Sentimentos de um professor. Ou pode me chamar de porteiro de salas.

Fico imaginando o que faço por aqui.

Não tenho escrito tanto, por absoluta falta de tempo, mas a frustração que sinto me impele a fazê-lo.

Estou dentro de sala e meu medo é imenso, minha angústia incomensurável, minha frustração suicidante.

Não vejo perspectivas futuras a estes alunos; não vejo mudanças em suas vidas; não vejo como conseguirem algo melhor de que seus pais conseguiram os dar; não vejo como, futuramente, se encaixarem em um mercado de trabalho competitivo como o nosso.

Não vejo como não passarem fome, necessidade, necessitarem de bolsas-auxílios-assistencialistas-família.

Tenho conversado com eles aula a aula; falo das profissões, da necessidade de estudo, de futuro. Pergunto o que querem, o que pretendem, o que pensam.

Na próxima aula, nada mudou.

Na última aula que estive com eles, antes dessa, me estourei. Fiz o que não se pode fazer. Gritei.

Hoje entro em sala.

Calado.

Frustrado.

Cansado.

Desestimulado.

Escrevo um texto qualquer no quadro para que copiem, sabendo que poderia escrever um texto sobre a perspectiva kantiana de conhecimento matemático, em inglês, que daria na mesma.

Talvez fosse melhor fazê-los copiar um texto em russo, porque assim nem eu mesmo também entenderia ou me interesseraria.

Estaríamos quites.

Ouço um aluno perguntar para outro: “Declev é professor de quê mesmo?”; “Ciências”, responde o outro.

Fico calado, pois é como estou hoje, perguntando-me como um aluno não sabe de que dou aula, se já estamos no início de junho??

Viro-me ao quadro e escrevo mais um pouco, segurando na mão o livro de ciências de onde tiro o texto da perspectiva kantiana (ou poderia sê-lo).

Termino de escrever três parágrafos e sento para fazer a chamada, sem vontade nem de falar o nome deles.

Um aluno vira-se para mim e pergunta: “Declev, você é professor de quê? Qual é a sua matéria?”.

Levo as mãos ao rosto e tenho vontade de chorar. Respondo com um resmungo e escrevo estas linhas.

Eles ficam conversando, como se eu não estivesse aqui.

 

Declev Reynier Dib-Ferreira

13 comentários sobre “Sentimentos de um professor. Ou pode me chamar de porteiro de salas.

  1. Olá Professor!
    As palavras me fogem, o peito me dói, as lágrimas teimam rolar em minha face…
    Pudera nunca ter lido a angústia que lhe atormenta, que me atormenta, que nos atormenta….

  2. Sentir muito, não posso! Não quero e não devo!
    Temos que começar por nós a mudar, porque não mudar nossa “didática”?
    As vezes penso que estamos mesmo é correndo em vão, mas descobri com o passar dos anos que certas “democratices exarcebadas” é que causaram este conturbado mundo dos “áliens” são alunos…
    Já estive em uma sala de aula em que uma turma de 1º período de um certo curso universitário, algumas jovens trocaram em plena aula, figurinhas de artistas e quando pegas “no flagra” elas ficaram sem graça e o riso foi o caminho, mas essas crianças dentro de uma universidade… Eram meninas de 17, 18 e talvez de 19, elas ainda não estavam preparadas para uma formação academica, enfim se eu deixasse elas continuariam a “trocar figurinhas” e elas não seriam hoje as grandes mestras em suas especialidades.
    Professor se chama quem dá aula, mestre fica para quem busca e nunca desiste.
    Colega seja um “mestre” e sinta-se com a capacidade de mudar sensiblizando, chegue perto, converse troque idéias, mesmo que eles nem saibam sua disciplina, mas saberão quem é você, pois você será “a diferença”.
    Seja um mestre e aproxime-se de seus pupilos, eles querem o que não tem em casa: Um mestre com carinho.
    Desculpa, mas como consegui, acredito na capacidade dos mestres e aprendo a cada dia que me aproximo de um aluno e dele posso extrair o que de melhor ele tem”o novo e a diferença”, busque esses meninos como se fossem seus filhos e vá até o último dia de aula e dê só uma aula e tenha deles só uma nota, mas chegue até eles, use o seu lado de “mestre”.
    Um forte abraço e sempre que for entrar em sala de aula, pare, reflita e converse com Deus e diga pra ele assim: Deus vou dar aula (amanhã/ tarde/ noite) e o senhor já sabe, tenho a aula pronta e por favor eu te peço, faz com que eu chegue dentro do coraçao de meus alunos e faça nascer o que de melhor eles tem dentro deles, assim eu os sensibilizarei e nós estaremos unidos em ti”. Tudo é difícil sim, mas impossível NUNCA!
    Mude você essa tristeza e ligue-se, você é capaz e tem a melhor competência, nunca desista, principalmente se for brasileiro.
    Acredite, você pode! Você é um Deus em imagem e semelhança, estou errada?
    Fica com deus e sinta-se em paz e sempre aprendendo mais.
    Um forte abraço.
    Dayse

  3. Sabe professor, tambem ha dias que passo por esse descaso com a nossa profissão, mas nao me apego a eles procuro olhar aqueles poucos, minimos mas que ainda acreditam na educacao, no respeito, na honestidade e na honra de partilhar o conhecimento, talvez sua escola nao o favoreça esse ” encontro ” com o desafio da mudançao porisso colega corra atras, levante a cabeça, va a luta GRITE sim voce pode , mostre a que veio, VOCE PODE! NOS SOMOS DESUNIDOS! MAS NAO DESISTIMOS NUNCA!!!

  4. Caro Declev,
    Mais uma vez você conseguiu transformar em palavras toda a angústia e frustração que passamos no dia a dia da nossa profissão.
    Confesso que fiquei emocionado com seu texto… um aperto no peito é inevitável.
    Infelizmente, ainda existem alguns “colegas” que chegam com o papo de que você tem que ser um mestre e blá-blá-blá…
    Acho que, verdadeiramente, eles nunca viveram a nossa realidade.
    Ou somos nós que vivemos em outro mundo?
    Peço desculpas, caro amigo, pois não consigo encontrar palavras que te confortem, até porque somente palavras não são capazes de amenizar o que te aflinge.
    Fica apenas a esperança de vivenciar o dia em que seremos respeitados.
    Fica a esperança… utópica.. pois a razão insiste em me deixar pessimista.
    Como não pensar em parar e largar tudo?
    Como?
    Um forte abraço!
    Luiz Eduardo

  5. É meu amigo, você não está sozinho nessa.
    Aqui em Porto Alegre está a mesma coisa e o pior é que fazemos, inventamos, mudamos, tentamos, etc. Os alunos não têm o menor interesse. Não sei o que está havendo com essa geração, como será o futuro desta. Sei que nos falta apoio, apoio de todos os lados, setores, família, governo e sei mais o quê. Hoje em dia está tudo na mão do professor. As escolas estão virando depósitos de crianças, adolescentes, estão virando creches.
    E o que fazer?
    Já nem sei mais…
    Grande abraço
    Franc

  6. Pior que é assim mesmo… triste realidade. E realidade cada vez mais comum em várias regiões do Brasil. Força, boa sorte e que as coisas melhorem por aí.

  7. O que mais ouvimos nos dias de hoje professor é o seu relato. Algumas vezes me vejo também nesta situação, mas não podemos DESISTIR! Tente alguma estratégia que ainda não tentou, ou se ja tentou todas, faça-as de maneira diferente. Se acha que não adianta , que os alunos não mudarão. Faça por VOCÊ! vai se sentir muito melhor. Não se entregue! ABRAÇOS

  8. Oi Declev, sou estudante de Lic. em Ciência Biológicas( uma novata entrando num mato “com ou sem” cachorro!) 24 anos. Ai que medo lembro de cd coisa que fiz!Várias vezes no meio do ano perguntei qual era o nome e qual a mat dql prof.Não liga não (tanto não) são muitas descobertas e novidades nesta fase. Ô meu Deus esta é a hora do acerto de contas!!rsrsrs Hoje estudo bastante e lembro de alguns prof que mudaram a minha vida. AH sou da UFRJ mas da modalidade semi-presencial CEDERJ, talvez um tema de discussão -EAD!

  9. É isso aí, Declev! É a nossa realidade (que dura realidade, não?!). Mas como li num outro comentário, temos que nos segurar naqueles poucos alunos que ainda querem alguma coisa, que tem uma perspectiva pro futuro.
    Senão, meu amigo, sucumbiremos (como o futuro daqueles que nem sabem nosso nome ou a matéria que lecionamos).
    Beijo.

  10. Quando visito esse site, me fortaleço e tento me renovar…pois tenho o consolo de que não estou sozinha. Tem dia que penso em desistir, em outros quero lutar, fazer minha parte, transformar vidas. E assim vou construindo minha carreira.
    Abraços cheio de fé.

  11. mestre?… balelas!!! Ja dizia Paulo Freire “enquanto nós, professores, formos oprimidos não conseguiremos abrir o mundo para os oprimidos”
    Só quem consegue se conformar com a situação, é merecedor dela.
    Francamente, minha gente. Sejamos mais realistas.

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