Lixo hospitalar: real ameaça ou grande trapaça? Quem ganha com isso?

Por Declev Dib-Ferreira em 24/04/2008  
Arquivado em Sobre lixo



Olá amigues, 

Este artigo, assim como já aconteceu com outro, nasceu da minha resposta a um comentário de terceiros em outro artigo.

A resposta foi se alongando, fui me empolgando, empolgando… e pronto!, nasceu como artigo, não como comentário.

O escrito era sobre Lixo hospitalar, quando disse que este lixo é absolutamente igual ao lixo doméstico e que deveria, portanto, ter um tratamento igual, em aterros sanitários.

Esta opinião gerou alguns comentários indignados… mexendo com o inconsciente das pessoas, dá nisso!

Entre eles o Vítor diz que “O descarte de lixo hospitalar caseiro junto com o lixo comum é um erro. A incompetência do estado em separar e descartar todo o lixo de maneira adequada não deveria ser usada como justificativa para piorar a situação caótica do RSS.”

O César faz a piadinha de me pedir o endereço: “Me passa seu endereço que tenho muito lixo hospitalar para te enviar”.

E, por fim, a Jussara diz: “Então a sua sugestão é… que deixemos virar uma bagunça generalizada? Lixo doméstico e hospitalar, tudo junto!… já posso imaginar…
Bom… tenho uma sugestão para seu próximo livro… GARRAFAS PET, SACOLINHAS DE SUPERMERCADO, como gerar mais lixo em menos tempo, ou, Saneamento Básico… para que?”

Bom, este comentário da Jussara que me despertou para o que escrevo abaixo. Como podem ver, é difícil mudar a forma de pensar, mesmo se se prova o contrário.

A História da humanidade é repleta de exemplos assim né?

Mas vamos ao artigo:

Oi Jussara,

Tirando sua ironia, responderei seriamente, apesar de às vezes também saber ser irônico…

Não, minha sugestão não é que deixemos virar uma bagunça gerneralizada. É só ler meus artigos e trabalhos acadêmicos para ver isso.

Sim, minha sugestão é lixo doméstico e hospitalar tudo junto.

Como digo lá em cima [no post], não há diferenças entre eles. É só pensar: os absorventes íntimos cheios de sangue, os bandeides com restos de sangue e pús, os cotonetes cheios de cera de ouvido e outras coisas, as fraldas com cocô e xixi, os curativos com sangue e casquinhas de feridas, as agulhas dos diabéticos, os vidros e restos de remédios, os papéis higiênicos sujos de sabe-se o quê, os lenços de papel com meleca… tudo vai para o lixo comum. De gente sã e de gente doente!

O que eu quero é que deixemos de lado nossos preconceitos e superstições e racionalizemos o nosso parco dinheirinho para fazer o que deve ser feito - e bem feito! - e aí sim acabar com esta bagunça generalizada.

O que acontece com estas normas de lixo hospitalar é o mesmo que aconteceu com as dezenas de usinas de “reciclagem” que se espalharam pelo Brasil: alguém ganhou muito dinheiro à toa!

E muito do nosso dinheiro é gasto onde não se deveria e não é gasto onde realmente importa.

Exemplos?

a) No Brasil mais de 70% dos municípios dispõem seu lixo em lixões. Simplesmente recolhem - quando recolhem - e o joga em algum lugar qualquer, sem nenhum tratamento.

A melhor forma de dispô-lo é com aterros sanitários - o que implica em grandes verbas para início, uso adequado e futura finalização do processo, quando o aterro não comportar mais lixo.

b) A quase totalidade dos municípios não tem um sistema público eficaz de coleta seletiva; que é feita, na maioria dos casos, pelos catadores de forma amadorística.

Os municípios deveriam implantar a coleta seletiva de forma sistematizada e inteligente. Mas, pra variar, isso implica em dispêndio de dinheiro, pois é um sistema caro.

c) Não conheço nenhum município - deve existir, mas não sei - que tenha um sistema eficaz de coleta de materiais realmente perigosos, como os que contém metais pesados, químicas variadas, etc.

Um sistema destes, sim, deveria ser implantado.

d) Muitos municípios do Brasil ainda sofrem com a falta de uma simples coleta sistematizada e eficaz de lixo. Muitas vezes ele é basicamente jogado em quaisquer lugares - leitos de rios, valões, ruas, terrenos baldios.

Esse lixo - que contém plásticos e metais diversos - é queimado para não ficar acumulado, lançando para o ar toxinas realmente perigosas à saúde.

Portanto, está vendo o que é uma bagunça generalizada? É isso.

E as pessoas fazendo leis e se preocupando com algo que não deveria - o chamado lixo hospitalar -, pois que representa menos de 1% (menos de um por cento) do lixo gerado em uma cidade!

Meu avô sempre dizia: “não sabe nem cuspir, já quer escarrar!”.

É um ditado meio nojento, mas reflete muito bem a nossa situação. Antes de mais nada, antes de gastar dinheiro com sistemas ultra-sofisticados para recolha, armazenamento, transporte e queima de menos de 1% do lixo gerado em uma cidade, devemos gastar dinheiro construindo aterros sanitários decentes e sistemas de coleta de lixo decentes para os 100%.

E paralelo a isso, sistemas de coleta seletiva para a diminuição do lixo destinado aos aterros.

[E nem estou falando da diminuição da geração do lixo - que é uma das minhas bandeiras em educação ambiental (se quiser saber meu pensamento, leia ao menos os dois últimos capítulos de minha dissertação de mestrado).]

Então, ficarmos nos preocupando com as bactérias que existem em um lixo só porque ele veio de um sistema de saúde é neurótico!

As bactérias estão em todo todo todo lugar. Em nós. Embaixo de nossas unhas. Nos nossos cilios. Na nossa casa. Na nossa cama. Nos celulares. Nas bandejas das áreas de alimentação dos chópins. No teclado do computador em que você está neste exato momento! Em todos os lugares.

E estudos indicam que o lixo doméstico tem absolutamente todas todas todas as bactérias encontradas no lixo hospitalar! Mais uma vez, para isso, indico o livro “Lixo hospitalar: ficção legal ou realidade sanitária?”, organizado pelo Emílio Eigenheer, especialista em lixo.

Veja também este trabalho e mais este.

É uma coisa lógica: as pessoas estão em todos os lugares! Os doentes estão em todos os lugares!

Não estamos mais no século passado! Sabemos disso!

Mas o que não nos deixa ver? Nossos paradigmas? Nossos preconceitos? Nossos medos? Ou o ‘lobby’ das indústrias que fornecem as roupas intergaláticas, caixas de papelão, transporte exclusivo, incineradores caríssimos para sossegar nossos anseios pelo asseio?

E veja: Não estou falando de não tomarmos cuidado. Temos que tomar cuidado com o lixo sim! - e com todos eles. Tendo os vetores da doença e deixando que eles entrem em nós, provavelmente poderemos ficar doentes.

Mas isso, como eu disse, é com todos os lixos - e com a rua, os bancos e as barras às quais nos seguramos nos ônibus,  com o que comemos, os sapatos, o elevador, o celular, os talheres e copos do restaurante, a mão do amigo que apertamos…

Por fim, Jussara, esta discussão não tem absolutamente nada a ver com gerar mais ou menos lixo, como você apontou.

Não, meu próximo livro não será como gerar mais lixo, muito pelo contrário, trabalho pelo oposto.

E não tem nada a ver com saneamento básico. Saneamento básico é ter água tratada em casa, esgoto sendo coletado e tratado e lixo sendo coletado e tratado. Para isso necessita-se dinheiro - por isso acho desperdício gastar com o que não se deveria.

Sugerir que eu sou contra o saneamento básico é leviano. Nossa divergência é simplesmente como o lixo denominado de hospitalar deve ser coletado e tratado.

Eu acho que ele deve ser coletado e tratado da mesma forma que o lixo domiciliar: coletado de caminhão (após ser retirado o que pode ser aproveitado pela reciclagem) e disposto em um aterro sanitário - um espaço impermebilizado no fundo, onde será coberto por terra e terá a canalização e o tratamento do chorume e gases.

Outros acham que deve-se gastar fortunas com uma parafernalha de coleta e queima do mesmo - com o risco de, na queima, lançarem-se toxinas realmente perigosas no ar que respiramos.

Abraços a todes.

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    Comentários

    8 comentários para “Lixo hospitalar: real ameaça ou grande trapaça? Quem ganha com isso?”

    1. Declev via Rec6 em 24/04/2008 03:06

      Lixo hospitalar: real ameaça ou grande trapaça? Quem ganha com isso? | Diário do Professor…

      Continuação da discussão sobre a real - ou irreal - ameaça do lixo hospitalar, que, na minha opinião, deve ser coletado e tratado como outro lixo qualquer….

    2. Jussara Ribeiro em 24/04/2008 10:51

      Obrigada pelas sugestões de leitura Declev, vou ler sim, com muita calma, além de outros evidentemente..Entretanto, os poucos artigos científícos que lí, dizem que no Brasil os resíduos hospitalares são ainda pouco estudados, e que a questão da periculosidade ou não dos resíduos hospitalares não esta resolvida, nem em países desenvolvidos(e que na dúvida, incineram), e no ano passado lí que um gari foi infectado com vírus da Aids ao manejar lixo hospitalar quando coletava seringas no Hospital Cônsul Carlos Renaux.Então continuo na dúvida, é ameaça real ou não?

    3. Declev Dib-Ferreira em 24/04/2008 23:30

      Olá Jussara, como vai?

      Então… podemos inferir várias coisas do que você falou.

      Como você vê, depois de anos de estudos ainda não resolveram se os RSS são ou não um perigo. Mas não creio que sejam pouco estudados, creio que não acharam o que queriam achar: a sua periculosidade frente aos resíduos domiciliares. Porém muitos pesquisadores concluiram ao contrário, como podemos verificar nos artigos, alguns que eu já indiquei.

      Por outro lado, este acidente com o gari. Em primeiro lugar, eu não digo em nenhum lugar que não se deve ter cuidado com o lixo, ainda mais com os pérfuro-cortantes.

      É claro que bisturis e agulhas, por exemplo, devem receber um cuidado redobrado no seu descarte, armazenagem e disposição final.

      Assim como os cacos de vidro, que as pessoas jogam no lixo comum de qualquer maneira. Assim como os ferros enferrujados. Assim como as baterias, pilhas, lâmpadas fluorescentes…

      Desta forma, aquele gari, se realmente se contaminou com uma agulha, provalvelmente estava manuseando o lixo sem a devida proteção, luvas, por exemplo.

      [sem contar que o vírus da sida não sobrevive muito tempo fora do corpo humano… Será que ele se infectou ali mesmo?]

      Por fim, o que defendo é, principalmente, o descarte deste material em aterros sanitários, junto com os outros resíduos que para lá devem ir.

      Para isso, ele não teria contato com ninguém, pois é assim que deve ser: uma pessoa o coleta - com toda a segurnça - o joga em um caminhão, o caminhão descarrega no aterro, máquinas o prensa, máquinas o cobre de terra.

      O simples fato de ter vindo de algum sistema de saúde não o faz, ali, mais ou menos perigoso do que quaisquer outros.

      É isso. Mas continuemos a discussão, que está muito boa.

      Abraços.

    4. João Carlos em 25/04/2008 01:49

      E como ficam os recentes dados da poluição das águas por medicamentos que, literalmente, “saem na urina”?… Essa histeria acerca de “lixo hospitalar” começou na mesma época em que se identificou a AIDS como epidemia. Essas frescuras acerca de bactérias são isso mesmo: frescuras!… E uma frescura que está voltando na cara dos “maníacos por higiene”: as infecções hospitalares estão cada vez mais graves, justamente por causa do uso indiscriminado de desinfetantes com antibióticos; os microorganismos sobreviventes são extremamente resistentes.

      Um pouco menos de preocupação com seringas e agulhas e um pouco mais com as toneladas de sacos plásticos e embalagens descartáveis seria muito salutar.

      Além disso, essa onda toda foi criada por médicos… E quem disse que médicos sabem do que estão falando?…

    5. Declev Dib-Ferreira em 25/04/2008 20:31

      Pois é João, pois é… Um pouco de direcionamento em nossas reivindicações - quaisquer que sejam - não fará nada mal.

      Tenho medo do maniqueísmo reinante: vem do governo, é ruim - vem do povo, é bom; é pobre, é honesto; é rico, é safado; é lixo assim assim, tudo bem, é de saúde, demônio…

      Se atacamos as coisas tão indiscriminadametne, deixamos muitas brechas para os erros e ilusões, e perdemos o que realmente devemos modificar.

      Abraços.

    6. Fabíola em 06/05/2008 13:42

      Boa tarde!
      Respeito sua opinião, mas como profissional de saúde e especialista em vigilância sanitária devo dizer que, segundo a Constituição e a lei 8080, o papel do Estado não exclui o do cidadão. Cada um deve fazer a sua parte, inclusive em casa para a promoção da sua própria saúde, dos outros e do meio ambiente.
      Se você não sabe o que fazer com seus remédios vencidos,frascos vazios de medicamentos ou não utilizados na validade, procure um farmacêutico.
      O lixeiro e o meio ambiente podem se contaminar com o seu lixo. Tome cuidado!

    7. Fabíola em 06/05/2008 13:51

      Os consultórios, clínicas, hospitais e farmácias pagam uma taxa para recolhimento do lixo hospitalar, que é armazenado em sacos brancos identificados e descarte de medicamentos. A VISA de sua cidade recebe denúncias sobre irregularidades.

    8. Declev Dib-Ferreira em 08/05/2008 22:04

      Oi Fabíola, obrigado pelas suas considerações.

      Mas o que eu discuto aqui, como ponto principal, é o destino final do lixo.

      Todo grande gerador se responsabiliza pelo seu lixo - e, assim, deve pagar por isso.

      Mas o destino final é também extremamente importante.

      E, quanto a isso, não creio que haja diferença em se levar tudo para um bom aterro sanitário - com exceções daqueles que podem ter produtos químicos que causem reações, explosões, fogo, emanações poluidoras, etc.

      Bactérias e vírus não são o problema.

      Abraços.

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