Qual a real diferença do lixo hospitalar para o lixo comum?
Nenhuma!
Esta é a diferença.
Simples assim.
Ter aprendido, entendido e percebido isto, o que devo ao meu ex-orientador Emílio Eigenheer, foi uma grande evolução no meu pensamento.
Considerando então que o lixo hospitalar não tem diferença para o lixo comum, você me pergunta, ele não necessita de todos estes cuidados e investimentos que fazem? E eu respondo: não! Não precisa.
Mas o que fazer então? Eu digo que deve ser coletado e aterrado como quaisquer outros lixos.
Simples assim. E tenho vários e vários argumentos, corroborados por extensas pesquisas científicas.
Pra começar, quem se atrever a mudar os paradigmas e enxergar o que está além do olhar, procure o livro “Lixo hospitalar: ficção legal ou realidade sanitária?”, organizado pelo próprio Emílio.
Depois, podemos raciocinar através de algumas constatações. Pense comigo: o que faz o lixo hospitalar (a partir de agora chamado RSS - Resíduos de Serviços de Saúde), ser tão asqueroso aos nossos olhos? O que tem nos RSS que nos faz achar que temos que gastar milhões de nosso rico dinheirinho com coletas especiais, embalagens especiais, roupas especiais, transportes especiais e tratamentos finais especiais?
Vocês dirão “oras Declev, nos RSS tem sangue, seringas, gazes sujas, restos de remédios, frascos de soro, bactérias…”
E eu direi, “oras Todes, todos os lixos os têm!” Querem ver? Raciocinem comigo:
1) Onde ficam os doentes, portadores de bactérias ou vírus, mas que não estão debilitados ou terminais pela doença? Os portadores do HIV, os portadores de hepatite, os gripados, dengosos, os que têm herpes, giardíases, amebíases, leshmanioses, etc. Digo-vos: em casa! E para onde vão os seus resíduos? Para o lixo comum;
2) Toda mulher de uma certa idade até uma certa idade desfaz-se de algumas centenas de mililitros de sangue todo mês. Para onde vão os absorventes das milhares de mulheres de nossa sociedade, sejam elas portadoras de doenças ou não? Para o lixo comum;
3) Todo bebê faz cocô e xixi e a maioria deles utiliza fraldas descartáveis, as quais ficam repletas destes dejetos, sejam os seus produtores portadores de doenças ou não. Para onde vão estas toneladas de cácas? Para o lixo comum;
4) Sempre que nos cortamos ou nos ferimos com pouca gravidade (graças a Deus!), vamos ao hospital? Não, fazemos a assepsia em casa, seja quantos dias forem. Para onde vão as nossas gazes, algodões, bandêides sujos com nossos sangues, pús e outras secreções nojentas? Para o lixo comum;
5) Todos nós compramos remédios, sejam eles para auto medicação, seja quando vamos a um médico (e que depois vamos pra casa, não ficamos produzindo lixo no hospital ou na clínica). Nem sempre os utilizamos todo o conteúdo da caixinha, o que faz, logicamente, sobrar. Estas sobras ficam lá no nosso armário, prateleira, caixinha de primeiros socorros ou seja lá onde for até um certo tempo. Depois expira seu prazo de validade. O que fazemos com eles? Jogamos no lixo comum;
6) O Brasil tem 8 milhões de diabéticos. Para quem não sabe, é aquela doença pela qual as pessoas têm que injetar insulina todo dia em si mesmos. E, claro, como é todo dia, fazem isto em casa. Para onde vão estas milhões de agulhas diárias? Para o lixo comum;
7) Aí você me diz que “o problema Declev, é a quantidade, a concentração! Um hospital ou uma clínica produz muito RSS concentrado”. Bom, vejamos. Os RSS representam menos de 1% de todo lixo produzido por uma cidade. Se é verdade que ele se encontra concentrado quando é produzido, basta que o coletemos junto com os outros, naqueles caminhões compactadores que, pimba!, acabou-se a concentração! E se o levarmos junto com os outros 99% de lixo para um aterro, acabou-se de vez a concentração;
8)”Mas Declev, os RSS são cheios de bactérias patogênicas!” Oras, oras… TODOS os lixos têm bactérias - e AS MESMAS!!
9) Mas e os restos humanos? Claro, aí é outra coisa. Restos humanos, como pontas de dedos, pernas, etc., devem ser cremados ou enterrados. Por uma questão ética, não propriamente higiênica.
Então, cares amigues, pra quê gastamos tanto com os RSS? Pense. A quem interessa ter todos estes esquemas próprios? Quem ganha dinheiro com isso? Quem vende as caixinhas, as roupas, os coletores, os incineradores? E quem paga?
Pense: por algo que nãoo há necessidade.
Tanta gente precisando de ajuda, e nós gastando com lixo sem necessidade!
17 comentários
Sabe o que este artigo me trouxe à lembrança?… Recentemente eu passei por um exame de Radiodiagnóstico Nuclear (uma cintilografia). A Clínica fica em um prédio na Rua México, Centro do Rio de Janeiro.
Seguindo as normas da CNEN, há banheiros específicos para os pacientes que injetaram os contrastes com isótopos radiativos, todos com a recomendação “acione a descarga duas vezes”. E eu fiquei pensando: será que a urina “radiativa” continua separada esgoto abaixo?…
Qual a real diferença do lixo hospitalar para o lixo comum? | Diário do Professor…
Post que mostra, por argumentos, porque o lixo hospitalar é igual ao lixo comum e porque deveríamos tratá-lo igual aos outros…
Boa pergunta. Pura cena.
[...] mas http://diariodoprofessor.com/2007/12/26/qual-a-real-diferenca-do-lixo-hospitalar-para-o-lixo-comum/ traido a usted por [...]
Interessante acrescentar que os cadáveres dos doentes vão todos para um mesmo lugar: o cemitério, com seus lençois freáticos e dentro da cidade.
Não encontrei nenhum argumento aonde por meio de fatos você comprove que RSS seja inofensivo ao meio ambiente ou que não seja mais poluente que o lixo comum.
O descarte de lixo hospitalar caseiro junto com o lixo comum é um erro.
A incompetência do estado em separar e descartar todo o lixo de maneira adequada não deveria ser usada como justificativa para piorar a situação caótica do RSS.
Me pssa seu endereço que tenho muito lixo hospitalar para te enviar
Vitor, tudo bom? Desculpe a demora na resposta, pois estou viajando. Sugiro que você leia o livro que cito no post. Tem muitos argumentos. Poderia repeti-los aqui, mas ñ faz sentido. Se ñ achar, me diga que indico outros artigos científicos e acadêmicos que os têm. A discussão é boa, podemos continuá-la. Abraços.
[...] Artigo meu: Qual a diferença do lixo hospitalar para o lixo comum? [...]
Olá, Declev
Então a sua sugestão é… que deixemos virar uma bagunça generalizada? Lixo doméstico e hospitalar,tudo junto!..já posso imaginar..
Bom..tenho uma sugestão para seu próximo livro..
GARRAFAS PET, SACOLINHAS DE SUPERMERCADO,como gerar mais lixo em menos tempo, ou, Saneamento Básico..para que?
Oi Jussara, tudo bom?
Dê uma olhada neste post:
http://diariodoprofessor.com/2008/04/24/lixo-hospitalar-real-ameaca-ou-grande-trapaca-quem-ganha-com-isso/
A resposta está lá.
Abraços.
com o objectivo de efectuar investigação sobre “deposição do material usado pelo diabetico na comunidades, supostamente infectado e colocado nos residuos solidos urbanos” solicito-lhe que me forneça instrumentos por si utilizadas para avaliação desta problematica.
os melhores cumprimentos
Isabel Correia
Oi Isabel,
Para as análises que faço eu utilizo a literatura disponível.
Você pode dar mais dados sobre o que você quer pesquisar para que eu possa tentar te ajudar?
Você quer saber o quê exatamente? Se este material depositado pelo diabético no lixo domiciliar é infectado?
Quer saber de que jeito ele é lançado no lixo (de qualquer forma, embrulhado em jornal, com a capa plástica na agulha…)?
Lembre-se o seguinte: em todo lixo - aliás, em todo lugar - há bactérias! Portanto, tudo é “infectado”.
O problema é a disposição final destes resíduos.
Mas vamos nos falando…
Abraços,
Declev
ps.: você é de onde?
Você tem uma lista detalhada do que é desprezado no lixo hospitalar infectado…
grato.
Oi Rodrigo,
Eu não tenho uma lista de cabeça, mas você consegue estas informações, por exemplo, no livro que eu indiquei no artigo. Ele foi editado pela Secretaria de Estado do Ambiente do Rio de janeiro, em parceria com a UFF. Eu acredito que através destas instituições você consega.
Além disso, indico os artigos do pesquisador João Alberto Ferreira, que você pode conseguir alguns pela internet. Faça uma busca pelo google. Ele tem muitos estudos sobre isso.
abraços.
fico preocupada com todas essas criticas e conclusões vivemos num pais que ha mais lixões (uns 75%) do que aterro sanitario. Sendo que infelizmente ha familias que ficam esperando os caminhões chegarem para ver o que pode ser “aproveitado” não somos um pais de primeiro mundo e não vamos conseguir mudar isso de um dia para o outro. Houvem fatos de indigentes comerem carne humana em 1994(OLINDA PE), poluição do rio Guandu, enfim entre outras que não me lembro de detales… ha pessoas reaproveitando da pior maneira possivel o que descartamos fico imaginando o residuo solido da saude em meio ao residuo comum infectanto todo o resto… e o resto sendo aproveitado. O residuo da saude apos tratado por empresa qualificada não pode ser descartado em lixoes apos tratado (digo tratado e não queimado)nem mesmo aterro controlado e sim aterro sanitario licenciado, diminuindo assim alguns riscos… perfurocortantes que encontravam em postos em condiçoes irregulares acabavam nas maos de viciados que quebravam as grades para levar as seringa embora. Redigo o que eu disse não somos um pais de primeiro mundo nossos lixões não vão se tornam aterro sanitario num piscar de magica, se podemos melhorar um pouco iremos melhorar não vamos deixar de fazer um pouco porque sonhamos com o muito que pode ser feito.Simone Tecnologa em Meio Ambiente
Oi Simone,
Em todo lixão há esta história de gente que comeu carne humana. A única vi que deve ser verdade é de um casal, mãe e filho, que sabiam exatamente o que estavam fazendo. O resto é lenda.
Falo sobre isso na minha dissertação:
http://diariodoprofessor.com/2007/10/21/dissertacao/
Mas isso é fácil de resolver. Restos e pedaços humanos não devem ser jogados em aterros ou lixões, por uma questão ética. Pronto.
Quanto aos catadores, melhor - e mais barato -seria dar-lhes um auxílio financeiro para sair de tal situação.
E, nos aterros ou lixões, ter um espaço especial para aterrar os pérfuro-cortantes dos hospitais.
Gastar o que se gasta para não aterrar seringas porque lá há catadores é o fim.
O que não podemos é ficar jogando o dinheiro público “no lixo”.
Abraços.
Deixe seu comentário