Como enfrentar o problema dos alunos-problema?
No post “Como é bom conseguir dar aulas“, digo em determinado momento que “Devo confessar que não gosto dos ‘alunes-problema’”.
A Nalva (desde já agradecendo a colaboração dela) fez um comentário que achei interessante e que me despertou algumas considerações, inspirando uma resposta também interessante.
Fiquei empolgado com a troca… tanto que a transcrevo aqui.
Acho que é um assunto quase infinito, mas que pode gerar alguns raciocínios enriquecedores.
Gostaria de divulgá-lo melhor do que no comentário do post, para que outros também comentem e, quem sabe, gere uma discussão produtiva.
Divirtam-se:
A Nalva disse:
“Olha, na minha opinião não existe alunos problemas, e sim alunos com problemas. Cabe ao professor investigar a vida desses alunos e procurar soluções junto com a escola e os pais!!!”
Eu respondi:
“Pois é Nalva, concordo com você.
Mas os professores também têm problemas e, entre eles, os ‘alunos com problemas’.
Tenho ’somente’ (entre aspas visto que normalmente os professores têm muito mais do que eu) 4 turmas e cada uma delas com uma média de 35 a 40 alunos.
Dão de 140 a 160 alunos em uma única escola.
Não vejo meus colegas professores mais do que 10 minutos durante o pseudo-recreio.
Como investigar a vida destes alunos? Como procurar uma solução?
Trabalhando mais do que me pagam pra fazê-lo?
Pois, quando é que eu poderia fazer isto, visto que o tempo que estou na escola estou dentro de sala? (como eu disse, com 35 ou 40 alunos).
A escola não tem equipe para isso, o professor não tem ajuda para isso.
Assistente social faz isso; mas a escola não tem.
Psicólogo faz isso; mas a escola não tem.
Orientadora educacional faz isso; mas a escola não tem.
Os pais? Nalva, Nalva… estes alunos são ‘com problemas’, na maioria absoluta das vezes, justamente por causa dos pais!
É um ciclo sem fim.
A minha angústia é justamente querer fazer algo mas não ter condições. A não ser que, como eu disse, eu trabalhe a mais do que o justo: que vá a escola outros dias, por exemplo, para fazer o trabalho dos assistentes sociais, psicólogos, orientadores… que a escola não tem!
E, sinceramente, nenhum profissional faz isso; não acho que o professor deva fazê-lo.
Um advogado, um médico, um pedreiro, um engenheiro, um psicólogo, um gari fazem mais do que pagam a eles para fazer? Não.
Se acham que os professores têm esta função - e eu acho sinceramente que têm co-participação -, paguem a ele para isso. Paguem a ele para dar aulas e para, fora da sala, ajudar a resolver os problemas dos ‘alunos com problemas’.
Gostaria eu de ser contratado (com um salário justo) para ficar somente em uma escola, mas não somente enclausurado em uma sala de aula; mas para fazer outras coisas, como as que você disse.
Abraços, e obrigado pela contribuição.
3 comentários
É Nalva, falar dos professores como as maus ou possíveis salvadores da pátria, e os alunos problemas como os coitadinhos, é muito bonito no discurso, na prática cotidiana é que a coisa perde a beleza. Por que será que TANTOS professores estão sofrendo de depressão, síndorme do pânicos e muitos outros males, ou simplesmente abandonando o barco? Se a solução fosse tão simplista, eu seria bem mais feliz!!!
A solução não é simples nem está pronta e acabada, Ana Catarina. Ela precisa ser buscada, em conjunto e, na maioria das vezes, terá que ser construída, de formas diferentes em diferentes realidades.
Da mesma forma que a escravidão no Brasil terminou de um jeito onde não houve a menor chance da população negra ser mais do que mão-de-obra barata (e até hoje a população negra brasileira sofre com as conseqüências disso e é a mais pobre; quase não vemos negros em escolas particulares, por exemplo), quando a escola pública passou a existir para atender a TODOS, isso também foi feito sem estrutura, sem preparação decente, tipo: vocês, profissionais da Educação, que se virem!
Pois é.
Vejo como um grande desafio. Reclamar não adianta nada. A realidade é duríssima, cada dia mais, e nas comunidades mais carentes onde trabalhamos encontramos alunos com problemas sérios diariamente. E só saberemos como lidar com eles, para que a escola possa ser verdadeiramente democrática e inclusiva, se nos unirmos na busca de soluções, dentro das características de cada comunidade/realidade social.
Concordo com Declev e acho que não devemos trabalhar fora do nosso horário, mas acho que, diante da realidade que encontramos nas escolas hoje, precisamos nos ater menos a conteúdos e mais a questões como valores, relações humanas, estímulo ao prazer que se pode ter no mundo das idéias, do conhecimento, das trocas, do aprendizado constante na vida, entre outras coisas. Porque sem isso primeiro, todo o resto se torna inútil e ineficiente.
É melhor parar tudo, em algumas aulas, para ensinar o be-a-bá, discutir relações, promover debates e dinâmicas que levem a reflexões, entre outras coisas desse tipo, do que partir pra ameaças (e/ou ações) de “vou tirar pontos”, “vc vai ser suspenso”, “vou te botar pra fora de sala”, etc. Esse é o modelo antigo e só funciona superficialmente, na base do medo que desperta (na maioria das vezes nem desperta mais; e medo não é respeito), só aumentando mais ainda a descrença dos alunos na escola, como se realmente ela não tivesse nada a lhes acrescentar na vida.
É… O problema é sério, mas é de todos que resolveram ser educadores.
E os professores têm seus problemas também, claro, como lembrou o Declev. Mas não podemos esquecer de algo muito importante em relação a isso: mal ou bem, o professor é adulto, conseguiu formar-se, ter uma profissão, trabalhar no que se formou e o aluno que temos hoje, criança e adolescente, infelizmente pode nem mesmo chegar a ter um reles sub-emprego na vida, que dirá uma profissão!
O quadro é esse.
Quem não quiser enfrentar essa verdadeira loucura, pode buscar outras formas de exercer sua profissão, como dar aulas e cursos particulares, por exemplo. É um direito que todos temos. E é, sem dúvida, mais prazeroso (eu adoro!).
Mas eu ainda acho que vale a pena encarar esse desafio e lutar por melhores condições de trabalho para todos, para o bem DO EDUCADOR E DO ALUNO, estejam eles (um e outro) com muitos ou poucos problemas…
[...] artigo, assim como já aconteceu com outro, nasceu da minha resposta a um comentário de terceiros em outro [...]
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