Só abri a gaveta e peguei – dia a dia do professor

Só abri a gaveta e peguei – dia a dia do professor

Bom dia. Faz tempo que não escrevo aqui, assim, como um diário, uma crônica do dia a dia. Mas, depois desta frase “Só abri a gaveta e peguei”, meu dia a dia do professor eu vi que deve ser compartilhado.

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Até porque não é fácil e a gente precisa tipo, assim, desabafar.

Nós, professores, não batalhamos por regalias. Mas todo dia a gente tem que batalhar para não preder direitos. A cada ano a gente pensa “que direitos vão querer tirar da gente este ano?”

Hoje em sala ouvi, de um aluno, falando “ao alto”, tipo ninguém tá ouvindo, nem o professor, que “Dia do Professor nem devia existir!”. Assim como soltando um ‘não merecem´.

Aí, na sala onde dou aula tenho uma parte separada, com armários com gavetas grandes onde armazeno o material que tenho (sim, tenho).

Vou usando com parcimônia para não acabar e nunca mais ter, então tomo cuidado com eles. Não deixo aluno ir lá pra trás para… vocês sabem, né?, não sumir coisas.

Aí, hoje, vejo um aluno – dos melhores que tenho em sala, diga-se de passagem – passar para as mãos de outra aluna – das piores que tenho em sala – um objeto que me pareceu um tapa-olho, daqueles que se usam em aviões.

Esses tapa-olhos vieram em uns kits de experiências para serem usados para trabalhar os sentidos do corpo, como o tato, olfato e paladar.

Eu pergunto o que é, não me dizem, pergunto de novo, desconverso, pergunto de quem é, não falam. Eu levanto e vou até a mesa, confirmo que é um dos tapa-olhos que tenho nos meus alfarrábios.

— Quem pegou?

Ninguém se assum, ninguém fala. Apontam para o ‘bom’ aluno, eu o questiono.

— Você pegou? Você foi lá trás?

— Eu fui pegar luvas… (aquelas luvas de plástico, mas também nem sei porque ele teria ido lá pegar luvas)

— Isso aqui, você pegou?

— Eu fui lá, abri a gaveta pra pegar luvas pra elas…

— É meu — se mete outro aluno.

— Ah, é seu esse objeto que é igualzinho ao que tenho lá dentro. Então, foi você quem pegou??

— Né meu não… rs

— Você pegou isso aqui de lá, Fulano?? — pergunto de novo.

— Peguei…

— Então, você foi lá trás sabendo que não pode ir, abriu uma gaveta, pegou esse objeto e trouxe aqui e deu pra ela?

— Sim…

— Então você me roubou!

— Ele não roubou, se ainda está aqui dentro da sala — tentam defendê-lo.

— Eu fui lá trás pegar luvas, eu só abri a gaveta e peguei.

— Ah, então eu posso ir até a mochila de vocês, abrir e pegar alguma coisa, eu não estarei roubando??

Cara… foi uma confusão, os alunos todos CONTRA mim, defendendo o aluno que pegou o objeto.

Normal. Qual o problema de pegar algo que não é seu, mas da escola?

Depois ainda chamei o coordenador para me ajudar com a confusão – não só pelo objeto que tem valor insignificante, mas pela ação de ter pego, pela defesa do ato, pelos ataques que sofri por estar tentando explicar que aquilo era errado.

Minha aula acabou e saíram todos cobertos de razão.

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