Para quê lembrar? – Crônica

Para quê lembrar?

Para quem é cronicamente frustrado, doentemente triste, qualquer coisa é motivo de pensar profundamente, fazer análises de toda a vida e, quem sabe, ficar ainda mais taciturno.

Este fim de semana foi agitado. Assistimos a cinco shows. Quatro deles foram de bandas de rock ‘antigas’ brasileiras, da época de 1980 – 1990: Plebe Rude, Ira, Engenheiros do Hawaí e Capital Inicial.

Época da minha adolescência. Tendo nascido em 1970, os anos finais da repressão foram, junto com os anos 1980 – aquela aberração – os anos de minha formação temperamental, psicológica e de caráter.

Talvez por isso eu seja quem sou e como sou.

Bem, voltando ao fim de semana. Os quatro shows das bandas brasileiras aconteceram no festival de música brasileira “Clássicos do Brasil”, na Marina da Glória aqui no Rio de Janeiro.

Nesse dia que fomos, como era de se esperar, só tinha velhos… gente da minha idade, se é que me entendem. Para não dizer só da minha idade, tambem tinha gente 40+. Busquei visualmente por pessoas abaixo disso e talvez tenha visto menos de 10. Os filhos e filhas acompanhando os coroas.

Os quase idosos tudo vibrando, pulando, cantando e gritando. A cada sucesso da época, aquele estrondo de felicidade por ainda existirem no mundo.

E eu parado, filosofando sobre a minha vida.

Na época daquelas músicas, eu imaginava ser futuramente o que sou hoje? Quais eram meus planos? Consegui realizá-los? Com certeza imaginava um futuro melhor do que o presente passado.

Não sei se gostei de minha adolescência. Enquanto todo mundo transava, eu era feio, esquisito e extremamente tímido, especialmente com as mulheres. Enquanto beijavam na boca, eu assistia.

Enquanto todo mundo ia à praia, às baladas e festas com os amigos, eu não. Não me era permitido. Eu ia a Araruama com pais e irmãos. Lá, brigas. Em casa, brigas, muitas brigas.

Por que caralhos gostar de algo que me lembra tanto a adolescência?

Mas eu gosto, devo dizer, gosto das músicas. Dizem muito do que pensávamos à época. Só que nao consigo deixar de pensar. As músicas mais icônicas fazem 40 anos!

Feitas por jovens rebeldes, raivosos para mudar o mundo, acabar com as injustiças, lutar pelos mais fracos.

para quê lembrar?
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Várias das letras fazem referência e críticas à violência policial, às guerras, à corrupção. A gente cantava à força total de plenos pulmões ainda não estragados pela poluição, cigarro ou maconha. Se é para mudarmos o mundo, porra, queremos o fim da violência policial, fim das guerras e fim da corrupção!!

Quarenta anos depois, a violência policial está maior; as guerras de lá pra cá não dão nos dedos das mãos; e a corrupção… bem, com certeza muitos de nós daquela época são os que hoje a praticam.

E isso tudo vem em minha mente aos borbulhões durante os shows, me deixando com cara de filósofo decadente, enquanto está todo mundo cantando, pulando e com cara de alegria…

Continuando a onda de shows do fim de semana, ganhamos dois ingressos quase VIPs para o show do Whinderson Nunes vindos de um amigo em comum, que estava lá com ele.

Devo confessar que talvez nunca me mexeria para comprar um ingresso para o show dele, por simples preconceito mesmo com influencers, sei lá. Não faria, apesar de até simpatizar com a pessoa dele. Mas, como queríamos ver nosso amigo – que mora longe -, fomos.

E aí, recebo mais uma pancada filosófica em minha mente. Apanhei mais do que o próprio Whinderson no ringue contra o Popó.

O show inteiro é contando sobre a experiência dele com a depressão e outros problemas mentais e suas internações em clínicas para tratamento. Mas ele faz com tamanha inteligência, tamanha sapiência, com doses de filosofia, doses de conhecimentos gerais – e muito, muito humor entremeado com habilidades artísticas e presença de palco que eu não só amei, como me emocionei.

Além de tudo, me identifiquei com a história dele tipo uns 90%. Mesmos sentimentos, mesmo diagnóstico, mesmas dores… bom, os 10% ficam por conta da fama e o dinheiro que são bem diferentes.

Ao final, intermediado pelo nosso amigo em comum, ainda fomos ao camarim, conversamos e tiramos fotos.

A vida segue, as dificuldades e as dores não são só minhas. O que importa, ao que parece, é o que fazemos com elas.

Declev Reynier Dib-Ferreira

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