Nova Carta Aberta, agora a todas as secretárias e secretários de educação

Senhoras secretárias, senhores secretários,

Por favor, não tentem inventar a roda.

PAREM de inventar projetos, projetinho, projetões.

PAREM de distribuir o dinheiro da educação por ONGs amigas e por “contratados” para tentarem fazer o que os professores têm que fazer.

O dinheiro da educação tem que ser gasto COM A EDUCAÇÃO E COM OS  EDUCADORES E EDUCADORAS.

Basta dar condições a nós, profissionais da educação, e nós faremos o que devemos e sabemos fazer.

Sim, ao contrário do que vocês pensam, nós sabemos fazer!

E , sim, nós, profissionais da educação. Porque não somos políticos com cargos indicados, temporários, vindos de qualquer área da politicagem em troca de sei lá o que vocês dão em troca.

Porque nós somos profissionais da educação que estudamos, treinamos, capacitamos, pensamos em como fazer o que deve ser feito (e por favor, não se considerem profissionais da educação, porque me ofenderiam).

Então basta que nos dêem condições, desde a nossa atuação na mais tenra infância (creche, pré-escola), passando pelo 1º e 2º segmentos do fundamental.

Então, deixo uma dica pra vocês. E de graça, ok? Não precisam me pagar consultoria milionária (nem baratinha, porque essa não existe:

Pra revolucionar a educação, não precisa muita coisa, bastam 5 passos:

1 – Contratar os professores, com salário decente e compatível, para uma só escola, por 40 horas, com dedicação exclusiva, como os professores das universidades.

Da mesma forma, não nos obrigar a estar 40 horas dentro de sala de aula, mas, além da sala de aula: fazendo planejamento; discutindo com os colegas; fazendo formação continuada; pensando e aplicando projetos na escola; trabalhando individualmente ou em grupos pequenos com aqueles alunos com maiores dificuldades, para além da sala de aula; desenvolvendo oficinas (artes, cultura, literatura, esportes, ciências…); desenvolvendo pesquisas sobre o cotidiano escolar; atendendo e conversando com os responsáveis dos alunos, dentre outras atividades.

Não pensem que a escola, a educação, a formação de um cidadão se dá exclusivamente no enclausuramento do professor e do aluno em sala de aula!

2 – Colocar os alunos efetivamente em horário integral na escola.

Friso “na escola” para não deixar margem àquela enganação de bairro-escola ou outras baboseiras que colocam meia dúzia de alunos no contraturno em alguma atividade e alardeiam que a escola é de horário integral. Já tive a oportunidade de criticar isso neste artigo.

Alunos entrando 8h (horário de gente normal) e saindo às 17h, pra ir pra casa.

Ou seja, escola de um só turno, como em todo o resto do mundo. Escola de 3 turnos (e, em alguns casos escabrosos, até de 4 turnos!) só no Brasil dos Absurdos.

3 – Limitar o quantitativo de alunos dentro de sala de aula, independente do tamanho da sala de aula!

Desde a educação infantill até o 9º ano, 15 alunos é o ideal, 20 é aceitável.

Mas por que isso, senhoras secretárias e senhores secretários? Porque a educação, no caso de crianças e adolescentes, se faz na interação aluno-professor, no contato, no dia a dia, no conhecimento mútuo um do outro, na troca, nas perguntas e respostas.

E, como vocês deveriam saber mas não sabem, isso é impossível em uma sala com um professor e 40 alunos (muitas vezes adolescentes carentes de tudo em plena ebulição hormonal).

4 – Uma escola estruturada.

Sala de projeção preparada pra colocar a apresentação (filme, curta, power-point, seja lá o que for); sala de leitura com responsável aberta o dia inteiro; sala de informática com responsável aberta o dia inteiro (e com mais de 10 computadores funcionando!!!); material didático sem limites, mas também sem distribuição forçada entre os alunos; xerox pros professores; internet wireless banda larga decente; computadores disponíveis nas salas, sala dos professores, sala de leitura e outros locais; sala de ciências, sala de artes e de outras disciplinas; quadra de esportes decente (até mesmo mais de uma), com vestiário, materiais esportivos e outras necessidades; áreas de lazer, áreas de descanso, áreas de jogos e brincadeiras; salas para atividades culturais (música, dança, pintura…)…

… Enfim, uma escola estruturada.

5 – Outros profissionais na escola para atuarem junto aos professores(as).

Psicólogos(as), pedagogos(as), assistentes sociais, médicos(as), dentistas, nutricionistas, dentre outros.

Senhoras secretárias e senhores secretários(as), as crianças que recebemos são carentes de tudo, como já disse aqui e como já disse em outro artigo, o qual teve uma grande repercussão.

Desta forma, o que eles não têm lá fora – apoio, conversa, assistência – a escola tem que dar. Simples.

E só.

Pra isso necessita-se de investimento de verdade na educação, não de mentirinha. Mas dinheiro sabemos que tem, né?

Depois disso, senhoras secretárias e senhores secretários de educação, podem nos cobrar o que quiserem. Podem nos cobrar resultados, podem nos cobrar melhoras no ensino, podem nos cobrar trabalho, presença, felicidade, carinho, beijinhos…

Podem nos cobrar um Brasil melhor daqui a uns 20 ou 30 anos.

Declev Reynier Dib-Ferreira
Profissional da educação

 

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20 comentários sobre “Nova Carta Aberta, agora a todas as secretárias e secretários de educação

  1. Olá, professor Declev!
    Sou professor do município de Novo Hamburgo, região metropolitana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul (longe do RJ, mas de realidade educacional próxima). Sigo, há algum tempo, seu site e me identifico muito com suas ideias. Assim como você, também sou a favor da melhoria de condições de trabalho para o professor, pois a situação atual é absurda. Li esse artigo e o enviei ao sindicato dos professores de minha cidade. Acredito que poderá ser muito útil. Gostaria de deixar disponível o link do sindicato para que você, caso possa e quando tiver tempo (coisa rara para os professores, né?), enviar sugestões, ideias, artigos seus para fortalecer a discussão em favor do professor.
    Um abraço!

    http://www.sindprofnh.org.br/index.htm

  2. Declev Dib-Ferreira, olá !
    Gostei muito deste seu brado !
    Temos que dar um basta nessa hipocrisia que eles estão sempre fazendo com o ensino público brasileiro !
    O que você focou, concordo, plenamente com tudo !
    Só acrescentaria doi tópicos :
    1º – Sistema de monitoramento por câmaras digitais, pois o professor tem que ser protegido contra armações decorrentes das atuais leis de proteção ao menor !
    2º – Vigilância 24 horas, todos os dias, por elementos preparados para tal, pertencentes ao exército, polícia militar ou guarda municipal, sempre em número de três à cinco membro, com apoio externo .
    Continue na Luta, Professor !
    Abraços à todos !
    Somel Serip.

  3. Declev, parabéns de novo pela clareza de ideias.
    Do jeito que você escreve, dá pra ter uma dimensão de como as soluções são até simples para questões tão complexas; o problema é o descompromisso político total com a melhoria efetiva, de verdade, da educação.

    abraço,
    heraldo hb

  4. Sabemos o q deve ser feito,TODOS SABEM PQ NÃO É FEITO?VIVEMOS a cumprir ordens, ordens e ordenso aumento de trabalho é absurdo,colegas caindo doentes as pencas,e agora a salavação da patria NOVOS TRAINEES Q VÃO GANHAR POR VOLTA DE 2.500 REAIS devem saber tudo e eu com 23 anos de trabalho(o q eles tem de vida) certamente não sei nada abs DECLEV

  5. Caro Declev

    Parabéns pelo seu projeto, em cinco passos você demonstra que é possível se ter uma educação de qualidade, bastando apenas vontade e seriedade na aplicação dos recursos. Tomei a liberdade de fazer uma chamada em meu blog para divulgar o sua excelente proposta.
    Há uma proposta interessante na blogosfera para a criação da UVD – União Virtual dos Docentes – uma entidade sem fins lucrativos e independente, reunindo educadores de todo o Brasil, para através da rede de blogs, fazer campanhas mobilizando a categoria para atuar encaminhando propostas e projetos reais para a educação . A proposta apresentada por você deve ser transformada em projeto de lei, e defendida por todos nós.
    Gostaria também de resaltar que as medidas propostas por Somel Serip, são excelentes e poderiam evitar casos como o da menina agredida dentro da sala de aula, ontem 19/08, em Santa Cruz, pela mãe de uma colega de turma (artigo completo no blog Luta pela Educação Diário da Classe.

    Obrigada por mostrar que há luz no fim do túnel.

    Abraço a todos

    Graça Aguiar

  6. DECLEV, vc falou tudo que um professor deseja . Precisamos nos unir elevar a frente essa proposta.Parabens. Grande Abraco. Eleni

  7. Declev,

    Você sabe realmente o que é a Educação neste país, e o melhor sabe como realmente podemos melhorá-la de fato. Chega de projetos, projetinhos e projetões, há muita verba que não é bem usada. É preciso ter escolas com autonomia e que trabalhem com as necessidades da comunidade. Vejo que muitos destes projetos só querem falsos números e que não presam pela qualidade de ensino. E que cada vez o professor é deixado de lado, em troca de outros interesses políticos. É hora da virada pra termos bons cidadãos no futuro. Um abraço. Estou divulgando seu texto pra vários amigos e companheiros.

  8. Professor, tenha todo o meu apoio, pois eu também sofro como paciente desses programas de ensino mirabolantes, como o tal de CBC (Conteúdo Básico Comum), que eu custo a crer que uma das autoras foi uma professora de renome, cunhada do Ministro Luís Soares Dulci. Este tal CBC é tão incrível que colocou para ensinarmos aos alunos a descolonização da África e da Ásia, antes da Primeira Guerra Mundial. Como Professor de História da Rede estadual de Minas Gerais eu tenho sérias objeções a esse programa, que noutra aberração, coloca dois capítulos sobre escravidão no Brasil, e nenhum sobre a formação de Minas Gerais, mandando que a gente parta diretamente a Inconfidência Mineira.

  9. Corrigindo: parta diretamente para a Inconfidência Mineira.

  10. Bom Dia!
    Entrei por acaso no seu site e li seus desabafos dos quais compartilho. É gratificante saber que neste Universo Educacional existe UM PROFESSOR com ideais que sonha com uma educação de qualidade e não de quantidade, que utilize a verba da educação para este fim e não com outras finalidades. Sempre digo que enquanto Educação, Saúde, Habitação, Transporte e etc., for palanque para políticos nunca sairemos do lugar.
    Não desista nunca dos seus sonhos.
    Abraços,

  11. Bem tenho 16, estou no terceiro ano do curso normal e farei um trabalho sobre verba educacional. Eu adorei seu artigo pois nele fala realmente do que precisamos dos secretários de educação. Porque como você já havia dito verbas nós temos, e muita! É só parar um pouco a questão da robalheira e passar a investir de verdade. Uma educação politizada e coerente, não um engana bobos, pois tem muito jovem realmente INTERESSADO em educação, em ser alguém melhor e transformar o Brasil em um lugar melhor também. O problema é que a maioria da população brasileira possui uma venda nos olhos e não lutam realmente pelos seus direitos. Tenho esperança de que um dia essa situação vai mudar, ainda restam pingos de esperanças em alguns adolescentes que não são alienados como a maioria. Parabéns pela matéria, foi de importante valor para mim. Desde já agradeço, LaísC.

    • Oi Laís,

      Muito obrigado.

      Se você tem 16 anos mesmo, parabéns, sua escrita é muito boa e suas ideias transparecem muita lógica.

      Será uma ótima professora, das que estamos precisando.

      Abraços,

  12. Declev,
    Bom dia!
    Foi uma imensa alegria ler a sua carta aberta aos poderosos da
    nossa DEBILITADA EDUCAÇÂO. Com apenas 5 passos você
    conseguiu REANIMAR e até nos MOTIVAR a fazermos pela
    nossa PROFISSÃO não um monte de projetos, projetinhos, …
    que não nos levam a lugar algum e sim nos unirmos com
    profissionais que acreditam que a EDUCAÇÃO DE
    QUALIDADE pode e deve ser para todos, basta que ELES nos
    dêem subsídios para tal,pois competente nós somos.
    Parabéns e obrigada pela sua sabedoria.

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