Docência profissão frustração
Desculpe o desabafo, mas é muito frustrante dar aulas. Se acaso há migalhas de recompensas, na maioria das vezes é frustrante.
Parece que fazemos algo diariamente para não ver resultados.
Acho que um profissional enxugador de gelo vê mais resultados em seu trabalho.
Na docência você trabalha, trabalha, trabalha… fala, ensina, promove, diz, mostra, encaminha, dita, proclama, dá, oferece, puxa a orelha, manda, grita, conversa mas parece que nada adianta. Aliás, nada adianta realmente, se o seu interlocutor, o docente, não quiser.
E, meus amigues, o que os alunes menos querem hoje em dia, é aprender!
Aprender pra quê? Ou, antes, o que é aprender? Pra que serve?
Hoje na escola em que eu sofro trabalho, mais um dia sui generismente igual: sumiu a chave da sala de informática da mesa da cordenadora quando estavam lá alguns alunos.
E algo parecido na minha sala de ciências. Estava eu com uma turma. Pra variar, esta turma – relativamente pequena, entre 25 e 30 pessoas – tem um grupo que nada quer. O fato de nada querer não é o problema em si. O problema é que os que nada querem não deixam aqueles que qeurem quererem. Entenderam? Pois é.
Os fulanos do grupo dos nada querem sentam, sem camisa de uniforme, com bonés, ouvindo música e com a mochila nas costas. E assim ficam, de bonés, sem camisa da escola, ouvindo música e com a mochila nas costas a aula inteira. O que fazem de diferente é que nem sempre estão sentados. Estão em pé, andando de um lado para o outro, mexendo em tudo, tacando giz, bolinhas de papel ou outros objetos nos outros, mexendo nas mochilas dos colegas, roubando borrachas, canetas ou lápis…
Ou dou aula ou tomo conta deles.
Percebo, em determinado momento, que faltam certos livros, daqueles didáticos interativos, com figuras em 3 dimensões, cheio de brequetis, grossos, estilo caixa, não sei descrever.
Vou na certa. Peço para os fulanos que nada querem pegarem os cadernos dentro das mochilas, pois eu queria vê-los. Uns pegam. Um determinado esconde a abertura da mesma, para que eu não veja seu interior. Fico de frente. Ele pára. “Pega o caderno”, digo. Ele dá a mochila pra outro, dizendo que não é dele (e de fato não era). O dono da mochila a abre e leva um susto com dois livros lá dentro. Certamente colocado pelo “amigo”.
Destino os 4 da mesa: diretoria. “Mas não fui eu, professor, não sou ladrão”, diz um. E de fato sei que não foi ele. Mas não poderia eu acusar ninguém, nem mesmo o dono da mochila; então, todos.
Tenho escrito em letras grandes acima do quadro duas frases: “Quem anda com porcos come lavagem” e “Diga-me com quem andas que te direi quem és”. Em casos assim, como já contei aqui, àqueles que reclamam simplesmente aponto para lá.
Sobre esse menino que disse que não foi ele, eu já o havia avisado, no início do ano, várias vezes, para que não andasse com esses outros. Precisei lembrá-lo das minhas advertências. “Você lembra?”. “Lembro”.
Desceram os quatro.
Desdobramentos? Não sei. A mãe foi chamada, mas adiantará?
Dou aulas a quem quer, ou tomo conta dos que não querem?
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11 comentários
Docência profissão frustração | Diário do Professor…
Artigo sobre a dificuldade de dar aulas com os alunos que temos, que não querem nada, além de bagunçar a sala e atrapalhar os colegas que querem….
Em nome do que, Declev, você se sente obrigado a sequer tentar ensinar a quem não quer aprender?…
Outro dia, mesmo, te mandei um email falando da malcriação que meu neto aprontou no colégio… Sabe qual foi o desdobramento?… Confrontado com a realidade de nem a um trabalho de lixeiro poder se candidatar, no futuro, ele percebeu que “tinha ido longe demais” e no dia de aula seguinte, fez a prova de História e obteve uma nota dez…
Foi uma quarta-feira – feriado – toda de sermão e “papo-chato”, sobre o que é “dever”, “responsabilidade” e – fundamentalmente – “de onde vem o dinheiro que paga a comida que você come e os brinquedos que você tem”. Direto-e-reto, em linguagem bem clara, sem rodeios e sem preocupações com “psicologismos” sobre mostrar os fatos da vida para uma criança.
É para isso que a família serve! Eu não vou nem perguntar que tipo de família seus “não-estou-nem-aí” têm… Quando você (retoricamente) pergunta: «Desdobramentos? Não sei. A mãe foi chamada, mas adiantará?»; você deixa implícita a resposta…
O “engraçado” é que se importam tanto em propalar que as escolas têm que estar preparadas para atender alunos com “necessidades especiais”, mas essas “necessidades especiais” parecem restritas a deficiências físicas ou mentais… Quando a coisa chega ao nível social e emocional, “o buraco é mais embaixo”…
Fique frio, mestre… “Supletivo” está aí mesmo para garantir um “Certificado” para os futuros garis…
É isso aí! Dá vontade de largar… Família? O professor é babá de adolescente! Infelizmente os profissionais sérios, como você, não são respeitados e valorizados. Desanime sim, porque é uma merda mesmo! Nós tentamos puxar “pra cima”, mas a hipocrisia, o descaso e a omissão reinam. Essa é a nossa sociedade em termos de educação. Falar é fácil, mas só quem está lá todo dia sabe como é, e quase ninguém quer ficar. Afinal, quanto vale o professor? Eu estou com prazo de validade. Mantenho os blogs, mas, no fundo, são exercícios de solidão.
Pois é cares amigues… Fico me perguntando qual é o meu prazo de validade. Disse, no início da carreira, que não iria ficar como professor muito tempo… e lá se vão dez anos.
Caro João, estou em falta contigo. Não respondi aquele seu email, mas pensei muito sobre ele. Na verdade sabia no que ia dar: ele não demoraria a se desmentir.
É isso. Quando há pessoas em torno, quando há conversas, estímulos, aberturas de visão de mundo, etc. (família, pois bem!), é natural o interesse. É natural.
Existem aqueles que não querem no seio destas famílas? Sim, mas não querem até quando? Não querem quanto tempo? Não querem até que prazo de validade?
É temporário, como foi com seu neto. Porque ao redor dele é o contrário do que ele queria pra si.
Como digo lá em cima: “diga-me com quem andas…” e “quem anda com porcos…”.
Mas voltando à sua pergunta inicial, João, eu não me sinto obrigado a ensinar a quem não quer. O problema é que SOMOS OBRIGADOS a aturá-los.
E esta obrigação não nos deixa sequer ensinar a quem quer! Pois é uma coisa ou outra.
Aí todos (que NÃO estão em sala, como Rogério falou) vêm com aqueles papos pedagogês de incentivo, aulas diferenciadas, captar o que o o aluno quer, blá blá blá…
Mas em verdade em verdade vos digo: NADA adianta com alguns! E são estes alguns que minam todo seu trabalho.
E quando digo nada, é que já tentei de tudo: experiências, aulas práticas, desenhos, recortes, pesquisas, filmes, maquetes, trabalhos em grupo, cópias, exercícios, etc.
Tem uma hora, meus amigues, que cansa. Aí mesmo que eles queiram, quem não quer mais tentar sou eu!
Como dizia o sábio, “na prática, a teoria é outra…”
O mais chato é que ambos têm razão e, ao mesmo tempo, não… O “teórico” tem razão em dizer que sempre há um modo de “atrair a atenção” de uma criança para o estudo (afinal, se consegue resultados positivos com autistas…); mas o profissional “carregador de piano” não tem nem os meios, nem o tempo necessários para realizar um profundo estudo do perfil psicológico desses “nem-aí”. Já é trabalho que chegue ensinar a quem quer, mas tem dificuldades. Principalmente com a absoluta falta de infraestrutura de apoio.
O que eu queria dizer é que há situações em que, confrontado com um “nó gordio”, a única solução é a de Alexandre: meter a espada!… Por “politicamente incorreto” que isso possa ser, põe para fora da sala! Isso é “legítima defesa de terceiros”: com isso dá para “livrar a cara” até de homicídio…
Pombas!… Aboliram os “Regulamentos disciplinares?”…
Numa escola pública, um aluno pode pichar a parede, quebrar a mesa, sumir com seu livro didático, rabiscar o uniforme, sair no tapa com colegas, chutar portas, entrar sem pedir licença, atirar coisas nos outros, gritar no corredor, dentro de sala, jogar o lixo pela janela, xingar qualquer um, bagunçar tudo, acabar com a aula, tirar o professor do sério, depredar a escola, fazer guerra de comida, botar o pau pra fora, gargalhar na sua cara, etc, etc e etc. O professor enfrenta tudo isso sem poder falar um palavrão, pegar uma criança pelo braço, e é um stress atrás do outro, do outro, do outro. Como disse o Declev, ele é pago para aturar, porque no final não vai acontecer nada demais com esses alunos. Numa escola particular, isso não acotece, porque como ela é paga, o direito ao apredizado é garantido, ou se perde a clientela. Infelizmente, a educação pública é para TODOS. Os alunos não aprendem nada, não sabem nada, não querem se esforçar. Quem quer, não tem condição. Os pais, em geral, ou pedem ajuda à escola ou botam a culpa nela. O pedabobo ou psicólogo, em geral, vai dizer que o aluno deve continuar assistindo as aulas na sala, que uma punição severa pode fazê-lo sentir-se excluído, traumatizá-lo, e blá, blá, blá… enfim, poderia escrever muita coisa, citar exemplos, mas basta dizer o seguinte: a educação pública já é um caos e caminha para um cataclisma (ou o que existe embaixo do fundo do poço). Quem vai estar lá para ver?
Regulamentos disciplinares?… o que é isso mesmo?!?
Olha, foi com essa mesma experiência que larguei a sala de aula e hoje cuido de computadores e redes, e estou muito feliz
ex-professor de física da rede estadual.
É Marcello,
Tenho certeza de que tem muitos querendo seguir este caminho, de sair de sala de aula.
É uma pena, realmente.
E confesso que eu, toda vez que vou a escola, tenho este sentimento…
Abraços.
realmente nos últimos anos a educação declinou, a partir da , progressão continuada jamais os alunos tiveram condições de se reabilitarem, viraram verdadeiros dementes e nós educadores meros persosagens dessa trama.
O número de readaptados aumentam vertiginosamente a cada ano e isso é reflexo das péssimas condições de trabalho e os baixos salários , porque qual é o professor da rede pública que pode bancar um tratamento fonoaudiológico.
Gosto de seus desabafos pq são autênticos e não são mascarados. Muitas vezes gostaria de partilhar meus “traumas” com outros colegas professores na escola que leciono, mas eles simplesmente reagem como seu o mundo deles fosse diferente.
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