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Somente melhorar a escola ou melhorar as condições sociais dos alunos?

Histórias reais da educação brasileira:

1 –

O aluno é daqueles que não entendem as explicações, que têm dificuldades mil e que, por isso mesmo, não param.

Briga, sai de sala toda hora, grita pelo corredor.

É filho do padrasto da mãe, marido da avó. Isso mesmo, o padrasto engravidou a filha da esposa e moram todos na mesma casa: padrasto, avó, mãe e o filho. Neto de um, filho do outro, meio irmão da mãe…

2 –

A garota é uma peste. Não aprende, responde a todos, é grosseira. Grita em sala de aula, briga com todo mundo, inclusive professores e colegas. Sai de sala toda hora, grita pelos corredores.

Muita chuva, enchente, desabamento. A casa cai e vai morar com a família em uma escola, um abrigo improvisado. Ficam lá por meses.

3 –

O garoto não diz uma palavra. Não fica em sala, fica andando pelos corredores, em silêncio.

Quando está em sala, dorme o tempo todo. Deita a cabeça nos braços, em cima da carteira, e dorme.

À noite, já foi visto por funcionários da escola em um sinal de trânsito, pedindo dinheiro.

4 –

Quando mais nova não podia nem ser tocada, como um bichinho assustado. Não sabia nem pegar em um lápis. Nem falava direito, grunia.

Agora, um pouco mais velha, é difícil de parar sentada ou dentro de sala. Qualquer proposta de trabalho é recebida com caras e bocas, saindo de sala reclamando e dizendo grosserias.

Já foi durante um bom tempo, cerca de dois anos, menina de rua, tendo fugido de casa. Já foi catadora de lixo, a família toda é de catadores.

Há inúmeros casos mais.

E o economista especialista em “economia da educação” acha que a solução para a escola pública é pendurar o Ideb da escola na porta da escola – Ideb conseguido por estes alunos e os professores que lutam com eles.

É o que dá querer ver a educação pela ótica da economia…

Abraços,

Declev Reynier Dib-Ferreira
Não, não sou de ferro

About Declev Dib-Ferreira

Declev Reynier Dib-Ferreira é professor, biólogo, educador ambiental, especialista em EA pela UERJ, mestre em Ciência Ambiental pela UFF, doutor em Ciências pela UERJ.

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One comment

  1. Você tem toda razão, Declev!!!!
    Me emocionei muito lendo esse seu relato… Lembrei das mil histórias que acompanhava, diariamente, na Baixada, uma mais sofrida do que a outra… Impossível esses alunos serem “bons alunos”, conseguirem aprender, terem mesmo interesse em alguma coisa da escola que, a princípio, não faz o menor sentido pra eles!
    O problema maior é social, claro! É o que está na origem!! Milhares de outros vem daí.
    Quantas crianças e adolescentes surrados, violentados, abusados de todas as formas, explorados, que viram os pais serem assassinados na sua frente, que conhecem todos os tipos de tortura e falam delas com uma “normalidade” absurda desde pequenos, enfim… Essa é a realidade!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Os lixões e as favelas da vida real não tem nada a ver com os da Globo!
    Na escola, buscamos ajuda do Conselho Tutelar, das famílias (do que resta delas…), da secretaria de Educação, etc., e nada adianta! Um empurra pro outro, culpa o outro e não faz rigorosamente nada!!!
    É claro que, nesse caso, os professores não podem fazer milagre! Pelo amor de Deus!! Como podem resolver essa situação sozinhos ou mesmo com a ajuda de outros profissionais da escola, se o Governo não faz a sua parte???? É impossível!
    Por isso digo sempre que os professores, que acabam sendo responsabilizados pelo que não tem culpa, são quase tão vítimas quanto os alunos, nesse quadro perverso que vivemos nas escolas públicas.
    Só não dá pra aceitar passivamente quando muitos professores não querem nem saber nada sobre o que origina aqueles problemas dos alunos “difíceis” ou, quando sabem, querem que eles se comportem “normalmente” mesmo assim. Aí acho que acaba aumentando a perversidade, o egoísmo e reforçando a idéia que eles já tem de que não servem pra nada mesmo, são burros, tudo que fazem é errado, etc. Isso só faz esses alunos piorarem cada dia mais.
    Dá até pra entender que muitos professores acabam ficando frios diante dessa situação horrorosa, até como forma de defesa emocional para poder lidar com ela no dia a dia, mas isso só piora as coisas pros alunos e pros próprios professores, que acabam doentes, com síndrome de burnout, entre outros problemas. Aliás, uma das características dessa síndrome que citei e que tem atingido tanto os professores é uma aparente frieza diante de um quadro emocional tão doloroso como o desses alunos.
    Repito, Declev: concordo com vc! A questão toda é, em primeiro lugar, social!!!!!!!!!
    Pendurar o Ideb na porta da escola? Isso é palhaçada!!!!!!! É culpar a escola de algo que vem antes dela! Um absurdo!!! E, ao mesmo tempo, uma forma antiga de ver a Educação: recompensa-castigo, medalhas aos “bons” e humilhações aos “ruins”, etc. Ridículo!!!!
    Parabéns por mais esse belo artigo, Declev, e pela luta de sempre!!!
    E não. Vc não tem que ser de ferro não!! Ninguém é.
    Abração…