é preciso aumentar a remuneração, mas que este é só um dos pontos. Salário não é sinônimo de bom trabalho. É só pensarmos em políticos e juízes. Eles têm ótimos salários mas não vemos um trabalho condizente com o que recebem.

Uma boa relação na sala de aula é fundamental para o bom aprendizado. Muitos professores, no entanto, hoje sofrem na posição de quase reféns, sob ameaça de estudantes. Como se comportar nesta situação? Como reverter isto?

É possível resgatar o respeito e a autoridade que o professor já teve em outras épocas. Mas, acredito que isto tem que ser feito pedagogicamente. Por isto, acho que a escola tem que mudar. Querer que 30, 40 adolescentes fiquem sentados em uma cadeira lendo um livro, assistindo a uma aula, é difícil. E, teoricamente, eles vão para a escola só para fazer isto. Acho que se tivéssemos uma dinâmica diferente, trabalhando com oficinas, atividades extra-classe intercaladas com as aulas, atuando com grupos menores, talvez conseguíssemos fazer com que os estudantes se interessassem e nos respeitassem um pouco mais.

Diante de um quadro onde falta respeito dos alunos, parceria com as famílias, respaldo das autoridades educacionais, entre outros problemas, o professor se sente impotente?

Acho que se sente impotente. E, com isto, fica doente. Conheço vários colegas que estão de licença por depressão, crise nervosa. E não se trata, como muitos dizem, de pegar licença para ficar sem trabalhar. Eles estão de fato doentes, justamente por esta impotência. Não é que queiram fugir do trabalho. Mas, se não têm condições de ensinar as pessoas, sente-se reféns. E o detalhe é que, em muitos casos, temos de ensinar àqueles que não querem aprender, por mais que nos esforcemos para fazer algo diferenciado, interessante. Há um aluno em uma de minhas turmas que não faz nada, por mais que eu tente formas diferentes. Conversei com a mãe dele, que disse não saber o que fazer. Ela queria colocá-lo para trabalhar, mas não pode, por ser menor de idade. Ela é obrigada a colocá-lo na escola, mesmo sem ele querer, pois, do contrário, pode sofrer sanções penais. E se nem a mãe sabe o que fazer, o que eu faço com um caso destes? Se ele ficar em minha sala, quieto, pelo menos, dou aula para os outros. Agora, se ele resolve bagunçar? Me preocupo com ele ou com os outros 25, ou 30 que estão na mesma sala? É principalmente em casos como estes que nos sentimos reféns.

O senhor também critica muito, em seu blog, a atuação dos conselhos tutelares, do Ministério Público. Por quê?

Somente em uma oportunidade vi um conselheiro tutelar, que deu uma palestra na escola em que trabalho, comentar e até ser incisivo com os pais sobre as obrigações do estudante para com a escola. Ele frisou que o aluno não tem só direito, que pode fazer o que quer. Só este disse que pode haver punição. Todas as outras experiências que tive com conselho tutelar não foram positivas neste ponto educativo, principalmente nos casos de alunos que trazem mais problemas. Pode ser que exista, mas ainda não vi uma parceria da escola com o conselho tutelar, como também não há parceria com o posto de saúde, com o clube da região local. E o aluno precisa da parceria com todas estas instituições, deste trabalho conjunto.

A formação dos professores nas universidades, em geral, não dá conta desta realidade que vocês, por vezes, enfrentam? O que é preciso existir nestes cursos para que o professor chegue mais preparado para o pior que ele pode enfrentar em uma sala de aula?

Por melhor que possa ser a formação inicial, só mesmo a prática e a formação continuada e em serviço é que podem fazer o professor aprender. Uma das formas seria apostar mais nos estágios. É preciso que exista maior vivência do dia-a-dia da escola por parte do professor em formação. Talvez seja interessante também estreitar o contato entre universidade e escola. Professores universitários e da educação básica vivem realidades totalmente diferentes. Então, se um professor universitário não passou pelo ensino básico, pelo menos, tem poucas condições de passar esta realidade das escolas. Por isso, acho importante estreitar esta relação, talvez conversando mais com profissionais da educação básica ou levando alunos para conhecer colégios.

Diante de todas estas adversidades e riscos colocados, o senhor diria que ainda vale a pena ser professor?

Eu gosto. Não queria, mas gosto. E gosto por tentar fazer algo diferente. Desde que comecei a dar aulas, sempre atuei com projetos. Sou professor de Ciências e, por isso, sempre procurei trabalhar com aulas práticas, principalmente em laboratórios. Na escola em que trabalho, no Caju, tenho a bênção de ter uma sala de Ciências e procuro organizá-la da forma que uma escola tem que ser. Em vez de carteiras individuais, colocamos mesas para trabalho em grupo; tenho aquário, terrários, livros, dicionários, enciclopédias, materiais de exposição, arte, tudo espalhado pela sala. Acho que toda sala de aula deveria ser desta forma. Temos de quebrar este paradigma de que sala de aula é só carteira e quadro-negro. Toda sala deveria ter computador, televisão. Acho que está valendo a pena ser professor por sempre tentar fazer algo diferente.

5 comentários sobre “Entrevista para o jornal Folha Dirigida

  1. Gostei bastante da entrevista. É a real da escola, da sala de aula…Compartilho muita coisa do seu pensamento , sobretudo isso: “Os professores deveriam se mobilizar mais pela melhoria das condições de trabalho”. Eis uma questão urgente, que deve ser encarada pelos professores tão prioritária quanto o salário.

  2. Parabéns pela entrevista! Concordo em muitos pontos com você, outros nem tanto. A dedicação exclusiva ajuda, mas também desgasta. O mesmo salário é baixo para muitos, mas também é alto para outros. Tem as questões políticas, os males do funcionalismo público, omissão, aquela vocação para dar errado… As condições de trabalho “degringolaram”!

  3. Clap, clap, clap… ótimo texto. Gostei de muita coisa que li, outras nem tanto, mas enfim, isto tem que ser cada vez mais discutido e melhorado, ficar parado, sem resolver nada, vendo a coisa piorar é que não dá.

  4. Obrigado OiYes,

    Nunca concordaremos com tudo. Na verdade, depois de bem conversado e argumentado, quem sabe eu mesmo discorde do que eu disse…

    O fato é que precisamos debater este assunto e buscar soluções, mudanças.

    Abraços.

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