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Covardia: comparação de performances e classificação das escolas pelo Enem

Covardia: comparação de performances e classificação das escolas pelo Enem

Vejo hoje nO Globo (12/09/11, p.3 e 5) reportagem sobre os resultados do Enem, que vem a ser o Exame Nacional do Ensino Médio.

É uma covardia o que fazem e a forma como são feitos os resultados.

Veja a chamada da notícia em primeira página:

Enem reprova ensino das escolas públicas

Covardia.

Nos esportes, todos sabem que não se colocam para competir homens com mulheres; nas artes marciais, não se colocam pessoas díspares em força e peso.

Mas, na educação, querem fazer “competir” alunos e escolas tão díspares quanto uma da roça e outra dos filhos dos personagens do Manoel Carlos.

A covardia é tão grande que nem se importam em taxar uma escola (e seus alunos e professores) de “pior escola”, ou “piores ‘escolas”.

O que é para quem estuda lá, ou para quem trabalha lá, ler essas coisas?

Não importa, ora, são uns incompetentes e burros!

Há tantas variáveis neste processo, há tanta covardia, tanta sacanagem, que não darei conta de comentá-las somente em um artigo sem o risco de torná-lo grande e enfadonho.

Então, aqui, farei apenas uma consideração: o ranking, a classificação e as análises são baseadas só, só e somente só nas notas tiradas em um exame.

Covardia.

Não vejo, em nenhum momento, análises sobre os alunos e suas vidas.

Vejo, em algumas partes isoladas, especialmente nas falas das especialistas das universidades (não, não dão a palavra aos professores das escolas), falas sobre as condições das escolas e de trabalho dos professores.

Mas em nenhum momento falam dos que mais interessam: os alunos.

Os alunos não são pessoas, são máquinas de fazer números.

Umas máquinas dão bons números, outras dão maus números.

Mas, engraçado, eu não vejo em nenhum lugar fazerem-se comparações das escolas em relação a:

  • Índices de violência dos locais onde moram;
  • Índices de alunos sem pais conhecidos;
  • Índices de moradores por habitação;
  • Índices de estrutura das habitações;
  • Índices de saúde;
  • Índices de acesso à saúde;
  • Índices de acesso à cultura;
  • Índices de casos de violência sexuais;
  • Índices de casos de violência familiar;
  • Índices de viagens dentro e fora do Brasil;
  • Índices de auxílio de “explicadoras”;
  • Índices de acesso à internet, tv a cabo;
  • Índices de  acesso à cursos diversos, tais como de línguas estrangeiras, artes ou esportes.

Ahtá, mas isso não tem nada a ver com educação…

Ainda voltarei a este assunto.

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Professor de Escola Pública

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About Declev Dib-Ferreira

Declev Reynier Dib-Ferreira é professor, biólogo, educador ambiental, especialista em EA pela UERJ, mestre em Ciência Ambiental pela UFF, doutor em Ciências pela UERJ.

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19 comments

  1. Jonatha Borges

    Quando eu assistir ontem a noticia no JN, lembrei logo do seu blog e já imaginava que você iria postar algo relacionado a isso!

  2. Madge Bianchi

    Muito bem. Adorei ler seu artigo. Senti um pouco de alívio na sua escrita porque me revolto a cada matéria que assisto ou leio sobre o assunto. Especialmente da TV Bobo. Que novidade aquele “especialista” falou? Será que o ensino médio é para todos entrarem na universidade como ele disse?

    Além disso, o Enem mostrou alguma coisa que os professores (de sala de aula de escolas) não sabiam?

    • O Enem mostra só o que falamos, mas eles só enxergam o que querem ver.

      Temos que fazer um mutirão de reclamação à globo por sempre utilizar o mesmo “especialista”, desculpe, de merda.

      Abraços,

  3. Perfeita colocação.

  4. Gostei da idéia de “mutirão de reclamação à globo”(o minúsculo é proposital?).Tô dentro!
    Abraço!

  5. Madge Bianchi

    Gosto da idéia do mutirão, mas não sei se adianta…

    Se trocarem de especialista, vai ser do mesmo time, vão trocar 6 por meia dúzia, porque o que querem é bem claro: convencer o povo de que a péssima qualidade da educação é apenas por falta de esforço dos educadores. Foi o que demonstraram naquela série do JN em que iam com um avião em escolas de várias cidades do país. Justamente no primeiro programa, mostraram uma professora (de alfabetização) com salário de R$ 3.500,00 e uma escola pública que parecia perfeita, com a diretora dizendo que com esforço e participação de todos era possível.

    Se fosse assim, eu continuaria lecionando hoje no Ensino Médio. Não preciso de Enem pra saber que grande parte dos alunos do ensino médio público têm erros grotescos em português e tremem diante de uma simples soma de frações. Não precisa ser “especialista”, é só querer ver.

    • É Magde.

      Nesta série, utilizaram o mesmo “especialista”.

      Mas nas reportagens dO Globo sobre o Enem, tenho visto, por exemplo, muitas educadoras (de universidade, mas educadoras) dando opiniões.

      Escrevi sobre isso hoje.

      A Bertha, da Uerj, por exemplo, que faz aquelas comparações que utilizo no artigo de hoje.

      Abraços,

  6. Paulo Pontes

    É um problema real o fato que brasileiro não gosta de ser objetivo e de colocar números para embasar suas decisões.
    O ENEM é uma ferramenta fundamental para ranquear as instituições e saber quais são melhores e quais sao piores.
    É o suficiente? Claro que não! Esta informação tem que ser expandida com outras para mapear qual o motivo daquela escola estar entre as piores e atacar estes problemas. Mas para os pais e cidadãos próximos ao colégio, saber que aquela instituição está entre as piores possibilita a reivindicação de mais ações por parte da instituição ou do governo(caso seja pública).
    Espero que o ENEM se mantenha estável por muitos anos de forma que possibilite o acompanhamento continuado das instituições.
    Faltam sites e sistemas que possibilitem um consumo melhor dos dados apurados. O site do ENEM tem uma usabilidade péssima.

  7. Paulo Pontes

    Desculpe o comentario repetido.

    • Oi Paulo,

      Acho que você não entendeu o artigo.

      É justamente isso que é impossível de ser feito de forma justa: rankear as instituições de ensino e listá-las como “melhores” ou “piores”.

      Ora, as melhores, em geral, são as que são para classe média. As piores são as que estão em bairros violentos e mais pobres.

      Diferença que é muito marcante nas grandes cidades, especialmente.

      Não só a escola faz o ranking, mas o público e sua situação sócio-ambiental´política-cultura que está MUITO ALÉM do trabalho da escola sozinha.

      É muito fácil e injusto dizer “essa escola é das piores” sem querer saber que aquele aluno mora em um barraco, é estuprado, a mãe é bêbada, o pai está preso, o tio tá no tráfico e quem cuida dela é a irmã mais velha, que muitas vezes é uma criança.

      Você não tem ideia das histórias que ficamos sabendo dos alunos.

      Aí o professor é terapeuta, psicólogo, médico, enfermeiro, amigo, conselheiro, pai, mãe, avô e muito mais, mas isso NÃO APARECE NOS NÚMEROS e não embasam AS DECISÕES.

      Você acha que os pais e cidadãos próximos às “piores” escolas vão reivindicar o quê? Eles não têm transporte, moradia, saúde, dente, comida decente, asfalto, saneamento, segurança, são achacados pelas milícias, pela polícia, pelos traficantes, seus filhos são cooptados pelo tráfico, suas filhas viram mulher de bandido, eles têm que trabalhar mais de 16 horas por dia, contando o transporte de ir e vir, não t~em acesso à leitura, à cultura, à teatro, à cinema (muitos dos alunos, com 15, 16 anos NUNCA foram ao cinema)…

      E dizer pra eles que a escola dos seus filhos é a “pior”!

      Ah, sim, eles vão se revoltar por isso. Vai mudar muito a situação deles.

      A escola não vai mal à toa.

      Mas eu nunca vi nenhuma “reivindicação” dos “especialistas em educação” ou de “intelectuais” pra colocar uma placa na entrada do bairro dizendo “bairro mais violento da cidade”, ou em frente ao posto de saúde dizendo “posto onde mais morrem crianças recém-nascidas”, ou em frente às casas dizendo “casas mais faveladas da cidade”, ou em frente à vala de esgoto dizendo “bairro sem saneamento”, ou “bairro onde crianças são molestadas, violentadas e surradas pelos familiares”, ou “aqui o tráfico é quem manda”!!!

      No dia que essas informações forem expandidas a todos, colocando-se inclusive, placas enormes, outdoors pela cidade, aceito a divulgação do Ideb das escolas.

      Abraços,

  8. Paulo Pontes

    O ENEM serve para medir o quanto a matéria obrigatória foi absorvida e dominada pelos alunos. Se escolas em zonas de risco tem absorção pior, isso deve refletir nas notas ou a medição está sendo feita de forma incorreta.

    Avaliação negativa de uma instituição tem que levar a um plano de ação e nao a uma justificativa…
    Ou vc defende que por serem uma comunidade mais pobre nao pode ser medida?
    A medição diz que há um problema. Não diz qual é o problema.

    Concordo que deveriam divulgar as estatísticas dos postos de saúde também, os bairros mais violentos todo mundo sabe, no entrando as escolas sao caixas pretas para os pais, sem o ENEM os pais nao tem como saber antecipadamente qual a melhor instituição para colocar os seus filhos, no máximo tem que confiar no que dizem as pessoas com filhos por perto, o que pode não bater com a realidade.

    Medição é algo importantíssimo que nao pode ser poluído com a ideologia do politicamente correto, nao podemos ficar passando a mão na cabeça das instituições piores só para nao chamar de piores.
    Os desafios deles sao grandes? São! Ignorar nao ajuda! E o primeiro passo para mapear o problema é medir de forma objetiva e sem distorções…

  9. Acho que não é questão de ignorar, também não sou a favor de passar a mão na cabeça… Acho que a questão é de justiça: se querem cobrar níveis iguais de conhecimento que deem aos alunos oportunidades iguais. Na escola estadual chegam a ficar um ano inteiro sem aula de física por não ter professor. Eu presenciei isso, lecionei para uma turma de 2ª série do EM, em São Gonçalo no Rio de Janeiro, e eles não tiveram nenhuma aula de física no ano anterior e foram aprovados.

    Aí depois é fácil de chamá-los de pior escola. Por que não trocamos e chamamos de pior governo ou pior administração da educação que não consegue nem preencher o quadro de professores?

  10. Paulo Pontes

    Acho que no fundo estamos falando a mesma coisa.
    No caso que vc citou, a nota do ENEM seria baixíssima provavelmente pelo fato de que não houve aulas de física.

    Seria uma das piores escolas sim e a nota do ENEM refletiria isso. Aí cabe ao governo analisar esta escola que teve nota baixa, levantar que foi por falta de aulas de física e providenciar mais professores e reforço para quem ficou prejudicado. Essa última parte que é mais difícil de acontecer no Brasil.

  11. E mesmo quando eles têm aula, é trocando mais de professor do que de caneta. Os estados ficam sem fazer concurso por uns 10 anos e enchem os colégios de ACTs, e com uma burocracia dos infernos pra contratar. E se um professor fica doente ou pede demissão, tem que ser no período certo do mês para contratação de outro, se não for, tem que esperar até o outro mês, e até lá uma assistente pedagógica fica lá com a turma passando atividade daquela disciplina, o que muitas vezes fica só nos “trabalhos” copiados dos livros.

    Considere umas três trocas de professor no ano (o que não é nada extraordinário) e já viu quantas aulas perderam . Mas isso está dentro do processo normal, não vai aparecer como “faltou professor”. De novo, alunos prejudicados.

    • Oi Madge e Paulo,

      Acrescentando a estes problemas que vocês apontam, eu ainda insisto: mesmo em uma escola em “iguais” condições, os alunos não têm vida igual: moradia, alimentação, saúde, família, histórico de vida, segurança… e tudo isso influencia nos resultados.

  12. Paulo Pontes

    A nota do ENEM é um ativo importantíssimo para o povo brasileiro, no entanto cada público tem que saber como vai usar este número para atingir seus objetivos.

    Supondo duas escolas exatamente iguais, uma tira uma nota A e outra tira uma nota B um desvio padrão para cima, uma diferença bastante expressiva, a escola A tem que fazer uma análise dos motivos que levaram a nota inferior. Esses motivos podem ser vários desde metodologia inadequada, condições de vida dos alunos, participação dos pais na educação dos filhos, etc.

    No entanto nada disso importa para os pais que estão usando o ENEM como informação auxiliar para ranquear e escolher a instituição de ensino de seus filhos, para ele, ao ver a nota do ENEM ele está vendo um retrato de como aquela instituição conseguiu o objetivo dela de passar a matéria regulamentar para os alunos.

    Já o administrador responsável pelo ensino público de toda uma região (seria o prefeito? não sei!) pode usar o ENEM para mapear quais são as piores e focar seus estudos e ações nela, obtendo assim o melhor ganho por esforço aplicado.

    Não tiro a sua razão quando vc diz que diversos fatores tem que ser levados em conta para recuperar uma nota com ranqueamento ruim, mas me preocupa esta visão (até inconsciente na maioria das vezes) das pessoas de não querer apontar os piores colocados para se iniciar uma ação de recuperação de verdade.